Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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FEITOS & DESFEITAS >

Uma proposta pelo fim do Estado-nação

Por Jorge Alberto Benitz em 23/09/2014 na edição 817

O grave não é assistir à adesão da revista Veja e outros importantes segmentos da grande mídia à candidatura de Marina Silva e o abandono da candidatura Aécio Neves. Trata-se de um pragmatismo previsível. Qualquer um que sinalize estar em condições melhores de desalojar o PT do poder é bem vindo pela turma da Casa Grande. Eles acham que este último não é confiável, principalmente por não ser tão submisso à lógica do mercado e por adotar políticas que atingiram real e simbolicamente os seu privilégios. O grave é perceber os jovens que fizeram as manifestações de junho de 2013 embarcarem na candidatura de Marina Silva, a julgar pelas pesquisas.

Para responder o porquê da gravidade faz-se imperativo uma digressão histórica. O Estado-nação no mundo ocidental levou mais de trezentos anos para se libertar do jugo religioso, do domínio dos papas. Foram lutas sangrentas e devastações para chegar a um novo patamar civilizatório. Depois do fim do socialismo real, a hegemonia capitalista correu livre e solta para fazer o que quisesse, visto que não existia o contrapeso do leste europeu comunista para atrair os olhos dos trabalhadores e espíritos livres. Deu no que deu: a quebra da economia mundial em 2008. A lição ficou para quem tivesse um mínimo de esclarecimento: deixe o mercado livre e ele “dará com os burros n’agua”. Aliás, esta lição vem de antes. Ainda na primeira metade do século 20, caso o presidente Franklin Delano Roosevelt, um aristocrata norte-americano, não atacasse os interesses da plutocracia, não teria reerguido o país depois de crack da bolsa de 1929. O mercado serra o galho onde está sentado. É autofágico. O grau de ganância dele não tem limites. A sua lógica não tem um pingo de preocupação outra senão o acúmulo pelo acúmulo de capital. Quem acredita ser ele capaz de se preocupar com o meio ambiente merece o prêmio “Velhinha de Taubaté”. Ele tem uma vertente patológica. A retenção anal é a gênese da sua tara, dizia Freud acerca da avareza. Alguém já disse com muita razão: o capital, representado pela lógica de mercado, não tem solução para a crise. Ele é a crise.

Pois bem, eis que surge vinda das fileiras dos ex-petistas – atendendo o velho preceito de que nada mais munido de ódio e desejo de vingança do que um ex-alguma coisa – uma candidata com uma proposta que se autoapresenta como portadora do novo, que nada mais é que a velha proposta tucana de dar todo o poder ao mercado, esta força aparentemente anônima, sem face e endereço, eleita por ninguém e que ninguém é capaz de restringir, controlar e orientar. O pior é que diz que ao fazer isto está inovando. Dizer que retornar ao estado anterior ao Estado-nação, oferecendo, de modo incondicional, a soberania territorial do país aos 1% muito ricos, aos endinheirados, que a julgar pela proposta de autonomia do Banco Central mais Estado mínimo somente vinga porque há muita desinformação e analfabetismo politico. Não falo aqui do analfabeto propriamente, mas de doutores e profissionais superespecializados que, no entanto, padecem de uma indigência cultural e ideológica assustadora que muito deve, com certeza, à cultura de massa e a catequização ideológica sistemática promovida pela grande mídia.

O mais assustador, neste particular, é ver os jovens que fizeram as manifestações de junho de 2013 demonstrarem falta de discernimento político para perceber o “cavalo de Tróia” que significa a candidatura Marina Silva e, em função disso, acreditam que votar em Marina significa votar em alguém identificado com o novo, contra tudo que está aí. Estão votando contra si, contra o seu futuro. O modelo de submissão ao mercado levou à quebra da economia mundial de 2008, ao desemprego na Espanha, na Grécia e em todo o continente europeu, onde ocorre em grande escala o retorno para a casa dos pais de profissionais desempregados cheios de títulos de doutorado, mestrado, a precarização do trabalho como nunca visto na história recente norte-americana. Thomas Piketty demonstra em seu livro O Capital no Século XXI como se fez a distribuição de riqueza neste admirável mundo novo neoliberal. Com a desigualdade subindo rapidamente nos Estados Unidos, o slogan We are the 99% encontrou eco em seu trabalho: ele mostra que o 1% mais rico responde por uma fração gigantesca da desigualdade de renda e determina sua evolução no tempo. Para a Europa, ele anuncia os ventos que virão caso essa desigualdade não seja controlada. Para os países em desenvolvimento, deixa o aviso de que, se as coisas estão ruins, ainda podem piorar.

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Jorge Alberto Benitz é engenheiro e consultor

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