Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

Golaço na Copa da Corrupa

Por Mario Sergio Conti em 08/07/2014 na edição 806
Reproduzido do Globo, 3/7/2014; intertítulo do OI

Com a incriminação de Nicolas Sarkozy, a França estufou o véu da noiva na Copa da Corrupção. Investigado num cipoal de casos rocambolescos, o marrento ex-presidente vem dando um banho nos adversários, apesar da baixa estatura. É acusado de receber € 50 milhões de Muamar Kadafi na campanha eleitoral, e anos depois ter se apressado em mandar as forças armadas bombardear o loquaz ditador líbio. De se aproveitar da senilidade da dona da L’Oréal para reforçar ainda mais seu bem fornido caixa dois. E, ao saber que seus telefones estavam grampeados pela Justiça, de usar o celular de um laranja para maquinar as mentiras que contaria aos juízes nos aparelhos grampeados.

Ponta-de-lança tinhoso e invocado, o popular Sarkô nunca se deu por achado. Quando se divulgou que estava sob escuta telefônica, comparou a Justiça francesa à Stasi, a polícia política da finada Alemanha do Leste. Tudo não passava de mentiras de comunas depravados, apesar das evidências acachapantes de corrupção ativa, tráfico de influência, formação de quadrilha e violação do segredo judicial. O ex-presidente periga passar dez anos vendo o sol nascer quadrado, mas sequer para de bufar.

Também, pudera. Seu antecessor, Jacques Chirac, o catimbeiro do Eliseu, foi condenado a dois anos de cana por criar empregos fictícios para cupinchas. Lépido como um escargot, o processo contra Chirac rastejou durante décadas, até ele não precisar cumprir a pena porque, afinal, tornara-se um provecto ex-presidente da impoluta República. No time da soi-disant esquerda, o presidente François Hollande teve que ser virar para dar combate à tabelinha infernal de Sarkô e Chirac. O PS adotou um estilo de corrupção à lá Molière, repleto de fintas e lances farsescos.

Logo ao assumir o governo, Hollande escalou para o ministério do Orçamento um tal de Jêrome Cahuzac, cirurgião plástico especializado em implantes capilares. Recompensava-o pelos bons serviços prestados à calvície dos socialistas, que, à falta de ideias radicais, passaram a ostentar topetes à altura dos salões mais elegantes. Cahuzac era benquisto também por jogar golfe, baforar Havanas e colecionar relógios de pulso de luxo – hábitos adotados pelo PS parvenu no afã de se mostrar confiável à burguesia. Descobriu-se então que o ministro tinha uns € 15 milhões depositados na Suíça e em Cingapura. Dinheiro podre de chique: jamais declarado ao fisco, proveniente de traficâncias que o esteticista entretinha com a indústria farmacêutica.

Mas Sarkô, precavido, deixara um beque parrudo plantado na grande área. Aliás, uma zagueira: a ex-ministra das Finanças Christine Lagarde (aquela de cabelo branco que está sempre bronzeada), que passou a presidir o FMI. Lagarde é investigada num affaire malcheiroso, no qual € 403 milhões foram parar no bolso um velho escroque, o cartola Bernard Tapie. Pois agora agendas de Sarkozy mostram que ele se encontrava secretamente com Tapie.Allez les Bleus!

Democracia parlamentar implica suborno?

A Copa da Corrupa é renhida. A malversação não é uma invenção alagoano-maranhense, ou começou com o mensalão petista ou os trens e metrôs tucanos. Fique-se só na Alemanha. O sisudo Helmut Kohl, chanceler por 16 anos e artífice da reunificação do país, foi pego na botija com dois milhões de marcos em doações ilegais. Seu sucessor, Gerhard Schröeder, assinou um contrato de € 1 bilhão com a Gazprom, a gigante russa da energia; deixou o cargo e, semanas depois, foi empregado pela Gazprom e passou a dispor de ganhos dignos de um Fred. Os ministros da Defesa e da Educação da atual chanceler, Angela Merkel, tiveram que renunciar por terem falsificado seus currículos, o que é considerado roubo intelectual na Alemanha.

Há investigações de casos grotescos de corrupção na cúpula da política na Espanha, na Grécia, na Irlanda, na Inglaterra e na Itália. Frente à roubalheira europeia, a brasileira (incluindo a dos estádios da Copa e a mal-ajambrada suruba de alianças eleitorais) soa canhestra. Não se está a sugerir que os políticos nacionais são varões de Plutarco e Garotinho é o seu Catão. Ou que o Estado está aí para isso mesmo. Ou que aqui se rouba menos nas altas esferas do que algures. Ou que o ser humano é corrupto por natureza. As abstrações interessadas e a indignação udenista aplainam o caminho dos candidatos a Bonaparte, como diria Joaquim Barbosa.

Mas conviria estudar o assunto objetiva e desapaixonadamente. Com o fito de entender se o modelo econômico dominante necessita da corrupção política. Se o incremento da desigualdade social tem ligação com a proliferação dos escândalos políticos das últimas décadas. Se a democracia parlamentar implica no suborno. Se República avança ou regride aqui e lá.

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Mario Sergio Conti é jornalista

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