Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

Uma mudança nos critérios de noticiabilidade

Por Thiago Amorim Caminada em 01/07/2014 na edição 805
Reproduzido do objETHOS, 30/6/2014; intertítulo do OI

Desde a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo 2014, em setembro de 2007, uma série de discursos foram publicados, reforçados, encobertos pelos veículos de comunicação. O mais célebre deles, “imagina na Copa”, passou por diversas modulações. De um tom ufanista e positivo, passou a ser uma expressão-chave das críticas às políticas públicas no Brasil.

No entanto, outras expressões formaram coro nas ruas e pararam nas capas de jornais e revistas e nas manchetes dos telejornais. Como é o caso do “vem pra rua” e que, nos últimos meses, transformou-se em “não vai ter Copa”. Mais uma vez a preocupação e desconfiança engrossaram com protestos, paralizações e greves nas grandes capitais brasileiras. Nas vésperas da Copa do Mundo no Brasil, jornais do mundo inteiro publicavam prognósticos nada favoráveis. No Brasil, a imprensa fazia o jogo do “morde, depois assopra”. A já conhecida mistura de torcida brasileira, análises e informações que toma forma nos veículos midiáticos ganhou a crítica política como novo ingrediente. Ninguém duvidava de que esta seria uma copa de muitas notícias de grande repercussão, afinal “má notícia é boa notícia”.

Que imagem?

A competição começou e todos nós já sabemos o que vem acontecendo: os protestos minguaram, os estádios estão lotados, nossos vizinhos da América do Sul estão migrando ao Brasil para acompanhar o bom desempenho de suas seleções. Algumas falhas de segurança, casos isolados de confusão protagonizados, em sua maioria, por turistas estrangeiros e alguns transtornos de mobilidade. No conjunto da obra, a Copa no Brasil é quase perfeita.

As manchetes de jornais e revistas internacionais mudaram de humor e (pasmem!) boa notícia está sendo, de fato, boa notícia. O francês Le Monde usurpou a frase dos militares e sentenciou como “milagre brasileiro”, até os aeroportos foram elogiados no britânico The Economist. Foi verdadeiramente um milagre? Nem tanto. Sabe-se que além de más notícias, outra coisa vende muito jornal: imprevisibilidade. A cobertura da copa mudou de tom, mas continua uma bela história a ser contada: passou de tragédia para uma reviravolta de tirar o fôlego.

Estamos, nesta semana, atravessando o meio da competição e nascem diversos questionamentos. Não como os de Veja, que se perguntam até quando tudo vai dar certo. Porém, quando se pensa na cobertura jornalística e no discurso dos jornais, podemos pensar, inspirados na pesquisa do professor Luiz Gonzaga Motta, qual será a imagem de Brasil construída através da cobertura da Copa do Mundo 2014? Há muito que se ver e muito a que se estudar.

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Thiago Amorim Caminada é mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

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