Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > OUTROS TEMPOS

A vida do jornalista antes do computador

Por Apóllo Natali em 21/10/2014 na edição 821
Reproduzido do Jornalistas&Cia. nº 970, 15-21/10/2014; intertítulos do OI

Em um tempo em que os computadores ainda não haviam chegado às redações, um grande avanço tecnológico interno aconteceu no Jornal da Tarde. Foi o seguinte: os contínuos desperdiçavam tempo precioso em verdadeiras maratonas, dia e noite, noite e dia, sobe escada, desce escada, para fazer as matérias caminharem rápido da redação até a impressão, naquele edifício imponente do bairro do Limão. Lá onde fica o Brasil, como dizia Marina Mesquita. Redação, impressão, limão, rimou. Fazer o quê? Elevador nem pensar, atraso de vida. Num dado momento prenderam na cintura daqueles simpáticos contínuos atletas um aparelho que media os quilômetros por eles percorridos a partir do 6º andar, corredores e escadas abaixo. Cada um malhava mais de seis quilômetros por expediente. Já ouviram falar em salário medido por quilometragem? Prontas as matérias, gritos histéricos de editores ecoavam naquela redação mágica: “Desce!” Era a senha para o contínuo pegar cada matéria e bater o recorde de velocidade até a impressão. Qual o avanço tecnológico então conquistado? As lajes foram furadas a partir do 6º andar e por esses furos passava um tubo de plástico, por onde escorregavam as matérias vertiginosamente até a impressão.

Vertiginosamente? Mas lógico que um dia aquele tubo, que um dia acabaria com o emprego dos contínuos, iria entupir na parte encurvada. Algumas matérias pararam no meio do caminho e obstruíram a passagem das demais. Pânico na redação. Toda uma edição empacada. Um daqueles contínuos, inteiramente humilde diante dos editores sobressaltados, pediu permissão para arremessar no tubo uma pesada bola de papel comprimido, enlaçada e endurecida com fita adesiva. No fim teve até choro depois daquele parto feliz. Sabe essa bola? Com ela jogávamos futebol em plena redação enquanto esperávamos, para fechar as páginas, a chegada das matérias enviadas por repórteres, sucursais e correspondentes. Esperar matérias? Aqui é que o bicho pegava.

Frustrante não poder contar nestas poucas linhas, um por um, nomes e sobrenomes, por falta de papel e de memória, pois estou perto dos 80 anos, caros colegas, as tantas aventuras vividas por centenas desses seres especiais chamados repórteres para fazerem chegar às mãos das editorias, a tempo, cada reportagem, cada entrevista, cada denúncia, cada recorte da realidade daquela época de vacas gordas em salários e empregos e magras em exercícios de direitos. A liberdade não abria suas asas sobre nós.

Tec, tec, tec

A determinação de não aborrecer nunca o leitor – esse sempre foi meu lema durante 50 anos em que atuei na imprensa escrita; me belisca para ver se estou vivo – igualmente me obriga a contar agora apenas alguns pequenos casos da turbulenta vida do repórter sem computador.

O jornalista aventureiro Renato Santana, isso faz 40 anos, sem conhecer nada nem ninguém numa região inóspita bem no meio desse Brasilsão, sem dinheiro (porque tinha gastado tudo em uísque) do jornal para a viagem, sem telefone (naquele tempo você pedia uma ligação hoje e ela era completada amanhã), partiu de carona de uma cidade minúscula para outra um pouco maior, onde conseguiu que a rádio local transmitisse sua longa matéria para a redação em São Paulo. Voltou para casa, mil quilômetros, também de carona, morto de fome e de sede. Para me contar com incríveis minúcias essa sua deliciosa aventura ele papeou uma hora e meia na poltrona de sua confortável casa na Mooca, com peixe frito, bom vinho e café.

“Um homem desesperado espera a morte no meio da Transamazônica, enquanto vigia de ladrões 100 toneladas de ferro velho, o que restou das máquinas da Construtora Rabello, que há exatamente dez anos abriu aqui parte dessa fantástica estrada na selva. Não que esse homem tema a morte. O que ele mais teme é morrer sozinho e ser devorado pelos urubus, pois não haverá ninguém para enterrá-lo.” Dessa maneira Luiz Fernando Emediato começa a contar seu feito arriscado de percorrer a Transamazônica de ponta a ponta dez anos depois de iniciada. Tudo abandonado. A estrada se resumia a um interminável rasgo estreito na floresta fechada. Seis capítulos que distribuí então para todo o Brasil pelo formidável circuito da Agência Estado. Guardo há 40 anos cópia – datilografada – de seu trabalho. Quem quiser, envio pelo correio. Emediato e seu companheiro repórter-fotográfico Claudinei Petroli dormiam na ameaçadora selva escura e fria em cabines de tratores abandonados, barracões apodrecidos, sob ameaça de feras, insetos peçonhentos e assaltantes, que esses estão por toda a parte. Nada de proteção contra mosquitos. O que mais nos interessa neste lengalenga: sem tecnologia de transmissão nenhuma, Emediato escreveu sua matéria em São Paulo e Claudinei revelou suas fotos no Estadão, pelo antigo paradigma de se revelarem fotos quimicamente.

A seguinte aventura vivi eu: minhas matérias sobre futebol eram transmitidas diretamente para a redação, já das arquibancadas, por um aparelho enorme, um rádio movido a manivela. O Jajá, o bondoso, o querido, o negrão sempre saudosamente lembrado, Jair Moreira, interrompeu a transmissão e chorou. Num side, eu contava a história de um reserva de pegador de bola filho de índia com baiano. Ganhava seu dinheirinho quando o titular faltava ou ficava doente. Dava para a mãe os cinco mangos que recebia ao final da partida. Recebia de volta da mãe um trocadinho para tomar um refresco com os amigos num boteco da Vila Sônia. Ia e voltava a pé de casa até o Pacaembu. Nessa, a garganta do Jajá, pai de um monte de filhos, apertou.

Agora, o Estadão.

Raul Martins Bastos, chefe da produção de matérias, lamentava-se pela velocidade de carroça com que as matérias eram recebidas e transmitidas por teletipo. Para quem não sabe, e hoje poucos devem saber, o teletipo era uma máquina de ferro pequena, dura de teclar, parecendo uma locomotiva antiga, inventada na Guerra da Secessão americana, em que os textos eram escritos em fitas de papel perfuradas. Tinha teletipista que lia o texto olhando cada sequência de furos. Três em sequência era o A, dois era o B – estou inventando… – e assim por diante. A máquina não tinha as letras estampadas nas teclas. Por isso eram chamadas de “ceguinhas”. Os teletipistas trabalhavam como morcegos. A fita perfurada escrevia 50 letras por minuto. Tec, tec, tec… Num posterior importante avanço tecnológico em comunicação, escrevia 75 letras por minuto. As batidas nas teclas eram chamadas de bounds, em inglês. Uma batida, um bound. Desesperadora tecnologia de transmitir notícias.

Passos rápidos

Um mundo de repórteres daquela época tem mais de uma aventura para contar em seus esforços para fazerem suas matérias chegar ao solo sagrado da vida que é uma redação. Já disse que não tenho papel suficiente nem memória para enfileirar todos neste rápido bate-papo. Mas claro que não vou deixar de falar da Agência Estado, onde trabalhei desde sua fase embrionária, quando a AE era uma pequena mesa, uma velha Olivetti e eu, os três enclausurados numa redoma de vidro de um metro por dois, um dos poucos espaços que eram usados para recepção de noticiário. Por telefone. Permitam-me: dessa redoma eu enviava sorrateiramente aos assinantes as matérias censuradas. Mal sabiam os censores quem era eu naquela fase de chumbo. Pensavam certamente que se tratava de um batedor de carimbos e me deixavam em paz. Daquela redoma eu me divertia vendo aqueles fabulosos, corajosos jornalistas do Estadão, que me deram sempre ricas aulas de capacidade de trabalho e competência, vaiando os censores a cada matéria proibida.

Pois bem. Na minha época o Estadão tinha uma gigantesca rede de sucursais e correspondentes pelo Brasil e mundo afora. Cópias de cada matéria destinada ao jornalão caiam na minha mesa da AE como uma chuvarada. Medíamos os espaços por centímetros. De altura. A transmissão aos assinantes era obstruída pelos 50 bounds de velocidade do teletipo, 50 batidas na tecla por minuto. Era de se puxar os cabelos. O trabalho de reescrever e enxugar cada texto para que chegassem em maior número e mais rapidamente aos assinantes era exaustivo. Terminávamos de língua de fora o expediente noite a dentro, o Sircarlos Para Cruz, Eidi Cescato e eu, subeditor. Hoje arrogo-me o direito de ter sido, de me proclamar, supersubeditor, de tanto ter me ralado no trabalho. Emperrados por aquelas medievais condições de comunicação, dessa maneira nós três, Sircarlos, Eidi e eu, carregamos a AE nas costas durante 20 anos. Esse mundo que se arrastava ganhou passos rápidos quando começaram a ser abertas as primeiras caixas lotadas de computadores.

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Apóllo Natali é jornalista

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