Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

A épica de nossos tempos

Por Sérgio Augusto em 01/07/2014 na edição 805
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 28/6/2014; intertítulo do OI

Blogueiros mexicanos e argentinos declararam guerra aos internautas que, avessos à Copa, transformaram em meme uma foto de Jorge Luis Borges acompanhada desta citação : “El gusto por el fútbol es universal porque la estupidez es universal.” A primeira batalha eles venceram, corrigindo a citação. “El fútbol es popular porque la estupidez es popular” – foi isso o que Borges na verdade disse, numa célebre entrevista ao diário portenho La Razón. Se dá no mesmo, abstenho-me de julgar, até porque considero a frase (e sua variação) tão equivocada e reducionista quanto a visão que dois outros mestres da literatura, Lima Barreto e Graciliano Ramos, tinham do futebol.

Borges apreciava brigas de galos, cuja paulatina substituição pelo futebol na preferência dos argentinos de arrabalde só lhe aumentou o ódio pelo esporte britânico. Considerava a invenção do futebol “um dos maiores crimes cometidos pela Inglaterra” e de birra agendou uma palestra para a mesma hora em que a seleção argentina disputava seu primeiro jogo na Copa de 78, em Buenos Aires.

Gabava-se de nunca sequer ter entrado num estádio, mas ao poeta e amigo Roberto Alifano admitiu ter ido uma vez a um jogo entre as seleções da Argentina e Uruguai, na companhia do escritor uruguaio Enrique Amorim, outro desinteressado por futebol. Conversaram o tempo todo sobre literatura e foram embora no intervalo, crentes que a partida já havia terminado, e nunca se interessaram em conhecer-lhe o resultado.

Borges é exceção, mas não a única entre os craques da literatura hispano-americana. Julio Cortázar só gostava de boxe e o cubano Guillermo Cabrera Infante nem depois de estabelecido em Londres deixou de considerar o futebol um “jogo nefasto, que incita a violência”. Nem precisaria convocar estrelas hispânicas de além-mar, como os espanhóis Enrique Vila-Matas (torcedor do Barcelona e a cuja paixão futebolística dediquei uma coluna inteira, dois anos atrás), Manuel Vázquez Montalbán, outro barcelonista histórico, e Javier Marías (“merengue de coração tão branco”, ou seja, aficionado do Real Madri) para acentuar ainda mais a marginalidade dos autores antifutebolistas, notadamente nos dois lados do rio da Prata.

Foi escrita por um uruguaio, Horacio Quiroga, a primeira grande narrativa curta ambientada no mundo do futebol: Suicidio en la Cancha, publicado em 1918 e ficcionalizando o caso real do jogador Abdón Porte, que se matou com um tiro, no círculo central do gramado do Estádio Nacional de Montevidéu. Eduardo Galeano, outro uruguaio e torcedor do Nacional, produziu um dos melhores livros sobre futebol que conheço: Futebol, ao Sol e à Sombra, traduzido pela L&PM.

Jogadas inspiradas

Só com uruguaios poderíamos montar um tremendo escrete literário. No qual, por supuesto, a vaga de Mario Benedetti, que a um ponta-esquerda dedicou um conto em meados dos anos 1950, estaria garantida. Assim como a de Juan Carlos Onetti, que chegou a vender ingressos na entrada do estádio de Montevidéu, conforme nos revelou Juan Villoro, em seu último comentário sobre a Copa para o Estadão.

Esticando até o Chile, topamos de cara com Pablo Neruda, pioneiro na valorização do futebol como o oposto do “ópio do povo” excomungado por muitos de seus companheiros de esquerda – em todo o continente, diga-se. Conheço pelo menos dois poemas que ele dedicou ao esporte das multidões. O primeiro (“Los Jugadores”) é de 1923. Na juventude, entrou para sócio do Deportivo Magallanes, opção assumidamente poética, pois embora tenha sido o primeiro campeão nacional do Chile (e embrião do Colo-Colo), o centenário grêmio de Santiago não levanta um título há 76 anos.

Por falar em Villoro, dele estou lendo o romance Arrecife, recém-traduzido pela Cia. das Letras, e há anos o sigo com enorme interesse nas páginas de El País. Além de futebol e ficção (torçam para que lancem aqui El Testigo), também chuta com as duas na ensaística literária. Mexicano de origem, vive entre a Cidade do México e Barcelona. Em seu país torce pelo Nexaca e na Espanha, claro, pelo Barça, clube que adotou na infância, por influência do pai, o filósofo Luís Villoro, natural da Catalunha. Esta é a sétima Copa que ele cobre como jornalista.

Foi a Villoro que o chileno Roberto Bolaño dedicou o seu, que eu saiba, único conto futeboleiro, Buba, sobre um fictício atacante africano que se consagra no Barcelona, ajudado por um bizarro ritual de magia negra. O narrador da história é um ponta-esquerda argentino chamado Acevedo, presumível alter ego de Bolaño, que nas peladas de infância também atuava pela esquerda, mas sem sucesso por ser dislexo. E por ter uma visão esotérica do futebol: achava mais interessante marcar gols contra do que a favor.

“Um gol, a menos que você seja Pelé, Didi ou Garrincha”, teorizou o autor de Os Detetives Selvagens, “é algo eminentemente vulgar e descortês com o goleiro adversário, a quem você não conhece e que nenhum mal lhe fez, ao passo que o gol contra é um gesto de independência, que deixa claro para os seus companheiros e o público que seu jogo é outro.”

Em todas as terras em que viveu (além do Chile, México e da Espanha), Bolaño torceu por clubes fadados ao fracasso, que caíam para a segunda divisão, dali para a terceira, até se desaparecerem. Eram suas “equipes fantasmas”. Nada mais bolañoso.

Se vivo fosse, Gabriel García Márquez teria feito apostas as mais audaciosas, e afinal certeiras, contra as seleções da Grécia, Costa do Marfim e Japão, dobrando-as, não sem bons motivos, contra o próximo adversário da Colômbia na Copa, o Uruguai. Cronista de futebol, boxe e ciclismo, era ao primeiro que reservava suas mais intensas palpitações. Entusiasmado com a seleção colombiana, que nas eliminatórias para a Copa de 94 goleara a Argentina por 5 a 0, apostou uma Mercedes-Benz como ela traria o caneco dos Estados Unidos. Nunca soube se honrou a aposta com o dr. Danilo Bartulin, ex-médico e secretário particular de Salvador Allende.

Ao contrário de Javier Marías, que considera escrever sobre futebol “um descanso”, o argentino Ricardo Piglia prefere ler os textos de Villoro, Galeano, Juan Sasturian e Roberto Fontanarrosa a suar a camisa refletindo sobre o que Bolaño definiu como “a épica de nossos tempos, a epopeia com gandulas”. Levado a um campo quando tinha 12 anos, viciou no ato. Com o pai, assistiu a todos os jogos do Boca Juniors, no campeonato de 1954. Na década seguinte, morando em Mar del Plata, encantou-se pelo Estudiantes.

Quando peladeiro, Piglia atuava, como Marías, na ponta esquerda. Para ele, todo grande jogador tem a mesma estatura de um grande poeta e as jogadas mais inspiradas de cada um deles lhe vêm à memória como sonetos. Ah, se Shakespeare ouvisse isso. O bardo menosprezava o futebol.

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Sérgio Augusto é jornalista, colunista do Estado de S.Paulo

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