Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > PERGUNTAS & INFORMAÇÕES

Jornalistas são responsáveis por aquilo que cativam

Por Gabriel Bocorny Guidotti em 11/11/2014 na edição 824

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” A frase advém de um diálogo onírico entre o pequeno príncipe, que intitula o livro do francês Antoine de Saint-Exupéry, e uma raposa terrena. O animal tentava explicar ao protagonista o principal preceito das relações humanas. Cativar, aliás, é cultura jornalística. Talvez não ao ponto de amar todos os interlocutores que acompanham o processo de produção da notícia, mas certamente existindo um fragmento deste sentimento.

Ser jornalista, num prisma filosófico, é nunca perder a capacidade de se surpreender. Se em meio ao centro de uma grande metrópole, um homem retirar suas vestes urbanas e sair voando com os trajes de um super-herói, provavelmente muitos transeuntes dirão: “Isso é loucura”, “Isso é de outro planeta”. O jornalista dirá, categoricamente: “Isso é notícia”. E vai reportar, sem perder o foco no fato em si. Jornalismo, portanto, é praticado por seres-meninos(as). Indivíduos que não perdem a inocência de uma criança, na medida em que acreditam no poder transformador de uma boa apuração. Exatamente como o pequeno príncipe, que adorava fazer perguntas.

Em determinada passagem do livro de Saint-Exupéry, o principezinho decide deixar sua casa – o asteroide B 612 – para descobrir novos mundos e conhecer novos amigos. Peregrinando entre corpos celestes vizinhos, depara com inúmeras figuras, sozinhas em seus respectivos mundos – assim como ele. São individualidades tão fortes, tão originais, que apenas orbitam o universo, ficando à margem de tudo em razão de seu temperamento peculiar. Trata-se de uma metáfora, uma linguagem figurada. A transposição de tais personagens pode ser feita, tranquilamente, para o meio jornalístico. Confira perfis que o livro evoca.

O jornalista-rei

O primeiro planeta era habitado por um rei. O pequeno príncipe não sabia que, para os reis, o mundo é muito mais simples. Todos os homens são súditos. Nesse contexto, recordar uma frase se faz pertinente: “Advogado pensa que é Deus. Jornalista tem certeza.” Há muitos profissionais com a velha “síndrome de Watergate”, lutando para derrubar presidentes ou figuras públicas. Pensam que tudo podem, inclusive ferir a própria ética que juraram defender. Se a informação sustenta uma reportagem, então o bom jornalismo está sendo praticado. Agora, caso a matéria se calque em interesses escusos do repórter ou da empresa que representa, então a atividade perde seu combustível mais basilar: a credibilidade.

Jornalista-vaidoso

O pequeno príncipe encontrou, em outro corpo celeste, um vaidoso. “Os vaidosos só ouvem elogios”, disse. Existe, no jornalismo, um glamour natural em torno do nome. Um bom profissional deseja ter seu nome reverberado, especialmente quando uma reportagem ou projeto de comunicação ganha projeção nacional. Diferentemente do livro, contudo, eles não precisam ser reconhecidos como “os mais belos, os mais bem-vestidos, os mais ricos e os mais inteligentes de todo o planeta”. Basta a consideração do público e dos colegas.

Jornalista-bêbado

O planeta seguinte tinha um bêbado como único residente. “Por que bebes?”, perguntou o pequeno príncipe. “Eu bebo para esquecer que tenho vergonha de beber”, respondeu o indigente. Seria um desrespeito tentar comparar o jornalista a um bêbado desvairado. De outro modo, a bebida do comunicador, como bem sabem os viventes da área, é um bom café. Hoje em dia, conceda café e internet e uma boa história estará garantida. Elementar. Além disso, há aquela frase, comum no meio, que explica a paixão dos profissionais pela atividade e traduz outro tipo de líquido. “É uma cachaça.”

Jornalista-empresário

O jornalista empreendedor está sempre pensando em números e dados. Gestores de comunicação normalmente são assim. No livro, o pequeno príncipe encontra seu interlocutor em meio à contagem das estrelas no céu. O personagem assim trabalha para depois guardar o número total em uma gaveta – anotado em um papel. Ele não tem tempo para absolutamente nada, exceto contar estrelas. O jornalista-empresário, normalmente, é dono de si. O trabalho é exigente, diga-se de passagem, mas tem se revelado uma alternativa aos baixos salários pagos pelas redações.

Jornalista rato de redação

No quinto planeta, o pequeno príncipe dá de cara com um homem cuja única finalidade na vida era acender e apagar um lampião. Cada vez que fazia isso, um dia se passava. Contudo, a rapidez com que comandava seu lampião aumentava paulatinamente, de modo que uma conversa de minutos representaria a passagem de semanas. E não há jornalistas assim? Pessoas que criam raízes na redação, esperando a notícia do dia seguinte? E que, quando saem, não conseguem desligar seu faro? Vivendo assim, o tempo passa muito mais rápido. É verdade também que, muitas vezes, o profissional se sente obrigado a proceder de tal maneira, em razão da equipe cada vez mais diminuta dos veículos de imprensa.

Jornalista-ancião

O próximo planeta era habitado por um velho – um geógrafo – que escrevia livros gigantes. Mas escrevia sobre coisas permanentes, como as montanhas, isto é, coisas que pouco mudam. O jornalismo é uma área que está sempre se reinventando, entretanto, as notícias se repetem – e é impossível brigar com elas. Lamentavelmente, as matérias do incêndio das lojas Renner, ocorrido em Porto Alegre em 1976, e da boate Kiss, em Santa Maria, no ano de 2013, são as mesmas. O jornalista remodela a informação, mas não descarta as essencialidades do próprio conceito de notícia. O “óbvio” também vira matéria. Especialmente nas universidades, essa é a primeira lição que jornalistas mais experientes, agora professores, ensinam.

O último planeta é a Terra. E na Terra – cheia de adultos estranhos, pessoas comuns e espécies reproduzidas aos milhares – o pequeno príncipe descobre o que é realmente importante na vida. O jornalista já descobriu o que é importante ser reportado na vida, mas um dia ele chega lá. Profissionais da área nunca perdem sua alma de criança; sempre anseiam por novas descobertas, qualquer que seja o perfil a que se assemelhem. Permanecem amigos do principezinho ao longo de toda sua trajetória. Eis a beleza do jornalismo.

< ****** Gabriel Bocorny Guidotti é bacharel em Direito e estudante de Jornalismo

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