Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

A e$petacularização da vida

Por Rosildo Brito em 01/07/2014 na edição 805

Para além de o maior e espetacular evento esportivo internacional, a Copa do Mundo representa um momento valioso para refletirmos sobre este que tem se tornado um dos fenômenos sociais mais estudados nas universidades e discutido fora destas, que é a espetacularização da vida contemporânea.

Apontada pela imprensa como o maior espetáculo da Terra, a Copa traz à tona de forma explícita a certeza de vivermos numa sociedade planetária totalmente ambientada pela mídia e regida pelo poder do capital. Não é para menos. Trata-se aqui de um evento esportivo que, para além de um campeonato de futebol, põe em jogo um artimanhoso esquema que envolve ao mesmo tempo negócio, paixão e cultura. Uma receita infalível para a automanutenção do sistema hegemônico vigente.

O primeiro dos três aspectos fica evidente nas cifras que o próprio evento movimenta. E ai, vale ressaltar que estamos diante de um acontecimento promovido pela entidade que mais arrecada dinheiro em todo o mundo. Só para a Copa do Brasil, a Fifa arrecadou 1,4 bilhão de dólares com 22 empresas, divididas entre apoiadoras e patrocinadoras desta edição do campeonato. Dividido este valor total entre o número de empresas patrocinadoras, teremos um investimento médio de 63 milhões de dólares por empresa. Isso sem falar nas dezenas de marcas publicitárias que não constam no ranking do patrocínio oficial, como é o caso, por exemplo, da Gol e da Lupo, para ficar apenas nestas duas empresas de grande potencial financeiro.

Só a Sony, que tem um time trabalhando de olho nas Fan Fests (festas que reúnem multidões para assistir aos jogos da Copa em várias cidades do mundo), assinou contrato de US$ 305 milhões com a Fifa para se tornar parceira oficial. Afora a indústria publicitária, outra vantajosa fonte de recursos advém dos valores suntuosos cobrados das transmissões exclusivas das emissoras de TV que, afora a Fifa, são quem mais fatura com esse evento bilionário e fascinante que é a Copa Mundial de futebol.

Um negócio espetacular

Mas, muito mais que faturar, é esse dispositivo midiático que, mais do que nenhum outro, é responsável pelo fenômeno de espetacularização já mencionado e que traz em seu bojo o germe da grande paixão que se tornou o futebol.

Muito mais que um mero meio de transmissão de sons e imagens líder em audiência em todo o mundo, cabe à mídia televisiva, na condição de meio de comunicação de massa por excelência, fornecer aos acontecimentos e personagens nestes envolvidos a dimensão pública e espetacular própria da sociabilidade contemporânea em que vivemos. Uma sociabilidade que tem na telerrealidade, ou seja, a realidade construída pela televisão – a qual mais que retratar, reconstrói o real de acordo com a lógica para a qual foi programada –, um dos sinais mais característicos da vida contemporânea. Como nos faz ver o estudioso da mídia Antonio Albino Canelas Rubim, é essa nova dimensão pública constituída pelas redes de espaços eletrônicos que dá suporte e viabiliza televivências, ou seja, vivências à distância, em espaço planetário e tempo real. Não seria isso, por acaso, que estamos todos vivendo com a Copa do Mundo?

Atrelado a estes dois aspectos aqui destacados, o negócio e a paixão, há um outro fator preponderante para o avanço do fenômeno da espetacularização da sociedade que é a cultura. E, nesse sentido, como defendem vários estudiosos, dentre os quais ressaltaria o pensador francês Jean Baudrillard, vivemos incondicionalmente sob a égide de uma cultura cada vez mais predominantemente imagética. Num mundo organizado em torno de simulacros e simulações do real, as quais transformam radicalmente nossas experiências de vida, de ver, sentir e nos colocar no mundo, resumindo tudo a um grande e efêmero espetáculo.

É justamente aqui que entram em cena, de forma determinante, as tradicionais e novas tecnologias de informação e comunicação, as quais, vale ressaltar, retroalimentam, por meio do encantador mundo do entretenimento, a logística do consumismo que reina na sociedade contemporânea e que tem nos produtos gerados por este, um de seus mais emblemáticos e lucrativos meios de consolidação.

E é justamente aqui que se enquadram eventos como este que o mundo todo compartilha na atualidade por meio dos monitores de TV que é a Copa do Mundo. Um evento que, para além do que nos querem fazer enxergar, muito mais que “o maior espetáculo do planeta”, é, sem sombra de dúvidas, um inequívoco símbolo da espetacularização da vida. Uma vida cada vez mais redonda, como é a bola que rola nos campos aos olhos dos dirigentes capitalistas e entre os pés daqueles para quem, muito mais que paixão e espetáculo grandioso, a Copa do Mundo representa mesmo é um negócio espetacular!

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Rosildo Brito é jornalista e professor

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