Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

O passatempo nacional favorito nos EUA: odiar futebol

Por Ann Coulter em 01/07/2014 na edição 805

Versão original: “America’s favorite national pastime: Hating soccer”, publicada no blog da autora, 25/6/2014; tradução de Felipe A.P.L. Costa

Adiei escrever a respeito de futebol por uma década – ou, aproximadamente, a duração média de uma partida –, a fim de não ofender ninguém. Mas já chega. Qualquer interesse crescente pelo futebol só pode ser um sinal da decadência moral da nação.

1. A realização individual não é um fator importante no futebol. Em um esporte de verdade, os jogadores perdem passes, arremessam tijolos e deixam cair bolas aéreas – tudo diante de uma multidão. Quando jogadores de beisebol saem do jogo por não terem rebatido a bola, eles estão sozinhos na base. Mas há também glória individual em home runs [beisebol], touchdowns [futebol americano] e enterradas [basquetebol].

No futebol, a culpa é dividida e, de qualquer modo, quase ninguém assinala um tento. Não há heróis nem perdedores, nenhuma responsabilidade, nenhuma autoestima frágil e infantil é magoada. Há uma razão para as mães perpetuamente preocupadas serem chamadas de “mães do futebol”, e não de “mães do futebol americano”.

Eles ao menos têm o Jogador Mais Valioso [MVP, na sigla em inglês] no futebol? Todos apenas correm de um lado para o outro do campo e, de vez em quando, uma bola acidentalmente entra. É quando nós, presumivelmente, enlouquecemos. Mas eu já estou dormindo.

Alemanha vs. Inglaterra

2. Mães liberais gostam de futebol porque é um esporte no qual o talento atlético encontra tão pouca expressão que as meninas podem jogar com os meninos. Nenhum esporte sério é misto, mesmo no nível do jardim da infância.

3. Nenhum outro “esporte” termina em tantos empates sem tentos como o futebol. Era esse o verdadeiro aviso em um letreiro de autoestrada em Long Beach, Califórnia, a respeito de um jogo da Copa do Mundo, semana passada: “2º tempo, transcorridos 11 minutos, placar: 0 x 0”. Duas horas mais tarde, outro jogo da Copa do Mundo tinha os mesmos dizeres: “1º tempo, 8 minutos, placar: 0 x 0”. Se Michael Jackson tratasse a sua insônia crônica com um vídeo de Argentina vs. Brasil, em vez de Propofol, ele ainda estaria vivo, ainda que chateado.

Mesmo no futebol americano, e com isto quero dizer futebol de verdade, há pouquíssimos empates sem tentos – e é bem mais difícil marcar quando uma meia dúzia de brigões de 150 quilos está tentando esmagá-lo.

4. A perspectiva de humilhação pessoal ou de lesão grave é necessária para ser computado como esporte. A maioria dos esportes é uma guerra sublimada. Como a sra. Thatcher teria dito, após a Alemanha vencer a Inglaterra, em alguma partida importante de futebol: “Não se preocupem. Afinal de contas, duas vezes neste século, nós os vencemos no esporte nacional deles.”

O futebol é europeu

Beisebol e basquetebol proporcionam uma ameaça constante de desgraça pessoal. No hóquei, há três ou quatro brigas em uma partida – e não é um passeio na praia estar sobre o gelo com um disco voando a cerca de 250 quilômetros por hora. Após uma partida de futebol americano, ambulâncias levam os feridos. Após uma partida de futebol, cada jogador ganha uma faixa e uma caixinha de suco.

5. Você não pode usar suas mãos no futebol. (Eliminando assim o perigo de ter de pegar uma bola aérea.) O que distingue o ser humano das feras inferiores, além da alma, é o fato de termos polegares oponíveis. Nossas mãos podem segurar coisas. Aqui está uma ideia grandiosa: vamos inventar um jogo no qual não seja permitido usá-las!

6. Eu me ressinto do aspecto forçado do futebol. As pessoas que tentam empurrar o futebol aos estadunidenses são as mesmas que querem que nós amemos [a série] Girls, da HBO, veículos leves sobre trilhos, Beyonce [sic] e Hillary Clinton. O número de artigos no New York Times afirmando que o futebol está “pegando” só é superado pelo dos que alegam que o basquetebol feminino é fascinante.

Noto que nós não temos de assegurar indefinidamente quão emocionante é o futebol americano.

7. É estrangeiro. Na verdade, esta é a razão exata de o Times estar constantemente compelindo os estadunidenses a amar o futebol. Um grupo de fãs de esportes entre os quais o futebol não está “pegando” de modo algum são os afro-estadunidenses. Eles permanecem claramente indiferentes ao fato de os franceses gostarem do jogo.

8. O futebol é como o sistema métrico, que os liberais também adoram, pois é europeu. Naturalmente, o sistema métrico emergiu a partir da Revolução Francesa, durante os breves intervalos em que eles não estavam cometendo assassinatos em massa com a guilhotina.

O fetichismo pelo futebol

Apesar de serem submetidos à lavagem cerebral ao estilo chinês nas escolas públicas, visando usar centímetros e Celsius, pergunte a qualquer estadunidense qual é a temperatura, e ele irá dizer algo como “70 graus”. Pergunte quão distante Boston está de Nova York e ele irá dizer que são aproximadamente 200 milhas.

Os liberais ficam furiosos e nos dizem que o sistema métrico é mais “racional” do que as medições que todo mundo compreende. Isso é ridículo. Uma polegada é a largura do polegar de um ser humano, um pé é o comprimento do pé dele, uma jarda é o comprimento da cintura. Isso é fácil de visualizar. Como você visualiza 147,2 centímetros?

9. O futebol não está “pegando”. Manchetes esta semana proclamavam “Audiência recorde nos EUA para a Copa do Mundo”, e tivemos de ouvir – mais uma vez – a respeito da “crescente popularidade do futebol nos Estados Unidos”.

A partida EUA vs. Portugal foi o jogo de maior audiência, obtendo 18,2 milhões de telespectadores na ESPN. Isso supera a segunda partida de futebol mais assistida no país: a final da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 1999 (EUA vs. China) na ABC. (No futebol, os jogos das mulheres são tão emocionantes como os dos homens.)

Partidas comuns da temporada regular de futebol americano, domingo à noite, têm em média mais de 20 milhões de telespectadores; partidas decisivas da Liga Nacional têm de 30 a 40 milhões de telespectadores; e a grande final [Super Bowl] deste ano teve 111,5 milhões de telespectadores.

Lembra quando a mídia tentou nos empurrar, alguns anos atrás, o astro de futebol britânico David Beckham e a sua esposa, sempre pronta para as câmeras? A chegada deles aos Estados Unidos foi anunciada com uma cobertura de notícias 24/7 [24 horas por dia, sete dias por semana]. Isso durou cerca de dois dias. A audiência despencou. Ninguém se importava.

Se mais estadunidenses estão assistindo futebol hoje, isso se deve apenas à mudança demográfica efetuada pela lei de imigração de 1965, de Teddy Kennedy. Eu garanto a você: nenhum estadunidense cujo bisavô nasceu aqui está assistindo futebol. Podemos apenas esperar que, além de aprender inglês, esses novos estadunidenses venham com o tempo a largar o seu fetichismo pelo futebol.

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Aquarela do Brasil – Dorrit Harazim 

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Ann Coulter é escritora e advogada

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