Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > ECOS DA COPA

A psicóloga abre o jogo

Por Fátima Lacerda em 29/07/2014 na edição 809

Depois da vergonhosa derrota para a Alemanha (é dispensável mencionar o placar do jogo), o universo midiático procura, enlouquecido, uma explicação para o “apagão” da seleção canarinho. Mostrando-se solícita a essa demanda, a psicóloga Regina Brandão se aventurou na “toca do leão” do programa Roda Viva da TV Cultura (14/7), que, nas perguntas dos participantes da “roda”, representaram os anseios e os pontos de interrogação existentes na mente dos torcedores.

Um outro palco midiático “visitado” pela psicóloga, foi o programa Encontro com Fátima Bernardes (16/07). Nele, não havia fundamento em temer perguntas de peso jornalístico. Em ambiente global, ela se deparou com uma sala de visitas de design sofisticado e perguntas de curiosidade do tipo “eu preciso saber” – não pelo conteúdo, mas pelo babado forte. A apresentadora Fátima Bernardes, assim como o comediante Marcus Veras indagavam de forma, ao mesmo tempo pueril e vampiresca, e pareciam não “sentir firmeza” nas respostas. Enquanto perguntava sobre os aspectos que poderiam ter resultado na tragédia futebolística, a apresentadora mantinha o sorriso nos lábios, o mesmo sorriso que está presente sempre em suas entrevistas, não importando a seriedade do assunto. No final de tudo, as declaracoes da psicóloga não acrescentaram nada em informação (ver aqui).

O que se expressou de forma cristalina no jogo contra a Alemanha não é um fenômeno isolado, mas o resultado de anos de insistência no erro na gerência da seleção brasileira.

A sedução midiática

A psicóloga não economizou detalhes sobre o trabalho interno com os jogadores. Mesmo não citando nomes, houve declarações do tipo “dois jogadores me ligaram e me pediram para ir conversar com eles no hotel, antes do jogo”. Ela se disse impressionada com o fato de jogadores, atuantes no exterior, dominarem 3 ou 4 línguas. Como se a competência linguística ou um alto nível intelectual garantisse a segurança emocional de alguém. Fosse assim, diretores de empresas multinacionais, que vivem sobre pressão, seriam isentos do perigo da doença da modernidade, o distúrbio bipolar ou da síndrome de burn-out.

“A gente trabalha junto há muito tempo e eu tenho uma lealdade imensa ao Felipão, por tudo o que ele já me ajudou. Inclusive na própria universidade em que eu dou aula… Ele já esteve lá dando palestra, nunca cobrou nenhum tostão, sempre foi na maior boa vontade.”.

Nem no Roda Viva nem no Encontro com Fátima Bernades a psicóloga conseguiu esconder o prazer em ser foco de interesse midiático, o que automaticamente resulta num ceticismo necessário frente às suas declarações – como diz um jargão midiático “para serem digeridos com cuidado” (ver aqui).

O que aprender com os alemães

Quando assumiu o comando da seleção alemã para prepará-la para a Copa de 2006, o ex-treinador Jürgen Klingsmann, formado por uma universidade americana, criou o cargo de psicólogo como parte integrante da equipe. Já na apresentação da equipe técnica, estava lá o psicólogo “importado” dos EUA. Na época, Klingsmann, um perfeccionista na área de didática, ofereceu aos jogadores a total disponibilidade do psicólogo. Não havia uma sessão, nem mesmo um horário individual. Aos poucos, os jogadores foram aceitando a oferta e passaram a usufruir dela, independentemente se havia jogo no dia seguinte ou não.

A propósito da pressão “de um país inteiro nas costas”: nas quartas de final naquele 30 de junho de 2006, a Alemanha jogou contra a Argentina no esquema de quem perde sai, foi para os pênaltis e o ex-goleiro Jens Lehmann, com nervos de aço, segurou a pressão: foi brilhante porque foi treinado para isso nos mínimos detalhes.

Ao contrário da Alemanha, o Brasil é um país que cultua a emoção em todos os âmbitos, sem a diferenciação de como e quando usá-la da melhor maneira possível. Pregar a extinção da emoção em um jogador da seleção brasileira seria ingênuo, mas ensiná-los que a emoção não justifica tudo e nem mesmo é sempre bem-vinda, um dever.

A insistência no erro

Na entrevista de Regina Brandão ao Roda Viva, fica bem claro a prioridade que o ex-técnico Luiz Felipe Scolari deu a um tratamento psicológico aos jogadores. Felipão pediu ajuda à psicóloga somente depois da apresentação dos 23 convocados na Granja Comary, em Teresópolis (RJ). Nenhum psicólogo faz milagre. Esperar isso é tão ingênuo quanto acreditar em Papai Noel.

No caso da Copa do Mundo no Brasil e interpretando as declarações de Regina Brandão, o cenário se mostra ainda mais nebuloso, já que a declarada “lealdade” a Felipão tem como resultado a falta de distanciamento, imprescindível tanto para garantir a autonomia do próprio trabalho, como pelo sigilo médico obrigatório por questão de ética de proteção da esfera privada dos jogadores. Se durante a Copa já líamos declarações de rejeição por parte dos jogadores ao acompanhamento psicológico na seleção (“Eu não sou maluco!”), agora, com as revelações da psicóloga, o caminho para uma percepção natural de uma equipe de psicólogos será ainda mais longo. 

Quanto é necessário de teimosia para se convencer de pedir ajuda psicológica, quando o capitão, figura de referência para toda a equipe, cai no choro?

Felipão e a diretoria da CBF navegavam na certeza de que psicólogo é coisa de mariquinha, coisa de gente fraca. E enquanto isso teimar em acontecer, seja sobre o comando de Dunga, Teixeira, Marin e Del Nero, a seleção brasileira corre o perigo de vivenciar, de novo, um jogo que foi um verdadeiro confronto de culturas. Nem tudo que é bom para a Alemanha é bom para o Brasil e vice-versa, mas o que a Alemanha demonstrou é que está anos luz na frente do Brasil no âmbito de planejamento, no aparar das arestas e tornar, assim, o time de futebol ao mesmo tempo atrativo para os torcedores e perigoso para os adversários. “O planejamento é a metade do aluguel”, diz um ditado popular daqui, e espelha o intrínseco posicionamento cultural. Na administração da CBF ainda não caiu a ficha de que um jogo de futebol dura 90 minutos e não acaba quando os jogadores, emocionalmente esfarelados, terminam de cantar o hino nacional e estão preparados para enfrentar uma seleção como a da Alemanha, que foi ao Brasil com a gana de, finalmente, trazer a taça para casa.

Até que ponto um trabalho que era para gozar de total sigilo pode ser colocado à venda, seja em horário nobre ou em horário matinal?

Aprendendo com os erros

A vergonhosa derrota da seleção alemã na Eurocopa de 2000 serviu para que a Federação Alemã de Futebol (DFB) e a direção dos clubes arregaçassem as mangas e iniciassem o “puxar a corda do mesmo lado”, deixando as picuinhas clubísticas de lado. A performance da Alemanha na Copa do Brasil é o resultado de um trabalho de, no mínimo, oito anos – e que continua. Na segunda-feira (14/7), em entrevista à TV paga Sky, o kaiser Franz Beckenbauer disse: “Com essa seleção aí e os garotos que estão iniciando agora, será difícil vencer esse time”. Esse “garotos” são o resultado de um trabalho meticuloso, liderado por Mathias Summer, ex-técnico da equipe do Borussia Dortmund e, durante anos, contratado pela DFB e responsável pelo incentivo no futebol já desde a escola primária.

Recordar é viver

Com a convocação de Dunga para novamente “comandar” a seleção brasileira e com a declaração de Marco Polo Del Nero, ainda durante o decorrer do mundial, de que “Felipão fez um bom trabalho”, e ao seu ver “deveria ficar”, não há motivo para crer que os dirigentes e diretores tenham tirado qualquer aprendizado de uma partida que ficará na nossa retina para sempre, com os jogadores deixados à mercê da sorte, humilhados no campo. O técnico tem uma responsabilidade pelos jogadores e Felipão, pela sua teimosia que atravessou o oceano e foi pauta midiática número 1, fracassou (ver aqui).

O semblante de desespero de David Luiz (e não é exagero denominar de “apagão”) espelhava uma comissão técnica cega, prepotente, e que conta com a vitória de um jogo como se ela fosse uma lei natural das coisas: se é Brasil, vai vencer. O adversário não interessa.

A entrevista de Carlos Alberto Parreira à TV alemã aberta ZDF, um dia antes da partida contra a Alemanha e seu otimismo oportunista, ratifica o estado lastimável de toda uma comissão técnica, de todo um aparato que continua vivendo nas glórias futebolísticas do passado. Mesmo depois do fim do mundial. Mesmo depois do anúncio da contratação de Dunga, na segunda-feira (21/7).

******

Fátima Lacerda é jornalista freelance, formada em Letras, RJ, e gestão cultural em Berlim, onde está radicada desde 1988; autora do blog “Todos os caminhos levam a Berlim”, no Estadão.com

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem