Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DA ‘FOLHA’

Notícias ou autos de inquisição?

Por Cristiano Otaviano Verutti em 14/10/2014 na edição 820

Não bastasse a reiterada omissão em relação às eleições parlamentares, contribuindo para a miserável qualidade de nosso Legislativo, os veículos de comunicação têm transformado a cobertura das eleições presidenciais brasileiras num circo de denúncias deixando de lado a discussão das propostas para o país.

Tal comportamento seria legítimo caso tais publicações estruturassem um discurso embasado em provas “robustas”. Entretanto, o que se vê em diversos momentos é a transformação das palavras de um indivíduo em material suficiente para expor a vida e a biografia de cidadãos, sejam eles quem forem. Não estou aqui a fazer juízos de valor, dizendo que os acusados são inocentes. Entretanto, digo sem pestanejar que isso cria um risco imenso de transformar inocentes em culpados. Até porque afirmar que um depoimento basta para concluir que alguém cometeu um crime é o mesmo que afirmar que “os métodos da Inquisição estavam corretos”, ou “Tomás de Torquemada estava certo.”

Os veículos de comunicação sabem isso de cor. Até por conta desta consciência, criaram classificações das fontes, de acordo com sua confiabilidade. O Manual de Redação da Folha de S.Paulo, por exemplo, classifica as fontes de zero a três, partindo da mais confiável até a menos confiável. Apesar da citação ser longa, é interessante observar na íntegra como o jornal as descreve:

“a) Fonte tipo zero – Escrita e com tradição de exatidão, ou gravada sem deixar margem a dúvida: enciclopédias renomadas, documentos emitidos por instituição com credibilidade, videoteipes. Em geral, a fonte de tipo zero prescinde de cruzamento. Para não repetir erros já publicados, evite ter um periódico do tipo jornal ou revista como única fonte para uma informação.

b) Fonte tipo um – É a mais confiável nos casos em que a fonte é uma pessoa. A fonte de tipo um tem histórico de confiabilidade – as informações que passa sempre se mostram corretas. Fala com conhecimento de causa, está muito próxima do fato que relata e não tem interesses imediatos na sua divulgação. Embora o cruzamento de informação seja sempre recomendável, a Folha admite que informações vindas de uma fonte tipo um sejam publicadas sem checagem com outra fonte.

c) Fonte tipo dois – Tem todos os atributos da fonte tipo um, menos o histórico de confiabilidade. Toda informação de fonte dois deve ser cruzada com pelo menos mais uma fonte (do tipo um ou dois), antes de publicada.

d) Fonte tipo três – A de menor confiabilidade. É bem informada, mas tem interesses (políticos, econômicos etc.) que tornam suas informações nitidamente menos confiáveis. Na Folha, há dois caminhos para a informação de fonte tipo três: funcionar como simples ponto de partida para o trabalho jornalístico ou, na impossibilidade de cruzamento com outras fontes, ser publicada em coluna de bastidores, com a indicação explícita de que ainda se trata de rumor, informação não confirmada.”

Os fins e os meios

Feitos estes esclarecimentos, fica a pergunta: por que a Folha está produzindo, dia após dia, manchetes com base nas falas de Paulo Roberto Costa a respeito de desvios na Petrobras? Não se encaixa ele no perfil da fonte três – “bem informada, mas [que] tem interesses”? No caso deste senhor, o interesse é o maior de todos: a liberdade. O comportamento indicado não seria, portanto, seguir o Manual de Redação da Folha de S.Paulo, tratando o depoimento como “ponto de partida para o trabalho jornalístico”? Ou, no máximo, a matéria “ser publicada em uma coluna de bastidores, com a indicação explícita de que ainda se trata de rumor, informação não confirmada”?

Já respondo previamente àqueles que pretendam argumentar que se trata de uma fonte zero, já que são gravações. Ora, isso é uma falsa dialética, um “túmulo caiado”. São gravações de uma pessoa falando, nada mais que isso. É só um depoimento. Pode conter verdades, ou não, mas por enquanto é só isso. É antiético e imoral expor as pessoas ao linchamento público só com base em palavras já que – como costumam dizer os advogados – os depoimentos são “a prostituta de todas as provas”.

É claro que isto não se restringe a este caso. Nas redes sociais circulam listas de escândalos que conspurcariam este ou aquele candidato, este ou aquele partido. Em quantos as pessoas são culpadas de fato, em quantos elas são inocentes? Difícil responder. Só sei que é triste imaginar ser bem provável que muitas pessoas honestas tiveram sua vida profissional e familiar abalada – ou mesmo destruída – por acusações falsas a que nossa mídia deu eco. Quantas Escolas Base pesam na conta moral de nossos ilibados meios de comunicação?

Há quem diga que vivemos hoje uma luta do Bem contra o Mal. Pode até ser. Pode até ser que meu miserável espírito esteja iludido, cego diante de uma verdade ululante. Mas na minha consciência berra a memória de um sujeito que há dois mil anos foi condenado unicamente a partir das palavras de seus acusadores. Esta vítima da primeira das inquisições disse: “De que vale o homem ganhar o mundo todo e perder-se a si mesmo?” Para bom entendedor, isso quer dizer: “Os fins não justificam os meios.”

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Cristiano Otaviano Verutti é jornalista e professor

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