Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO & FILOSOFIA

Debord envelheceu? O louvor ao espetáculo

Por Daniel Gorte-Dalmoro em 08/07/2014 na edição 806

Acompanho o perfil no Facebook da professora de Comunicação da UFRJ Ivana Bentes há um bom tempo. Não se trata de alguém que eu admire, nem que eu concorde. Acompanho porque acho interessante alguém de dentro do establishment espetacular apoiar tentativas de criar formas heterodoxas de questionamento da ordem, coisa que professores marxistas que acompanho pela rede do senhor Mark Zuckerberg reprovam (para falar o mínimo). Estamos, em tese, no mesmo espectro político, o que não impede que eu tenha muitas críticas às suas ideias. Até hoje evitei explicitá-las para além do círculo de amigos por uma questão hierárquica: afinal, ela é uma doutora, pesquisadora e professora universitária, enquanto eu sou um reles mestre em Filosofia, estudante de iluminação cênica e metido a escrever.

Se hoje me atrevo a redigir algumas de minhas críticas e publicá-las, é porque ela resolveu se meter numa área para a qual estou qualificado para discutir, dentro da chancela acadêmica a partir da qual fala: Guy Debord e a sociedade do espetáculo. Não falarei aqui da sua produção acadêmica, que desconheço, e sim, do que chega ao grande público leigo, o que não deve ser desprezado nem visto como secundário, a se acreditar no que ela fala a esse público – o que lhe garante o rótulo de ativista. Facebook, entrevistas, mesas-redondas, penso eu que, dentro da sua concepção, são momentos de um mesmo pensamento que se pretende prático e, portanto, se recusa a se engessar em artigos acadêmicos herméticos.

Antes de chegar na postagem recente no Facebook, trago minha visão sobre outros dois momentos da professora Ivana.

II Congresso de Jornalismo Cultural – Ivana x Veja

A primeira vez que tive contato com Bentes foi no segundo Fórum de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult, no Tuca, em 2009. Ela participava de uma mesa-redonda com Carlos Graieb, editor-executivo da revista Veja. Foi talvez a mesa mais constrangedora a que já assisti. Graieb falou primeiro, calmamente defendeu posições grosseiramente conservadoras, principalmente a hierarquização dentro da mídia: segundo ele, o editor daria credibilidade àquilo que é publicado e evitaria que os leitores fiquem perdidos em meio a uma miríade de informações contraditórias e contestáveis. Terminou sua fala provocando: “Acho que a professora Ivana deve ter algo a dizer”. E tinha. Apesar de não ter deixado de tuitar enquanto o editor de Veja falava, prestou atenção e criticou de maneira enfática a hierarquização defendida por ele, toda a mídia tradicional – não hesitou em nomear e adjetivar a revista Veja –, defendeu a pesquisa na internet, louvou o fim da mediação que o Google dava com toda a sua liberdade. O público aplaudiu a professora-ativista: ela tinha detonado os precários argumentos de Graieb. Abriu-se para debate e este precisou de menos de um minuto para derrubar toda a fala de Ivana, sem possibilidade de revide: “Você acha mesmo que o Google faz isso pelo bem da humanidade? Ela é uma empresa, igualzinho a Veja, quer lucro, vende os primeiros resultados pra quem pagar mais. O que há de horizontal nisso?” E ainda completou: os blogueiros mais lidos seriam os que fizeram seu nome da imprensa tradicional. Silêncio na plateia. “Inocente, pura e besta”, segundo a própria Bentes, em entrevista à revista Cult 188, foi como ela chegou ao Rio. Parece que ainda guarda um bom tanto das suas raízes.

Respeitosamente vândala

Ivana Bentes foi capa da edição 188 da revista Cult, de março de 2014 (ver aqui). Como sói acontecer com entrevistas destinadas à apresentação ao grande público de um intelectual ou afim, não se aprofunda muito. Me pareceu antes delimitar o campo de onde ela fala do que exatamente esmiuçar suas críticas. Mesmo assim, não deixa de haver contradições incômodas. Um exemplo: ela termina dizendo que “temos que lutar contra a financeirização da vida”, sendo que no início havia dito que “as favelas e periferias são o maior capital nas bolsas de valores simbólicas do país”. Se precisamos lutar contra a financeirização da vida, por que sujeitar a análise dessa luta à gramática financeira hegemônica? Ao falar em “capital” e “bolsas de valores” para questões sociais, Bentes me soou uma versão radical-cult do Dimenstein, sem extrapolar o campo conservador que o colunista da Folha e da Globo se situa com seu entusiasmo pelo “capital humano” tupiniquim. Outro: ao mesmo tempo que ela defende a necessidade de sair do papel de intelectual do tédio, que do alto faz o julgamento da situação, regurgita um calhamaço de termos técnicos filosóficos – muitas vezes sem necessidade –, capazes de deixar qualquer um menos afeito à linguagem pós-estruturalista se sentindo um parvo carente de Luz. Mas o que mais chamou a atenção na entrevista à Cult, principalmente nas redes sociais, não foi algum trecho da entrevista, suas ideias, nada disso: foi a capa da edição, em que Bentes apresenta seu dedo médio ao distinto público. A capa me fez lembrar de um amigo que invadiu a reitoria da Unicamp, em 2004, baixou as calças e mostrou a bunda ao fotógrafo da Folha. Virou capa do caderno Cotidiano. Contudo, meu amigo conseguiu uma polêmica mais rica do que a professora. De qualquer modo, polêmica pela polêmica me soa sempre muito pobre.

Guy Debord envelhecido

Dia 29 de junho a professora publicou em sua conta no Facebook:

“Guy Debord envelheceu: Nós somos o espetáculo! Um dia o mundo será uma imensa Copacabana! O sábado do jogo sufoco do Brasil contra o Chile consegui fazer o mais incrível síntese e reedição de um tropicalismo tardio (remixofagia) da nossa ‘geleia geral brasileira’ na Av. Atlântica. O Ato que juntou o Copa da Rua com a Carnavandalirização misturou manifestante torcedor e torcedor manifestante e evoluiu em clima político delirante. Porque fazer política é uma das formas do delírio. Dessa vez a polícia formou literalmente uma ‘ala’ ao final do cortejo, disciplinadamente, fechando e ‘cortejando’ a parada cívico-contestatória. E estavam lá todas as pautas, das micropolíticas do desejo até as remoções nas favelas e a desmilitarizaçao da polícia. Como diria Jean-Luc Godard, turistas e torcedores se encantavam e fotografavam, manifestantes protestavam, a comunidade LGBT e os pink bloc mostravam os corpos purpurinados e a polícia policiava. E as centenas de jornalistas acompanhavam tentando decifrar o cortejo-obra da politica em linguagem pós realismo mágico. Sociedade do espetáculo? Guy Debord envelheceu: Nós somos o espetáculo! Seja para perturbar e criar tensões e confrontos, seja para sermos domesticados e neutralizados! Como decide? Não vai ser nos pênaltis. O ato continuou pelas areias do Leme, parou para ver o jogo decisivo e continuou noite adentro – https://ninja.oximity.com/article/Futebol-sem-roupa-e-tropa-rosa-shock-n-1

P.S.: Debord continua inspirador, mesmo não acompanhando todas as consequências do seu discurso, muitas vezes usado de forma imobilizante.”

N’A sociedade do espetáculo, Debord põe os Conselhos Operários como uma demonstração, um embrião do que seria a sociedade pós-capitalista. Em tais conselhos, os produtores teriam controle sobre o que produzem e haveria um clima de liberdade e festa permanente, graças a essa condição de controle da própria história. Ivana parece aludir a essa festa dos Conselhos quando fala do manifestante torcedor unido ao torcedor manifestante em um delírio político. Atores sociais conscientes, assumindo a história como produtos de suas ações e comemorando em comum essa liberdade. Será? O que há é um carnaval que não perturba a ordem, apenas comemora a ampliação da política. Um ganho, sim, mas muito longe de ser uma vitória, e muito, mas muito longe de desqualificar as teses de Debord.

Uma primeira falta é perceptível nessa descrição de Ivana: a política. Talvez essa manifestação de torcedores manifestantes fosse político em junho de 2013, não o é mais um ano depois. Em junho de 2013 manifestações populares, ainda mais as manifestações parando as ruas das cidades eram uma excrescência que deveria ser combatida pelas forças da ordem, para manter o tráfego e a paz social. O MPL São Paulo conseguiu ampliar o estreitíssimo campo político brasileiro, recolocando as ruas como parte da Ágora. Pouco depois, os defensores das táticas black blocs conseguiram impedir que a tomada das ruas perdesse seu caráter contestatório e político – em que inocentes cartazes atrapalhavam o trânsito em uma faixa e se tornavam rotina protegida pelos militares. Garis do Rio e metroviários de São Paulo, já em 2014, foram dois exemplos de aprofundamento dessa disputa política que, como caracteriza Rancière, consiste no processo de desestabilização da ordem imposta pelo poder – que distribuiu e legitima corpos e funções dentro de uma ordem hierárquica – em favor de uma lógica mais igualitária (os movimentos dos trabalhadores sem teto entram nesta mesma lógica, porém sua luta vem desde antes das revoltas de junho de 2013, por isso não cito como exemplo pontual).

Na descrição do delírio político de Ivana, o máximo que se vê é a afirmação dos ganhos políticos do último ano: não há embate, não questionamentos à ordem, não há disputa para ampliação da pauta do que é considerado como sendo legitimamente político, não há, enfim, política. Há uma festa, só. A política como delírio de intelectuais. (Reforço meu ponto de partida: a descrição da professora.) Prova maior é a sua descrição da polícia militar: cortejava disciplinadamente essa festa, estava incluída nela. Nesse caso, ou temos uma revolução, ou temos uma contestação autorizada, porque não viola pactos e limites postos pelo espetáculo (governo, mercado e mídia) para seus súditos. E os críticos espetaculares do espetáculo louvam o poder quando imaginam questioná-lo.

A leitura que Bentes indica ter feito de Debord, centrada no seu aspecto mais visível e mais sujeito à ideologização, reforça o desvio do seu pensamento que o próprio pensador já previa. No capítulo VIII d’A sociedade do espetáculo, “A negação e o consumo da cultura”, Debord alertava tanto para “a crítica espetacular do espetáculo” (§196) quanto para o uso do conceito de espetáculo como “fórmula vazia da retórica sociológico-política para explicar e denunciar abstratamente tudo, e assim servir à defesa do sistema espetacular” (§203). Nos Comentários,de 1988, ele retoma: “A discussão vazia sobre o espetáculo – isto é, sobre o que fazem os donos do mundo – é organizada pelo próprio espetáculo: destacam-se os grandes recursos do espetáculo, a fim de não dizer nada sobre seu uso. Em vez de espetáculo, preferem chamá-los de domínio da mídia” (item III). Negar a teoria debordiana porque em um carnaval fora de época em que se gritavam palavras de ordem e a polícia militar acompanhava sem incomodar é uma leitura muito rasa – é um assujeitamento muito descarado para quem diz se revoltar contra essa política nos corpos –, e um uso ideológico que corrobora ainda mais a atualidade de Debord.

Quando Bentes exclama “nós somos a mídia!”, “nós somos o espetáculo!”, a professora não mente, em certo sentido: sim, estamos submetidos à mesma lógica de especialização e alienação do trabalho que sustenta o espetáculo. Somos nós que o sustentamos e o aplaudimos. Sempre fomos, isso está dito por Debord desde a década de 1960. Estamos sujeitos à sua gramática, à sua linguagem, por isso a Mídia Ninja pode disputar de igual para igual com a mídia tradicional: porque fala àqueles que entendem a língua espetacular. É uma visão diferente, pode ser mesmo questionadora de certo status quo, mas não é subversiva. Assim como o Fora do Eixo, tão elogiado pela professora na sua entrevista à Cult: ou ela acha que formar uma empresa de promoção cultural paralela às grandes indústrias culturais é romper com a lógica de valorização do capital e com o trabalho alienado? Nos shows do Fora do Eixo no Studio SP, eu pagava para entrar, os funcionários recebiam para trabalhar por tantas horas, tudo seguia o fluxo normal do capitalismo. Onde está o revolucionário? Até uma questão de impossibilidade objetiva, as experiências heterodoxas de questionamento da ordem que Ivana aplaude entusiasticamente não são anticapitalistas – e assumir isso não é um fracasso, mas uma potência para repensar novos atos. A afirmação efusiva de que somos o espetáculo, como se isso fosse uma novidade ou algo positivo, chega a ser preocupante a alguém que se pretende crítico e engajado.

Lembro uma coisa que o professor Marcos Nobre disse em uma aula, ainda na minha graduação: “Se você achou um erro num grande autor, releia, porque o mais provável é que você não entendeu.” Bentes, ao cravar que Debord envelheceu, fala o contrário do que diz, mostra que não entendeu o cerne da crítica do francês, e reforça o poder do espetáculo.

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Daniel Gorte-Dalmoro é estudante

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