Segunda-feira, 24 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Imprensa é cúmplice da homofobia entre torcidas

Por Felipe Gesteira em 30/09/2014 na edição 818

Foi vergonhoso o comportamento dos torcedores gremistas durante a partida contra o Santos no dia 28 de agosto pela Copa do Brasil. Um grupo criminoso xingou o goleiro santista Aranha, comparando-o a um macaco. Uma torcedora foi identificada e já responde a processo. A cena é comum nos gramados europeus, mas até então inédita entre as torcidas brasileiras. Algo que deve ser abolido do futebol mundial.

O comportamento é racista, deprimente, criminoso. Injustificável. A imprensa do Brasil inteiro comprou a briga em defesa do goleiro Aranha. Nada mais justo, afinal somos todos iguais. Mas se o racismo causou tanta indignação, por que as atitudes homofóbicas entre torcedores são vistas pela mesma imprensa brasileira com tanta naturalidade?

Se vão xingar vascaínos, adversários os chamam de “vice”; se a treta é contra flamenguistas, ali já são “mulambos”. Mas quando os alvos são torcedores de São Paulo, Fluminense ou Náutico, estes ganham logo a alcunha de “homossexuais”, como se isso fosse um xingamento. Absurdo.

Perda de tempo

O preconceito contra gênero é tão grave no Brasil que chega a corromper a paixão nacional. Parece brincadeira chamar um adversário de “bambi”, “flor” e coisas do tipo. Só que não tem graça nenhuma. É justamente por conta desse tipo de discriminação que tantos jovens brasileiros continuam sendo assassinados.

Imagine então como se sente um cidadão que faz parte de uma minoria e ouve comentários desse tipo? Será que já não basta a exclusão social enfrentada em tantos outros ambientes? É com essa vista grossa que os cartolas e a imprensa nacional dizem incentivar o retorno das famílias aos estádios? Assim, as crianças que crescem alimentando paixões por seus clubes adquirem também esse sentimento, e a sociedade segue cada vez mais doente.

Não defendo o fim de todo tipo de xingamento. Porcada, gambás, xerox, vices e tudo quanto é nome pejorativo e criativo que sai da cabeça do torcedor brasileiro deve ser mantido. Faz parte da brincadeira, de xingar e ser xingado. Mas exclusivamente pelos aspectos do clube, e nunca, jamais, por discriminação de raça, credo ou opção sexual.

Então que seja mantida a zoeira, a gozação e as laranjadas nos estádios, porque pedir que a mãe do juiz seja poupada, aí sim seria utópico demais. E enquanto a torcida perde tempo conjecturando a opção sexual do vizinho, o Cruzeiro marca mais três pontos na rodada.

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Felipe Gesteira é jornalista

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