Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Perguntas inconvenientes

Por Marcos dos Santos Farias em 12/08/2014 na edição 811

Em sua edição nº 2386 (com data de capa de 13/8/2014), a revista Veja publicou artigo da escritora Lya Luft intitulado “Primeiras Perguntas”. Neste texto, a escritora elabora uma série de perguntas para as quais indigna-se em não saber as respostas, conclamando aqueles mais inteligentes que a ajudem, na esperança de que existam alguns que possam respondê-las.

Trazendo à tona questões como o desinteresse existente para com os números de assassinatos no Brasil, que superam em número total as mortes em Gaza comparando-se o mesmo período de tempo, como também os resultados inócuos das denúncias de corrupção na Petrobras e CPIs “forjadas”, corrupção generalizada na política, justiça lenta, abandono da educação, Lya demonstra de forma clara indagações que deveriam ser feitas por todos os brasileiros, porém que não causam nenhuma reação na maioria, a não ser a aparente alienação e demasiada leniência.

Para tentarmos entender essa reação do brasileiro, antes precisamos olhar para nosso interior e observar como nos portamos no dia a dia. A primeira e mais comum reação do cidadão brasileiro quando se depara com um problema, dificuldade ou mesmo situação incômoda que diz respeito a sociedade como um todo, é culpar os políticos pela geração dos problemas ou pela falta de solução dos mesmos, demonizando assim a política. Porém, temos que realizar uma análise mais profunda para observarmos que, apesar do crescente sentimento de não representatividade dos políticos para a sociedade, nós somos os responsáveis por elegê-los e reelegê-los por quantos anos a lei permitir (exemplos não faltam), pois, pelo menos até agora, vivemos em uma democracia no Estado de direito.

Desta feita, perguntemo-nos então: não será a realidade política um reflexo da própria sociedade? Temo que a resposta seja sim, pelo menos em parte. Basta observar, em período eleitoral, como o atual, que os debates se limitam a trocas de acusações entre os candidatos, CPI’s que não funcionam, entre outros, que tomam destaque nos noticiários, enquanto debates consistentes não existem. Ainda assim o interesse da grande maioria da população é extremamente baixo e basicamente fisiológico.

Só resta fazer as perguntas

Convido aqueles poucos que leem este texto a observar ao seu redor e ver quem se interessa por debates mais profundos na política, ou mesmo um gesto mais simples, como pesquisar a vida de um candidato antes de uma eleição – meios não faltam. No geral, o ponto em comum é reclamar da situação e pôr a culpa em alguém que esteja exposto por escândalos, mas no dia da eleição reelegê-lo como se estes nunca tivessem ocorrido.

Para entendermos a razão de tamanho fisiologismo e falta de interesse, precisamos realizar algumas comparações com outros países a quem nós tanto desejamos alcançar, seja em níveis de desenvolvimento socioeconômico ou em posição internacional. No caso da política, podemos citar o exemplo dos EUA, onde a diferença entre democratas e republicanos não está só entre políticos, e sim, na sociedade, que por consequência agita o debate em torno de convicções e valores, mesma coisa que acontece em países da Europa, como a Inglaterra, onde a alternância de poder se dá por valores intrínsecos na sociedade. O ponto em comum nestes exemplos é o interesse na política por parte da população desde muito jovem, que gera forte acompanhamento e cobrança sobre as ações de seus governantes, tal interesse não é obra do acaso, e se observamos a estrutura de base nesses exemplos chegaremos à conclusão de que a chave para uma mudança consistente no pensamento da sociedade e está diretamente ligada a um dos seus principais pilares, a Educação. Basta comparar o nível de educação da população entre países desenvolvidos e o Brasil e será possível entender que quanto mais acesso à educação de qualidade, maior será o senso de cidadania e responsabilidade e, por consequência, uma mudança no pensamento da sociedade.

Enquanto, houver falta de escolas, professores, merenda e tudo quanto é necessário para o início de uma estruturação na educação, não conseguiremos alcançar um nível aceitável de senso crítico, suficiente para que a população como um todo possa entender a realidade em que vive e prospectar algum tipo de mudança. Enquanto isso, resta-nos indagar tais perguntas na esperança que um dia possam haver respostas que levem a uma mudança real e consistente.

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Marcos dos Santos Farias é analista de Logística, Campinas, SP

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