Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

A esfera pública do jornalismo automotor

Por Rafael Duarte Oliveira Venancio em 26/08/2014 na edição 813

Poucos sabiam a repercussão da reportagem da revista Quatro Rodas em seu site, no começo de agosto, que afirmou que a Rede Globo retiraria a Fórmula 1 da transmissão pública para deixá-la na TV paga em 2015. A notícia, rapidamente desmentida pelo canal, não só irritou os fãs do automobilismo, mas também coloca luz sobre a presença dos demais esportes na esfera pública, tanto transmissão como jornalismo, diante da opressão massiva da temática do futebol.

Ora, desde 1947, com Wilson Fittipaldi, o Barão, acompanhando Chico Landi no GP de Bari, o jornalismo automotor possui espaço na transmissão pública de rádio e, depois, TV. A vitória de Landi em 1948 só reforçou a paixão do brasileiro pelo automobilismo e sua vontade de acompanhar notícias de seus conterrâneos no exterior, bem como as provas realizadas no país. Em 1950, Wilson Fittipaldi conquista um programa diário, ao meio-dia, chamado Velocidade, na Rádio Panamericana. Assim, além das corridas ao vivo, o Barão encontra um espaço editorial valioso. A Panamericana se torna a primeira rádio a ter o esporte a motor enquanto assunto frequente em sua programação.

Logo, o Velocidade iria para a Rede Record com o próprio Barão Fittipaldi, formando toda uma escola de jornalistas esportivos especializados em automobilismo. Assim, o próprio Barão, que foi formado apenas com notícias ocasionais sobre seus pilotos ídolos, tal como Teffé, na Gazeta Esportiva, ajudava a difundir massivamente o gosto pelo esporte.

Distintivos de times

No entanto, qual seria a razão de ainda manter o automobilismo na TV aberta? Daniel Castro, no dia 6 de agosto, comentou em sua coluna “Notícias da TV”, no UOL, que a “a Fórmula 1 deve bater recorde negativo neste ano. O último GP, da Hungria, em 27 de julho, rendeu à Globo 8,7 pontos, quase metade do que a emissora marcava em 2008, quando Felipe Massa estava no auge, o que por sua vez era quase metade da era de Ayrton Senna, no começo dos anos 1990”.

Só que a televisão mudou também. Como o próprio Castro ressalta, 8,7 pontos é uma marca que deixa a Globo na liderança no domingo de manhã e, também, é muito superior a muitos programas que são veiculados no horário nobre. Assim, a sensação de que a Fórmula 1 está decadente está mais relacionada à hipertrofia temática do futebol do que com o gosto do brasileiro ou a falta de pilotos do país no pódio.

O Brasil é o país do futebol e esse é seu principal problema. Ele é apenas o país do futebol. Isso força os demais esportes conviver com as migalhas deixadas pelo esporte bretão. Inclusive, muitos deles buscam até mesmo a atenção do futebol. Basta ver no próprio automobilismo nacional, tal como a Stock Car e a Fórmula Truck, como equipes buscam a visibilidade de times de futebol, tal como o Corinthians e o Santos, colocando os distintivos em seus carros, para buscar um pouco dessa paixão-obsessão.

Todo dia é dia de futebol

O problema da paixão-obsessão brasileira pelo futebol é que ela mata a esfera pública esportiva com sua temática única e antidialógica. Tal como Habermas fala da macroesfera pública em Mudança Estrutural da Esfera Pública que se desfuncionaliza quando se torna antidialógica, a falta de debate (e, até mesmo, de incentivo à prática) entre os diversos esportes torna o nosso país não só desinteressado pelos demais esportes, mas também injusto com os compatriotas que se superam neles.

Um país que será sede de grandes eventos esportivos, tal como as Olimpíadas de 2016, precisa ter a maior cultura esportiva possível. Com isso, podemos entender também que ele precisa ter um amplo escopo de discussão sobre os esportes, sobre suas paixões. Com isso, quando há uma ameaça de sair um esporte, tal como o automobilismo, da agenda da TV pública, o retrocesso é patente. A luta, na verdade, seria pela entrada de mais esportes.

Não é que na esfera pública brasileira posta pela TV aberta (e demais meios de comunicação de acesso público) se fale pouco de esporte. Ao contrário, pense que há muito tempo dedicado à temática esportiva, no entanto, apenas focado no futebol. Aqueles que reclamaram que o jornalismo virou Copa do Mundo de Futebol nos meses de junho e julho de 2014 sentiram na pele o que os amantes dos demais esportes sentem há anos. Enquanto não houver um planejamento público da agenda esportiva midiatizada, para quem quer ler sobre os outros esportes, todo dia continuará sendo dia de futebol.

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Rafael Duarte Oliveira Venancio é jornalista, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela USP e professor da UFU

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