Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > ECOS DA COPA

A volta do ‘complexo de vira-latas’

Por Eduardo da Silveira Campos em 22/07/2014 na edição 808

Até os melhores amantes possuem dias de fracasso. Há, sim, aqueles dias em que elas saudosas suspiram pela noite de amor de ontem, haja vista que a de hoje nem de longe lembra a dos tempos áureos. Entretanto, ela carrega uma espécie de “paixão intemporal” que faz reverberar sempre o fulgor do amante, a despeito de tudo… Ela se encontra suspensa num instante de gozo!

Isto parece ser o que Nelson Rodrigues disse sobre si mesmo: “sou de um patriotismo inatual”. Ele não se deixava levar pelas tendências pessimistas atuais, pois estava suspenso num tipo de amor inabalável. Havia uma fé em si mesmo, fé esta que ele tanto exigiu de todo o povo brasileiro quando o assunto era o “escrete”. A sua crônica “Complexo de vira-latas” denunciava exatamente este sentimento de incredulidade do povo acerca da “seleção brasileira”. Uma incredulidade que pairava na época sobre o escrete de 58, mas que, antes de qualquer coisa, dizia respeito a uma incredulidade inveterada do povo brasileiro sobre si. Sim, o povo brasileiro tem esse “complexo de vira-latas” – ainda hoje. Foi o que vimos e revimos nos últimos dias nos comentários sobre a seleção brasileira. Uma boa seleção brasileira – campeã da Copa das Confederações de 2013, mas, evidentemente, que nem se aproximou em qualidade das seleções de 1970 e 1982.

Como se espera de todo “complexado” alguém deve ser escolhido para aliviar a sua culpa, que vem a ser o sintoma característico do sentimento de inferioridade do vira-latismo. Todo complexado busca “causas”, pois ele não suporta assumir uma dor que não tenha um porquê. Então o povo, ou melhor, a opinião pública, sobretudo, os “especialistas em opinião pública” escolhem um Judas para dar audiência às suas falas toscas e estúpidas e abrem as vísceras do infeliz como quem abre a “caixa de pandora”. Com as tripas expostas tripudiam sobre o exangue com um ódio voluptuoso, pois todo o acometido pelo vira-latismo é ressentido, rancoroso.

“Opinadores profissionais”

O técnico da seleção é este que agoniza diante da dança sádica dos que celebram os fatos, as causas. Esses são como diria o próprio o Nelson, “os idiotas da objetividade”. São aqueles que tratam de iniciar prescrições de panaceias, estabelecendo um remédio objetivo como lenitivo, um purgante que extirpará finalmente a causa do mal. Já começaram as prescrições: “Tragam com urgência o Klinsmann como treinador, a seleção é a ex-melhor do mundo”, “Devemos nos render ao futebol da Alemanha”, “Falta um estrategista, alguém que entenda bem de esquema tático”.

“Esquema tático” nunca ensinou ninguém a dar um chute de folha seca, nem uma pedalada… O “esquema tático” não tem a inconsciência necessária para a espontaneidade do drible. “Idiotas da objetividade, idiotas da objetividade”, eu os desafio com alguns “fatos”: vão às ruas, às ruelas, aos campos de areia, vejam os chinelos dos moleques que fazem o papel de “trave” nas peladas da Baixada Fluminense. O “jeitinho brasileiro” – que por um lado pode ser um problema para muitos – é a fonte do drible. Daí vem todo improviso picaresco e também a sacanagem das pernas tortas do Mané – é o bom engano, embuste, malandragem: arte. Não devemos deixar de ser “vira-latas” para nos tornarmos morais como os “pastores alemães”. Não. Mas que vençamos o complexo de vira-latas com a nobreza do nosso futebol matreiro e criador.

Se houve fracasso (e houve mesmo!) devemos colocar na conta de boa parte da “opinião pública” que corroborou a ambiência enganosa em torno da seleção, fruto dos caprichos mercadológicos, de interesses que extrapolavam a mera alegria do futebol. E se houve um erro na comissão técnica foi ter acreditado, e pior, sustentado este engodo. Imaginem o que é estar na casa dos vinte anos, no próprio país diante de milhares de pessoas, tendo como finalidade, não a própria alegria de jogar futebol, mas um “resultado obrigatório”. Quando no primeiro gol os jogadores da seleção se depararam com a sua fragilidade, e perceberam que estavam em meio a um “conto de fadas midiático” (e até então – é preciso dizer – gostavam dele!), desmoronaram, sofreram um “apagão” durante alguns minutos, em outros termos, ficaram obnubilados. E quando vem a obnubilação não conseguimos realizar sequer as coisas mais simples. Um apagão que depois transformou-se em desânimo, frustração, desencanto. E quando se instala a desilusão… nem mesmo 180 minutos de jogo!

Certamente houve erros – mas houve muito mais a floração do rancor de “opinadores profissionais” enrustidos há tempos.

Que neste momento de dor e tristeza possamos sustentar um certo “patriotismo inatual” de amante inabalável, sem ufanismos, mas com a humildade daquele que sabe quem é si mesmo. Não alimentemos jamais o asco do erro com culpa e mais culpa; pelo contrário, que ela, a culpa, seja solapada pela principal virtude do brasileiro: rir de si mesmo, rir em meio ao seu infortúnio.

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Eduardo da Silveira Campos é doutorando em Filosofia

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