Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > ‘SERIAL’

Jornalismo como série

Por Pedro Doria em 18/11/2014 na edição 825
Reproduzido do Globo.com, 11/11/2014; intertítulo do OI

Podcasts não são muito populares no Brasil. Programas de rádio ou TV distribuídos pela internet. Bons de ouvir correndo, na academia ou enquanto se dirige. Lá fora é diferente, são conhecidos e têm audiência. E a ideia mais nova que há em jornalismo está, faz algumas semanas, no topo da lista dos podcasts da loja iTunes, da Apple. Chama-se “Serial”. É uma série de não ficção. Nela há um assassinato e um mistério. A solução só virá no final.

“Serial” tem pai. É Ira Glass, 55 anos, um judeu americano daqueles com voz anasalada, óculos pretos de aros grossos, cabelo ligeiramente grisalho. É tido como um dos maiores mestres do jornalismo narrativo. Glass é o criador e produtor de “This American Life”, ou TAL, um programa semanal veiculado por quase 600 estações de rádio públicas de todo o país.

Cada episódio de TAL, que foi ao ar pela primeira vez em 1995, tem uma hora de duração. Podem ser uma longa reportagem ou várias, desde que tenham em comum um mesmo tema. Não é rádio como estamos habituados por aqui. Há um repórter-narrador, música de fundo, personagens ricos, as entrevistas são costuradas para dar ritmo. Dá trabalho editar TAL. Cada história, passada em cidades grandes ou pequenas, às vezes com personagens pacatos à primeira vista, surpreende. Um prazer ouvir.

Glass sempre experimentou com formas narrativas. É do tipo para quem a maior arte está na estrutura, em como organizar a história, em buscar a sequência certa, o ritmo adequado.

Ele experimenta, também, com modelos de negócio e distribuição. A rádio pública americana não é estatal, embora receba verba do governo. Há concorrência: cada pequena estação em cada condado escolhe os programas que vai exibir e os compra no mercado. TAL, portanto, pertence a Ira Glass, que disputa com inúmeros outros produtores por espaço. Até o início deste ano, era distribuído no país pela Public Radio International (PRI). É o programa de rádio semanal mais popular do sistema público.

E é, também já faz uns anos, o podcast que com mais frequência aparece no topo da lista dos mais baixados. Podcasts fazem com o rádio o mesmo que o Netflix faz com a TV. O espectador ouve quando preferir, o que quiser. Se a escolha for ouvir vários programas em sequência, pode. Enquanto a PRI distribuía TAL pelo rádio, Glass percebeu que sua audiência por internet só fazia aumentar. Era uma audiência internacional.

Boa história

No início do ano, quando o contrato com a PRI venceu, ele decidiu não renová-lo. Isto quer dizer que o dinheiro fixo que o acordo lhe garantia, não importa quantas rádios o comprassem, deixou de existir. Distribuir por conta própria dá trabalho. E faz mais dinheiro.

“Serial” é o primeiro filho de TAL. Não passará no rádio, mas qualquer um pode baixá-lo, gratuitamente, pelo site thisamericanlife.org. Conta a história de dois adolescentes apaixonados em finais dos anos 1990, na escola secundária. Adnan Syed e a jovem Hae Min Lee, de Baltimore, viveram um amor de verão e aí se separaram. Meses depois, Lee apareceu morta. Syed foi condenado pelo crime. Mas, de acordo com uma pista descoberta pelos repórteres, talvez seja inocente. Está preso já faz 15 anos.

O público acompanha a investigação jornalística com todas suas frustrações. Às vezes o rapaz parece inocente, noutras a impressão vai por água abaixo. Uma história bem contada e viciante. Já está no topo das paradas nos EUA e no Reino Unido.

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Pedro Doria, do Globo

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