Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > ‘50 TONS DE CINZA’

‘Trailer’ do filme estreia no YouTube

Por Guilherme Fernandes em 29/07/2014 na edição 809

Há tempo que a indústria cinematográfica vem continuamente perdendo o senso da consequência de suas escolhas. Na ânsia por lucros sempre maiores, os executivos apostam altas cifras em qualquer filão que atenda a suas expectativas financeiras: romances água com açúcar, ficções científicas soft, histórias de super-heróis e adaptações de sucessos literários. Em meio a essa seara, muitas vezes possíveis danos, digamos, morais, não são justamente avaliados – quando não absolutamente esquecidos.

Na noite de quinta-feira (24/7) estreou o trailer oficial da adaptação cinematográfica para o best-seller 50 Tons de Cinza, romance de E.L. James. Um sucesso. Em menos de duas horas no ar, o filme, em seu canal oficial no YouTube (disponível aqui), já registrava mais de um milhão de visualizações – isso sem contar as versões legendadas num sem-número de idiomas e os espertinhos, que, na busca por views, inserem-no em seus canais pessoais –, além de muitos comentários.

Na hora em que o vi, as visualizações já haviam ultrapassado os dois milhões e meio. Numa soma tosca, estima-se que o trailer foi visto por mais de cinco milhões de pessoas num período de cinco horas. Ou seja, quase um milhão de pessoas por hora conferiram as primeiras imagens da história de “amor” entre Christian Grey e Anastacia Steele.

Aqui trataremos do filme, que fique claro. Caso queira saber minha opinião sobre os livros, leia aqui “50 tons de cinza e muito, muito açúcar”.

Frágil equilíbrio

Ao que parece, com base apenas no trailer, a adaptação é bem filmada, os atores estão bem – tirando as velhas discordâncias de “poderia ser este ou aquele ator” – e o clima do filme tende a ser diferente dos livros, até porque, convenhamos, o público médio dos cinemas está fixado entre 14 e 35 anos, e a preocupação com possíveis censuras com certeza fará com que os diretores peguem mais leve na história.

E é nessa diferenciação que pode residir o problema. Não acredito que 50 Tons de Cinza tenha classificação acima de 14/16 anos, uma vez que crianças e adolescentes fazem parte de grande fatia dos faturamentos cinematográficos. São eles que assistem aos filmes na estreia, compram produtos licenciados e geram marketing espontâneo pelas redes sociais. Porém, tal ânsia por lucros pode trazer (mais) problemas educacionais na relação entre jovens e adultos.

É notório procurarmos pelos livros após assistirmos às adaptações que nos agradam, ou mesmo antes. Vivemos em um frágil equilíbrio entre o filme e o livro. Em adaptações o que mais se vê são os comentários posteriores de que “o livro é melhor que o filme”, ou vice-versa.

Drama de consciência já tem data

Dito isso, pergunto: já que o caminho natural é procurar pelos livros tão logo assistimos aos filmes – ou antes mesmo de assistirmos às adaptações –, será que nossas crianças, que tentamos proteger diariamente da sexualização precoce, estão preparadas mentalmente para ler a trilogia de E.L. James? Você, pai e mãe, daria a trilogia de presente para seu filho(a) pré-adolescente de presente de aniversário? Qual o percentual de crianças e adolescentes até 16 anos que figura entre os milhões que assistiram ao trailer e inflaram os canais oficiais do filme no YouTube?

Encontramo-nos em uma situação desconfortável. Se limites morais são abandonados pela indústria cinematográfica, pais e familiares precisam ainda lidar, sem saber muito bem como, com conteúdos de qualidade duvidosa sendo bombardeados nos computadores e celulares de seus filhos. Estratégias organizadas, de como aumentar a censura do filme, não funcionam, já que isso desperta ainda mais curiosidade em nossas crianças, assim como a proibição do conteúdo por parte dos pais e responsáveis.

O que fazer, então? Proibir e aumentar a curiosidade ou deixar livre e aguentar as possíveis consequências de uma grande procura pelos livros, conhecidos por sua linguagem erotizada e adulta? Ou, quem sabe, uma terceira via, a de abrir uma discussão livre e generosa sobre amor e sexo com os filhos?

Um dos maiores dramas de consciência já tem data para acontecer: 14 de fevereiro de 2015, data da estreia mundial do filme.

Boa sorte com suas escolhas.

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Guilherme Fernandes é escritor e crítico cinematográfico

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