Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > TRAÇO DE GÊNIO

Henfil no ‘Pasquim’ e em outros jornais

Por Alexandre Albuquerque em 22/07/2014 na edição 808
Reproduzido d’O TREM Itabirano nº 107, julho/2014; intertítulos do OI

O fato de um autor de quadrinhos militar por uma causa ideológico-partidária não é necessariamente uma novidade: já o fazia nosso pioneiro na nona arte, Ângelo Agostini, que levantou as bandeiras da causa republicana e abolicionista por meio dos seus personagens na imprensa incipiente do dois últimos quartos do século XIX. Como era de se esperar, suas charges e ilustrações granjearam-lhe muitos inimigos poderosos nas elites brasileiras.

Em outro contexto, no período compreendido entre 1964 e 1985 (ditadura militar), outro cartunista emprega seu talento e energia para combatê-la pelo traço: o mineiro Henfil (Henrique Filho). Ele tinha um estilo peculiar em que as ideias brotavam diretamente da cabeça para a arte-final. Tinha um desenho sintético e caligráfico em que, sem se preocupar com os elementos estruturais dos quadrinhos, realizava um trabalho minimalisticamente. Não se sabe se era um cartunista militante ou um militante cartunista. O semanário Pasquim, em sua primeira fase, fazia um humor anárquico e político: interessava aos seus colaboradores fustigar o inimigo comum, a ditadura, não importando, por conseguinte, as cores ideológicas-partidárias dos seus colaboradores. A segunda fase do semanário compreende o período da abertura política, “lenta e gradual”, caracterizada pelo afrouxamento da censura e pelo retorno dos exilados políticos anistiados. Enfim, sua fase partidária.

Henfil inaugura, com seus esboços, uma maneira brasileira de fazer humor. Tanto na forma quanto no texto, a Graúna, o Bode Francisco Orelana, Zeferino, os Fradinhos, entre outras criações dele, atingem um paroxismo dialético. Tanto na forma quanto no conteúdo, eram revolucionários para a época.

Trabalho crítico

O Henfil cartunista era também um artista multimídia. Desenhava charges esportivas no Jornal dos Sports, diário carioca dedicado ao futebol, que tinha uma curiosa apresentação: um caderno na cor rosa.

Nesse jornal, Henfil criou um divertido leque de mascotes para os clubes cariocas, depois para os nacionais. Foi dele, inclusive, o personagem urubu que caracterizava (ou caricaturava) o Flamengo e a sua torcida. Nesse jornal, em que não exercia a charge política, típica do Pasquim, ele experimentou um agudo senso de oportunidade em sua militância esquerdista: seus personagens futebolísticos eram bizarramente divertidos e, nessa estranheza, discorria graficamente sobre os “anos de chumbo” inaugurados pela ditadura civil-militar.

Conversei com Nilson Azevedo, quadrinista mineiro, pupilo e discípulo de Henfil nos anos 70, quando morava com outros cartunistas engajados no Rio de Janeiro, cidade que experimentava ser a vanguarda do humor à época. Ele me contou um fato curioso: Henfil, que era hemofílico, não sentia frio na metade inferior do corpo, talvez por causa da doença. Pois não é que nos desenhos dele os membros inferiores eram rápida e toscamente rascunhados? Mais tarde, a hemofilia foi responsável por ele adquirir, via transfusões de sangue, o vírus HIV, que o levou à morte, em 1988.

Quando um dos seus discípulos se indispôs contra ele, o que o levou, mais tarde, a renegar o Rio de Janeiro como ambiente propício à sua militância política, e o levou a frequentar a mídia, inclusive a TV, para debater e confrontar mal-entendidos, Henfil foi de mala-e-cuia para São Paulo. Mais tarde, essa cidade também seria o universo desse discípulo. Trata-se de Angeli, que preferia a crítica ao poder numa outra frente de batalha: criticar, com personagens-vanguarda, o pequeno burguês, o tradicionalismo e os costumes. Esses personagens, quase sempre, pertenciam ao que Henfil acusava: de serem as minorias sofridas da sociedade, retiradas do lumpen-proletariado, termo marxista-leninista ao exército-de-reserva da força de trabalho no mundo capitalista.

Nilson Azevedo, cartunista da escola henfiliana, defendia a seguinte tese: além de existir um humor de direita, há duas possibilidades de fazer humor: o criativo e o reativo. Consideremos o segundo: humor reativo, tal qual a sátira tira partido da sátira, paródia e mimese para fazer rir. É o tipo de humor em que a demanda é a crítica sócio-política em que, antropofagicamente, utilizam-se de personagens, situações e títulos para fazer um trabalho crítico. Exemplo: Henfil cria um roteiro em que se vê às voltas com Mickey Mouse. O mundo Disney engendra possibilidades que Henfil utiliza na elaboração de sua proposta militante.

Entre os clássicos

Henfil é o criador que, na galeria dos quadrinistas brasileiros, pertenceu à nata que fez um desenho criativo, além de um desenho meramente reativo, o que só geniais como Agostini e seu Zé Caipora e Ziraldo com seu Pererê fizeram na história em quadrinhos brasileira.

Talvez, com o passar dos anos, a revisita ao trabalho de Henfil dará a devida importância à obra dele, que ainda não possui a distância temporal para permitir que se lhe dê os méritos consagrados aos clássicos universais.

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Alexandre Albuquerque é cartunista

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