Sábado, 21 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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O brado de Marina

Por Faustino da Rocha Rodrigues em 09/09/2014 na edição 815

Recentemente, alguém me disse que Marina Silva despertou um novo entusiasmo na política brasileira e que estas eleições poderiam representar uma verdadeira transformação no panorama nacional. Era uma conversa informal, sem quaisquer pretensões, não devendo, portanto, despertar uma preocupação excessiva de minha parte. Mas, ao contrário, vi-me perguntar a mim mesmo: “O que significa Marina para as circunstâncias atuais?”

Minhas reflexões sobre Marina Silva obrigaram-me a direcionar o olhar a uma retrospectiva que engloba, obrigatoriamente, o senso comum evidente no debate político da grande mídia brasileira. A tônica do discurso da cândida do PSB à Presidência é a da novidade, tratando, por sua vez, de romper com uma ideia de “velho”, caduco, presente na política nacional. Igualmente, a caducidade difundida em seu discurso presume algo pernicioso, problemático. Marina Silva, portanto, procura projetar os males do Brasil a uma identificação com a política brasileira, fazendo a associação de tais males à mesma política. Assim, gera uma confusão – oportunamente aproveitada ao longo de sua campanha – entre os males que pertencem à política e males existentes na política. Os dois seriam identificados como uma única coisa, tida como ruim e que, por sua vez, deveria ser extirpada.

Não obstante, em meu entendimento, Marina não surge por acaso. Da mesma forma, o seu discurso não é algo isolado, sendo, na verdade, produto de toda uma circunstância a englobar obrigatoriamente a sociedade. Tal descrença se faz notável e adquire dimensões ainda mais visíveis nas manifestações de junho de 2013. O povo brasileiro vai às ruas para reivindicar. O movimento (no singular?), inicialmente com teor de reivindicações a direitos e políticas sociais, toca em pontos centrais acerca do caráter urbano do Brasil recente, tornando evidentes os desafios à sua modernização. Contudo, até aquele momento, as ruas eram caracterizadas como espaço tradicionalmente pertencente a partidos de massa, organizados horizontalmente – como normalmente são caracterizados os partidos de esquerda. E naquele instante, os partidos de esquerda, trabalhistas ou não, eram rejeitados. Aliás, nenhuma agremiação partidária era bem-vinda. De fato, isso representava a rejeição do povo, do Brasil moderno, à política.

Rancor, ódio e intolerância

No momento das Jornadas de Junho, havia um olhar de rancor para a política brasileira, caracterizando-a como algo negativo e prejudicial para a própria sociedade. A grande mídia brasileira é, definitivamente, mas não exclusivamente, um dos responsáveis por essa visão negativa. A insistência na fórmula de divulgação de “notícias políticas”, rotuladas quase exclusivamente como escândalos de corrupção, é a tônica do jornalismo de então. Obviamente, a corrupção deve ser divulgada. Contudo, a forma como é feito denota uma inevitável visão negativa sobre tudo relacionado à política. Pensando, ainda, na partidarização dos principais meios de comunicação do Brasil, toma o governo petista como algo fundamentalmente negativo e pernicioso para a constituição da própria sociedade brasileira.

Meu desejo aqui é ir além de uma defesa ou condenação das atitudes do PT. Sua acomodação às regras do jogo – diferentemente da real promoção de uma transformação sua – ganha destaque na grande imprensa com o Mensalão. As corporações midiáticas, neste caso, apropriam-se do escândalo, em pauta ao longo de praticamente todo o ano de 2013, normalmente identificando-o com exclusividade à política – e, portanto, à política petista. Consequentemente, a corrupção deixa de ser algo vigente na política, adquirindo contornos de algo pertencente à política – tudo o que é político é ruim. Esta política ruim, com sua força centrípeta, traga para o interior tudo que é igualmente ruim. E, se alguém é bom e envereda no universo político, passa a ser ruim.

Diante desse enquadramento, torna-se natural tentar manter um distanciamento da política. À impossibilidade de os grandes meios de comunicação conseguirem promover um verdadeiro esclarecimento sobre o funcionamento da esfera política, tem-se a disseminação do rancor e, precisamente, com as manifestações, o ódio e a intolerância a ela. Dez anos antes das Jornadas de Junho o povo havia ocupado as ruas e jardins de Brasília, organizando caravanas para assistir à posse de seu escolhido, daquele que seria um autêntico representante. Não sei se toda a esperança na política evidente naquele momento desaparece ao longo dos anos seguintes, mas, de forma clara, há ininterruptos bombardeios a minarem a liderança carismática de Lula – carisma esse que sai de cena a partir de 2010.

Marina não deseja ser política

As Jornadas de Junho, em 2013, seguem o contexto de rechaço ao elemento político. Isso ainda se torna mais visível diante da inapetência dos atuais líderes políticos, partidários e sindicais, em agrupar as demandas, conferindo-lhes legitimidade e encaminhando-as para o interior do Congresso Nacional – não se fala em representação. A condenação dos mesmos personagens que participaram da vitória de 2002, e da posse de 2003, com o Mensalão, alimentada pela grande imprensa, fomenta a desconfiança do povo. Comparativamente, nos anos anteriores, no Chile, viram-se consistentes manifestações nas ruas – essencialmente em Santiago – tendo como pauta políticas sociais, especificamente, a política educacional. No pleito do final de 2013, uma gigantesca renovação da Câmara dos Deputados ocorre em função dos líderes surgidos das ruas, das mesmas manifestações, que conseguiram garantir uma espécie de homogeneidade ao movimento como um todo. Algo absolutamente diverso do ocorrido no desconfiado Brasil.

Diante de tudo isso, cria-se a ideia da necessidade de se ultrapassar a política brasileira, a “velha política”, como diz Marina Silva. Essa “velha política” é justamente aquela rejeitada pela população nas ruas, em junho, presente de forma constante nas capas da Veja e no noticiário do Jornal Nacional. Estes dois, paradigmaticamente, mostram-se cada vez mais como dois veículos de comunicação incapazes de gerar um enriquecimento do debate em torno da política, conferindo alternativas para os problemas vigentes. Pelo contrário, contribuem de maneira definitiva para a construção de um contexto de descrença, de desesperança em que fazem parte, com grande protagonismo, cada um em seu tempo, cada um em seu formato, as manifestações de junho e Marina Silva.

Os votos que Marina rouba de Aécio não são os dos fidelizados ao PSDB. Tratam-se exatamente daqueles que fogem a Dilma em busca de uma alternativa à política divulgada pelos meios de comunicação. Com a carismática Marina, tem-se a possibilidade de construção de algo novo, algo a fugir da “velha política” e a entonar, portanto, uma “nova política”. Aliás, da maneira como a própria candidata propaga seu discurso, essa “nova política” sequer pode ser considerada como política. Reina em seu universo a boa intenção. A sua negação à “velha política” é, ainda, simbolicamente exacerbada a partir da transmissão da imagem de pessoa simples que rompeu com um status quo definido por ela – ao sair do PT – abandonando, também, outras agremiações a significarem algo parecido, como o PV. Simultaneamente, tenta construir alguma nova – a Rede – e esbarra, novamente, na “velha política”. O seu insucesso ideologiza a impossibilidade de o surgimento da Rede se dar em uma política com estes contornos. A ideia de Marina, cada vez mais proposital, é a de erguer algo novo, distante do que é considerado como política. Marina não deseja ser política.

O brado surdo

Não consigo precisar se Marina se afina de forma completa com o que se passou há pouco mais de um ano, em junho. Vejo-a mais como alguém a embarcar na aversão à política presente nas Jornadas. Questiono, agora, se, assim como as manifestações em determinado momento se tornaram uma espécie de brado por justiça sem, contudo, conseguir garantir uma identidade e uma convergência em sua definição, Marina não estaria fazendo o mesmo. A sua negação a algo representado por uma “velha política” não seria um novo e elaborado formato deste brado, sem direção precisa, sem identidade? Se, sim, quais os resultados? Os mesmos de junho? Quais as consequências disso no interior do Estado brasileiro, um Estado cada vez mais presente, determinante da vida do brasileiro comum, desde o seu nascimento – com o SUS – até o seu direito e acesso à educação superior – com o Prouni e o sistema de cotas?

Novamente, voltando para o debate em torno dos meios de comunicação, vejo Marina Silva como uma espécie de Joaquim Barboza. Este, bastião da liberdade e da justiça durante o julgamento do Mensalão – figura nada política – canalizou momentaneamente as esperanças de salvação do Brasil de uma ameaça encontrada em seu interior: a sua “velha política”. Marina deseja ver a si mesma desta forma. Assim como Barboza apresentava a atuação indiscriminada do STF em diversas instâncias do poder público e preconizava a atuação do Poder Judiciário como salvador do brasileiro, Marina o faz com, talvez, a boa vontade, com a boa intenção. Enfim, com elementos não políticos, tal como não deve ser político o Judiciário.

À guisa de conclusão, em uma coisa concordo com Marina: a política brasileira precisa urgentemente ser transformada. Mas, definitivamente, isso é feito por dentro. Para tanto, necessita-se de consistência, ação e, notavelmente, conhecimento da política. Ao se investir de uma suposta autoridade, justificada pelo princípio da intenção – se é que isso existe –, a candidata não contribui em nada para essa transformação. Obviamente, os principais meios de comunicação deixam isso passar despercebido. Seu discurso fragmenta-se em brados multidirecionados, sem um norte efetivo, infenso a qualquer possibilidade de contribuir para a construção de uma verdadeira e nova política – agora, sem aspas.

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Faustino da Rocha Rodrigues é jornalista e professor

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