Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > QUADRINHOS

Revistas de super-heróis batem recordes no mercado americano

Por André Miranda em 04/11/2014 na edição 823
Reproduzido do Globo.com, 29/10/2014; intertítulo do OI

Foi uma crise financeira que deu origem aos primeiros super-heróis. Entre o fim da década de 1930 e o início da de 1940, nasceram Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Capitão América, Flash, Lanterna Verde e Shazam, entre outros seres fantásticos que despertavam a imaginação dos leitores. Seus criadores eram jovens atrás de uma fuga de um mundo real que sofria as consequências da Grande Depressão de 1929. Ali teve início a Era de Ouro dos Quadrinhos.

Quase um século depois, a história se repete. Na sequência da crise financeira de 2008, a venda de HQs não para de crescer. No ano passado, a Diamond Comic, empresa americana que detém a exclusividade de distribuição das revistas das principais editoras de super-heróis, como Marvel, DC, Image e Dark Horse, teve seu maior lucro desde sua fundação, em 1982. Os números, de acordo com uma previsão da própria Diamond, devem se repetir neste ano, ainda mais depois do resultado dos meses de julho, agosto e setembro: foram US$ 145,5 milhões em encomendas de quadrinhos, o melhor trimestre de todos os tempos para a distribuidora.

Para incentivar ainda mais o novo boom, o que também não para de crescer é a presença de super-heróis em filmes, séries de TV, videogames, brinquedos e em tudo o mais que se possa pensar. Do fim de setembro para cá, estrearam na TV as séries “Gotham”, “The Flash” e “Constantine”, todas baseadas em histórias em quadrinhos. Já no ranking de bilheteria de cinema de 2014, simplesmente quatro filmes de super-heróis aparecem entre as dez primeiras posições: “Guardiões da Galáxia” é o primeiro; “Capitão América 2: O Soldado Invernal”, o segundo; “X-Men: Dias de um futuro esquecido”, o sexto; e “O Espetacular Homem-Aranha 2”, o oitavo.

– Em 2013, nossas vendas foram 35% maiores do que em 2009. E tudo indica que vamos igualar o resultado em 2014 – comemora Roger Fletcher, vice-presidente de Vendas e Marketing da Diamond. – Nós acreditamos que os filmes, as séries e os games contribuíram muito para que as pessoas aceitem melhor as histórias de super-heróis. E uma maior aceitação levou ao crescimento das revistas em quadrinhos e graphic novels.

Em setembro, a recordista nos EUA entre as HQs foi o primeiro número da série “Morte do Wolverine”, em que a Marvel promete matar um de seus heróis mais populares – mas todo mundo sabe que nos quadrinhos, assim como na Bíblia, mortes são facilmente reversíveis. A revista vendeu cerca de 262 mil cópias, de um total de 7,89 milhões de revistas distribuídas pela Diamond no mês.

Neste ano, a Diamond também pôde celebrar o recorde de encomendas de uma única HQ: lançada em abril, “Amazing Spider-Man vol. 3 #1” chegou ao impressionante número de mais de 540 mil cópias impressas.

– Os quadrinhos estão num momento de renovação. As grandes editoras se deram conta de que estava na hora de ousar para enfrentar os quadrinhos piratas na internet e também outras formas de concorrência, como o cinema e a TV – afirma Rafael Albuquerque, quadrinista gaúcho que é um dos criadores da premiada série “Vampiro americano” e já ilustrou histórias de Batman, Super-Homem e Besouro Azul, todas para a editora DC. – Houve, então, uma movimentação grande no universo dos super-heróis. A DC, por exemplo, fez um reboot de seus personagens em 2011, o que elevou as vendas. Além disso, as editoras mais independentes, como a Image, estão se fortalecendo muito. Minha avaliação é que estamos entrando numa nova era dos quadrinhos nos EUA.

Entre os maiores

Em paralelo a esse movimento das editoras, não param de sair notícias sobre novos filmes baseados em quadrinhos. A programação dos estúdios americanos já prevê lançamentos até 2020.

Para se ter uma ideia do crescimento do negócio, vale fazer uma comparação com a década de 1980, quando foram lançados dois filmes do Super-Homem e o primeiro “Batman” (1989). Num período de dez anos, entre 1980 e 1989, o número de produções baseadas em heróis não passou de 15 – e olha que estamos sendo generosos e contando “Howard, o Super-Herói” (1986) e as três partes de “O Vingador Tóxico”. É menos do que as 17 adaptações com estreias marcadas para os próximos três anos, de 2015 a 2017.

No ano que vem, a sensação deve ser “Vingadores: Era de Ultron”, previsto para o fim de abril. O filme é uma continuação de “Os Vingadores” (2012), primeira aventura para o cinema do grupo de heróis da Marvel e que representou a terceira maior bilheteria de todos os tempos no mundo: US$ 1,5 bilhão, atrás apenas dos US$ 2,2 bilhões de “Titanic” (1997) e dos US$ 2,8 bilhões de “Avatar” (2009).

– Um filme e uma série são a melhor propaganda que a revista em quadrinhos pode ter. Pegue o exemplo de “The walking dead”. A revista passou a vender muito, mas muito mais depois que a série de TV foi lançada em 2010 – diz Albuquerque. – É curioso que, hoje, as pessoas já criam um novo quadrinho pensando em vender os direitos para a adaptação para o cinema. É uma nova possibilidade para editoras e selos pequenos tornarem suas histórias mais populares.

No Brasil, a principal editora de revistas em quadrinhos é a Panini, empresa de origem italiana responsável pelos lançamentos de Marvel, DC, Turma da Mônica, entre outras histórias. A editora não divulga números de vendas, mas, segundo Marcio Borges, seu diretor Comercial, de Marketing e de Publicações, há muito o que comemorar.

– De certa forma, os quadrinhos andam na contramão do mercado se compararmos com demais segmentos de revistas. O brasileiro redescobriu o prazer de curtir quadrinhos incentivado pela qualidade do conteúdo e pela cultura pop tão presente em nossas vidas. São leitores que muitas vezes criam o hábito da leitura a partir das HQs – afirma Borges. – A Turma da Mônica é o maior exemplo disso, compreendendo leitores de todas as idades, que em fase adolescente experimentam novos formatos de quadrinhos, como o americano clássico, o mangá japonês, o alternativo pop, mas no fim nunca deixarão de curtir a obra do Mauricio de Sousa.

Ainda segundo o diretor da Panini, o crescimento do mercado brasileiro vem atraindo a atenção de empresas estrangeiras.

– Nos últimos 50 anos, várias ondas de quadrinhos foram vistas no Brasil, nas quais a banca de jornal sempre foi o principal local de venda. As revistas do Mauricio de Sousa, por exemplo, já chegaram a superar 2,5 milhões de exemplares vendidos em apenas um mês, com um portfólio de títulos menor do que apresenta hoje – diz Borges. – Atualmente, o mercado brasileiro é um dos maiores do mundo para língua não inglesa e tem atraído cada vez mais os olhares de importantes nomes e licenciantes estrangeiros.

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André Miranda, do Globo

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