Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > CAMPANHA ELEITORAL

O silogismo da grande mídia e o ódio ao Nordeste

Por Fábio Agra em 14/10/2014 na edição 820

Os meios de comunicação acenderam o fósforo e jogaram mais lenha na fogueira. Leitores e telespectadores do Sudeste, especialmente de São Paulo, se acomodaram próximo ao fogo e começaram a assar seu prato indigesto favorito. O nordestino se contrai, é jogado às chamas e talvez até resista aos ataques. Contudo, nesta eleição presidencial, a grande imprensa já o apontou como culpado e está queimando suas últimas tentativas de reverter a liderança de Dilma Rousseff à reeleição.

O terror psicológico incutido nas pessoas dos mais diversos níveis sociais e intelectuais vem sendo sedimentado ao longo dos anos, mas chegou a hora da caça às bruxas. É tudo ou nada. Para a grande mídia e seus seguidores, agora é o momento de expurgar Dilma e soltar tudo o que se pensa sobre o Nordeste. O ódio a esta região transborda de forma mais pulsante entre os leitores e telespectadores que têm no discurso dos grandes meios de comunicação uma espécie de espelho ou como se eles próprios fossem bonecos de ventríloquos.

As agressões que estão sendo proferidas e vistas nas redes sociais por todo o Brasil em relação aos povos que vivem no Nordeste foram e estão sendo disseminadas antes de tudo pelas construções midiáticas. Há um “orientalismo” em pleno vapor sendo desenvolvido do Sudeste em relação ao Nordeste. O que Edward Saïd indicava que acontecia da Europa para os países árabes chegou a terras brasileiras. O Oriente é aqui. O Oriente é o Nordeste. O que a Folha de S.Paulo tem feito nos últimos dias, por exemplo, é levantar a espada e manter com alguns de seus leitores uma atmosfera de total animosidade sobre os indivíduos e territórios que estão localizados acima de Minas Gerais, além de querer criar a sensação de culpa nos nordestinos baseada em números e narrativas rasas.

Em três dias, a partir da eleição de primeiro turno, a Folha publicou uma série de textos, entre matérias e artigos de opinião, reforçando estereótipos e tomando como exemplos poucos sujeitos para representar os nove estados nordestinos. Típica, palavra utilizada nas matérias para indicar os pobres que vivem com ajuda do Bolsa Família e são, segundo o jornal, eleitores de Dilma Rousseff, está sendo a prevalência de uma campanha sórdida em querer fazer o Brasil crer que este Nordeste desenhado à distância deva ser execrado.

Respeito à diversidade cultural

Tenta-se criar um silogismo mais inescrupuloso e rasteiro ao utilizar as premissas Nordeste e eleitor pobre que resulta na reeleição de Dilma Rousseff. Pinta-se o mapa do Nordeste de vermelho, trajam-se senhores com camisas quadriculadas e chapéus, estereotipando-os, e, principalmente, revela-se que aqueles indivíduos só estão ali, tendo suas “histórias de vida” contadas, por conta do Bolsa Família, por conta de sua pobreza que, de acordo com os meios de comunicação, alimenta a reeleição de Dilma Rousseff. Faz com que o restante do país aponte o dedo, inventa-se a culpa, que surge das entrelinhas dos textos e sobressai transfigurada em ódio na boca dos mais desavisados.

Porém, nas pesquisas do Datafolha, que é a base argumentativa da Folha de S.Paulo, os intelectuais, escritores, juízes, empresários, os cidadãos do Nordeste que são chamados de mais esclarecidos por esta mesma imprensa e que votam na atual presidente, não aparecem nas narrativas. São mais invisíveis ainda os de baixa renda, os miseráveis, os pobres, que existem em qualquer parte do país, e que votaram em Marina Silva e votam em Aécio Neves. Embora o Brasil seja um país democrático, espanta aos colunistas da Folha que o Rio Grande do Sul tenha votado, em sua maioria, em Dilma Rousseff. Tem que se usar a palavra “curiosamente” para indicar a decepção, pois um dos estados mais desenvolvidos do Brasil não pode se igualar aos estados nordestinos. Talvez a Folha deva estar se esmiuçando para entender esse “fenômeno” no Sul.

As eleições têm revelado a sordidez da grande imprensa em relação ao Nordeste, algo que sempre esteve presente em novelas e filmes produzidos pelos grandes meios de comunicação do Sudeste. Nesse ponto, há a ignorância do nordestino em ainda continuar a dar audiência para tais meios, a consumir o que é produzido de lá para cá, a rir de sua própria caricatura, que é desenhada constantemente pelo que há de mais baixo nível intelectual na mídia, o que vem sendo demonstrado cada vez mais por jornalistas e analistas políticos cheios de preconceitos e que parecem estar usando um cabresto, pois só conseguem olhar em uma direção.

Não é preciso ler muito para perceber que os grandes jornais e a grande mídia do Sudeste são ignorantes em matéria de estudos sobre os nove estados do Nordeste. Talvez a única referência deles ainda seja Os Sertões, cujo substantivo serve para alimentar o imaginário de quem vive em outras regiões do país e os faz pensar que todo o Nordeste é um grande sertão pobre e miserável. Desconhecimento geográfico, social e cultural é o que não falta nos meios de comunicação de São Paulo e Rio.

Percebe-se que o público que aceita esse discurso é parecido com aquele que Goebbels, ministro de propaganda de Hitler, descrevia: “Massas são manipuladas porque são passivas e mentalmente preguiçosas”. E assim, de domingo para cá, essa massa se prontificou a execrar o Nordeste. A esses leitores, telespectadores, jornalistas e intelectuais que pensam que o debate eleitoral no Brasil se dá por meio do ódio alimentado pelos meios de comunicação, torce-se para que não queiram enveredar para outras práticas. Quantos a nós, nordestinos, levantar a cabeça e partir para o debate é a melhor forma para esclarecer a ignorância alheia. Se políticos, intelectuais e artistas oriundos da região Nordeste não contribuem para reverter a situação, não podemos ser negligentes com o crescente ataque dos meios de comunicação e de pessoas que moram em outras partes do país. Aqui não se quer uma guerra, mas sim, o respeito à diversidade cultural, social e ao voto livre e ao livre pensamento.

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Fábio Agra é jornalista e mestre em Letras – Cultura, Educação e Linguagens

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