Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > COPA DO MUNDO

A “neymatização” do jornalismo

Por Irlã Andrade em 15/07/2014 na edição 807

Durante a Copa do Mundo, o cotidiano das pessoas é invadido pela exorbitante espetacularização do evento, principalmente no campo midiático. Nas TVs, rádios, jornais, revistas e internet as empresas buscam tirar proveito do torneio capitalizando o momento de forma publicitária. Submergido neste clima, os veículos de comunicação aumentam acentuadamente a pauta de notícias relacionadas à Copa. E, como se viu nos mundiais anteriores, eles sempre elegem um rei, um mito, um herói entre os jogadores da seleção brasileira.

Neste Mundial, o herói brasileiro eleito escancaradamente pela mídia foi o atacante Neymar – que é sem dúvida um excelente jogador. Ao longo da Copa (e mesmo pouco antes dela), um percentual elevadíssimo do noticiário no país foi dedicado especialmente ao evento e dentro da pauta jornalística esse jogador foi o grande destaque. A importância midiática dada a Neymar foi tamanha que surgiu entre os órgãos noticiosos a ideia de que a seleção dependia muito dele para ter sucesso nos jogos. Imediatamente essa visão contagiou a opinião pública que, no dia-a-dia, deu eco a essa crença dominante.

Mas o herói tão endeusado pela mídia foi apunhalado pelas costas, vitimado por uma joelhada que fraturou a sua terceira vértebra lombar, tirando-o definitivamente do Mundial. O golpe foi desferido pelo lateral direito da Colômbia Juan Zuñiga durante partida vencida pelo Brasil por 2 a 1. A partir desse episódio ocorreu uma maior “neymatização” da abordagem jornalística sobre a Copa. Os enfoques lembravam até um noticiário fúnebre, como se o jogador tivesse morrido, considerando a homogeneidade das caras dos apresentadores e comentaristas de TV. Com isso, a ideia de “Neymar herói” saiu de cena e o zagueiro David Luiz assumiu o posto.

Irritação e frustração

Diante da ausência do craque da camisa 10, o noticiário esportivo brasileiro apresentou o “rei David” como o novo líder que, com todo o seu carisma e carinho com o torcedor, seria o jogador responsável por liderar dentro de campo a trajetória do Brasil rumo ao hexa. Mas, infelizmente, um triste futuro estava reservado para a seleção canarinho. A Alemanha passou o rolo compressor sobre os brasileiros na vitória humilhante por 7 a 1, determinando o fim do sonho do hexa.

Após o maior vexame da história do futebol brasileiro, ficou fácil para a mídia apontar culpados. Comentaristas, cronistas, articulistas, jornalistas… todos passaram a eleger culpados, deixando transparecer a irritação e a frustração pela derrota. Quem é o maior bode expiatório? Felipão? Fred? O time todo? Isso é assunto que gera muita discussão. Mas uma coisa é certa: a morte do Brasil na Copa levou consigo a “neymatização” do jornalismo brasileiro.

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Irlã Andrade é jornalista

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