Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CRISE NO ORIENTE MÉDIO

A sombra inquietante da Grande Guerra

Por Reinaldo Cabral em 05/08/2014 na edição 810

O aniversário de 100 anos da I Grande Guerra mundial não tem sido suficientemente lembrado por países como a Rússia, Israel e Palestina. As atrocidades que remontam o cenário aguçado pela intolerância, incompreenssões e sede de dominação parecem não ter servido para nada, diante dos esforços de alguns líderes para ocultar o sangue derramado por mais de 10 milhões de soldados mortos nos combates.

O espetáculo macabro oferecido ao mundo pelo atual conflito entre Israel e a Palestina é o melhor exemplo de que o ódio religioso, ideológico e racial continua no topo sentimental de uma considerável fração da humanidade. Porque, embora esse conflito pareça restrito à Faixa de Gaza, na verdade ele alcança todo o planeta,irradiando-se a partir do mundomulçumano às grandes potências, como os próprios EUA, Inglaterra, França e Itália.

O próprio noticiário veiculado nas emissoras de Telaviv, a capital israelense, é denso na instigação do ódio estatal. O anúncio, ontem (28/07), pelo primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, de que apopulação se prepare porque a guerra vai se prolongar, foi a expressão do ódio, aplaudido por todos nas ruas como se depositasse nas mãos de cada pessoa armas prontas para apertar o gatilho e matar os irmãos da Palestina. Isso ocorreu no momento em que a ONU fazia seu último apelo em favor do cessar-fogo.

É preciso lembrar que, nessa temporada de troca de agressões, o Hamas inovou: passou a escavar túneis de até um quilômetro na Faixa de Gaza, entre Palestina e Israel, por onde introduz seus matadores para atacar diretamente os soldados israelenses. Essa inovação criou um clima de terror em Telaviv. Cada pessoa vista nas ruas da cidade pode ser um inimigo. Uma tensão que só cresce a cada minuto na cidade das tensões intermináveis.

Pavio curto

O que o planeta vai assistir de agora em diante éa repetição de atrocidades da I e II Grandes Guerras mundiais. Netanayahu deverá mandar tanques atacar diretamente multidões a 100 e 200 metros de distância para, assim, multiplicar rapidamente as baixas do lado palestino. Assim, o público interno, sedento de sangue após a perda de três jovens no começo do ano, ficará mais satisfeito com seu governo. Até chegar o dias em que imagens de pedaços de corpos de palestinos, estraçalhados, serão exibidos por Telaviv e milhares de crianças, debruçadas sobre cadáveres ensanguentados, chorarão seus pais como a tradução das imagens que percorrerão o mundo já no limiar de uma nova guerra mundial.

Netanyahu quer obrigar as forças de paz da ONU a intervir no seu território para, aí sim, sua imagem de Hitler dos judeus ser dividida entre líderes mundiais. A mídia mundial se afoga em simplificações ao afirmar que Netanyahu obedece às pressões da direita extremista de Israel, que vê no conflito o desejo do mundo árabe em desfazer o grande acordo da ONU de1947, que deu aos judeus o direito de se estabelecerem num Estado.

Em 21 dias de troca de bombardeios com a Palestina, com a morte de mais de mil palestinos e menos de 20 soldados de Israel, não são nada perto do que virá doravante. É uma falácia de Isarel de que até agora só tem disparado mísseis sobre alvos bélicos da Palestina. As próprias imagens fornecidas pela agência Reuters, a principal agência norte-americana de notícias que dá cobertura ao evento, mostram, desde a semana passada, explosões de mísseis israelenses sobre prédios residencais da Palestina. Pelo jeito, Netanyahu quer acabar com a Palestina, matando seus 3 milhõesde habitantes. Nessa marcha vai atrair, fatalmente, para o conflito, os países vizinhos acusados de fornecer armas ao Hamas, como a Líbia, que certamente já articula um grande bloco para combater Israel.

Com isso estará dada a largada para um conflito mundial de grandes proporções. Talvez seja esse o desejo de Netanyahu. Que assim entrará para a história como o Hitler dos judeus. Atenta aos encaminhamentos bélicos dos últimos meses, a administração Barack Obama recentemente obteve uma trégua do Congresso e pode focar com mais flexibilidade os interesses externos dos EUA. Como Israel vai jogar mais pesado com a Palestina, Obama vai ter que escolher onde focar os interesses políticos dos EUA – se em Gaza ou na Ucrânia. É o relatório do secretário de Estado, John Kerry, ao presidente americano, que definirá onde será dada maior atenção. Ou seja, onde o pavio é mais curto e pode começar o incêndio – o caminho da III Grande Guerra mundial, na sombra da I e sob os escombros da II.

Valha-nos, Deus.

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Reinaldo Cabral é jornalista e escritor

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