Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MURO DE BERLIM (1961-1989)

Vozes por cima do muro

Por Fábio Corrêa em 18/11/2014 na edição 825
Reproduzido do blog do autor, 10/11/2014

A queda do muro que isolava Berlim Ocidental do resto do mundo – e que, ao mesmo tempo, significava para os berlinenses da parte oriental a única maneira de romper a cortina de ferro imposta pelo Bloco Soviético – completou ontem um quarto de século.

Durante 28 anos, o contato por terra entre civis do leste e oeste foi praticamente eliminado. Algo, porém, passava pelos pouco mais de 4 metros altura armados com placas de concreto: as frequências de rádio.

Em 1986, cinco frequentadores do submundo da parte oriental resolveram unir forças com os vizinhos ocidentais para produzir o primeiro programa de rádio pirata da República Democrática Alemã (DDR, em alemão).

O canal negro

Em uma reportagem publicada para o site da revista alemã Der Spiegel, o jornalista Peter Wensierski – que trabalhou como correspondente no Leste para veículos da Alemanha Ocidental, cobrindo grupos e conspirações oposicionistas de 1979 até a Queda –, conta que, em outubro de 1986, flyers curiosos começaram a surgir nas caixas de correio de alguns bairros de Berlim Oriental.

“Passe a informação! O primeiro programa independente da Alemanha Oriental – 31/10 / 22h / VHF 99,2 MHz.”

Naquele 31 de outubro, antes do horário da transmissão, a Stasi – polícia secreta da Alemanha Oriental – saía à caça dos piratas. Furgões equipados com rastreadores de sinal tomavam as ruas, enquanto um avião militar circulava pelos céus do Setor Leste. Policiais se postavam, à paisana, em corredores de edifícios que abrigavam suspeitos de conspirar contra a DDR para, quem sabe, surpreender possíveis responsáveis pelo crime. Para completar, os homens de Erich Honecker – líder do Partido Socialista e, por consequência, do país – se equipavam com sua arma mais eficaz: os caguetas do regime.

Mas nenhum conseguiu impedir que, às dez horas da noite, na frequência 99,2 Mhz, o “Canal Negro” fosse ao ar. Com uma locução irônica, acompanhada de pequenos trechos musicais, o programa abordava, sem rodeios, um tema recente, mas proibido na DDR: o acidente de Chernobyl e as consequências nefastas da energia nuclear.

“Nossa exigência é: desativem os reatores atômicos – imediatamente!”, clamava o locutor, e ainda incitava os ouvintes a ligar em casa, às 20h, todos os aparelhos elétricos, desligar a chave geral e a repetir o processo em ciclos de cinco minutos. “Se isso funcionar, fará cair as chaves das usinas nucleares”, prometia.

Apesar da tragédia atômica na cidade ucraniana de Chernobyl, então território soviético, Honecker planejava ampliar a produção estatal de energia nuclear na Alemanha Oriental com a construção de uma usina em Stendal, que viria a se juntar aos reatores das cidades de Greifswald e Rheinsberg, sem que isso fosse discutido junto à sociedade civil. Chernobyl era, naquele momento, um tabu na DDR. Consequências nefastas da radiação, como câncer e leucemia, eram ocultadas pelos serviços de informação.

Trinta minutos depois, o “Canal Negro” encerrava a programação de estreia e anunciava que iria voltar a transmitir num futuro próximo. O título do programa era uma piada com o programa na televisão estatal oriental de mesmo nome, que utilizava imagens editadas da TV da Alemanha Ocidental para fazer propaganda política em favor dos socialistas.

Renhard Schult, Tina Krone, Bodo Niedlich e Sabine (sobrenome não divulgado) comemoraram, quase em silêncio, a consumação da iniciativa pirata em um pequeno apartamento em Berlim Oriental. Enquanto isso, o quinto elemento do grupo, Stephan Krawczyk, dirigia em seu automóvel pelo Setor Leste, se surpreendendo com o alcance da transmissão.

“Você contribui com uma boa atmosfera quando fala de algo sobre o qual não se deveria falar, e as pessoas se tornam mais livres a partir disso”, explica Krawczyk na entrevista a Wensierski.

Dois anos mais tarde, Krawczyk acabaria preso na DDR. Até aquele momento, o currículo subversivo do compositor e músico já contabilizava uma cassação de licença profissional pelo Partido Socialista. Um ano antes da prisão, ele havia sobrevivido a uma tentativa de assassinato arquitetada pela Stasi. O motivo havia sido uma carta, endereçada a um dos principais líderes do Partido, pedindo por liberdade artística na Alemanha Oriental.

Assim como no plano macabro contra Krawczyk, em 1986 as ofensivas da Stasi contra o primeiro “Canal Negro” não surtiram efeito. Mas, do outro lado do Muro, as forças de segurança da parte capitalista da cidade aceitaram ajudar os vizinhos na perseguição aos piratas do ar. Na lei do Oeste, a regra era bem clara: a condenação por transmissões ilegais previa de cinco anos de prisão à pena de morte.

A ajuda que veio do oeste

A parceria leste-oeste também operava, com sucesso, à margem do panóptico mantido pela polícia de ambas as Alemanhas. No submundo, todavia, a colaboração havia sido planejada com maior antecedência.

Pouco tempo antes do lançamento do “Canal Negro”, Reinhard Schult havia se encontrado, em segredo na Berlim do leste, com membros da cena alternativa dos squats do bairro ocidental de Kreuzberg, tradicional reduto de artistas, punks e imigrantes – e próximo ao muro. Na conversa, o interlocutor de Schult descreveu o movimento de rádios piratas na Alemanha Ocidental, que em 1983 já havia reunido 500 adeptos em um congresso nacional de estações clandestinas.

O plano estava concebido. Schult e Krawczyk compuseram o roteiro do programa e entregaram-no dentro de um envelope a um correspondente da imprensa ocidental (o próprio Wensierski?) em outro encontro clandestino, dessa vez no quintal de um padre simpatizante à causa. De qualquer maneira, fabricar roteiros para rádio pirata não configurava um delito. O crime começava quando o programa entrava no ar.

“Não nos encontramos nenhuma vez [com o grupo que produziu o programa]. Não os conhecíamos, e eles não nos conheciam. Receberam nosso roteiro e entenderam tudo tão bem que a coisa ficou sensacional.”, conta Tina Krone, uma das idealizadoras do “Canal Negro”.

Durante o segundo transmissão do programa, os observadores do Setor Oeste chegaram a invadir o apartamento de uma editora independente na Gorlitzer Strasse, mas não encontraram nada além de K7’s recheadas com gravações de bandas da cena underground.

Em um edifício a poucos metros dali, um transmissor, escondido no sótão e ligado a uma bateria de automóvel, levava as ondas para além do Ocidente e atravessava a cortina de ferro com a voz do leste – para o leste.

O “Canal Negro” encerraria as atividades em 26 de dezembro de 1986, durante a terceira transmissão, após a Stasi ter gerado tanta interferência na faixa de frequência a ponto de tornar o programa incompreensível. Mesmo assim, a cooperação radiofônica além-muro estava fadada a continuar.

Radio Glasnost

Um som de descarga de banheiro ecoava no dial 100,6 MHz todo santo dia, às 19 horas. Era uma resposta da Radio100, a primeira rádio particular da Alemanha Ocidental, à transmissão do hino alemão que encerrava as atividades da Hundert,6, estação com a qual dividia a frequência. Às 23h, a Radio100 encerrava a programação do dia e avisava aos ouvintes que entraria no ar um sinal de pausa com 18 horas de duração – justamente a enfadonha grade da Hundert,6.

Em 1º de março de 1987, a Radio100 estreava, usando e abusando do tom debochado, anárquico e pluralista e dando voz a grupos sem espaço na mídia tradicional alemã. Havia, por exemplo, programas em árabe, turco, curdo, polonês, além do show Eldorado, produzido e direcionado ao público homossexual.

Ainda em 1987, durante uma visita de Ronald Reagan à Alemanha, produtores da rádio interceptaram o áudio da rádio-patrulha alemã durante um confronto com manifestantes e colocaram no ar um trecho em que policiais discutiam sobre a violência desnecessária de colegas mais exaltados. Dias depois, a polícia invadiu, em busca de provas, a redação da Radio100, detendo os funcionários, cancelando as transmissões e desligando os telefones por algumas horas.

Em setembro de 1989, o programa Slime-Line Show seria cancelado por ter, num arroubo orsonwelliano, mexido com as emoções de milhares de espectadores ao encenar a queda do Muro de Berlim – o que em dois meses se tornaria realidade.

Para desespero da DDR, as ondas da Radio100 podiam ser ouvidas dentro do território de Berlim Oriental. Ainda mais depois de Roland Jahn, um jornalista e político nascido na Alemanha Oriental e exilado no Setor Oeste da cidade, colocar em atividade o programa “Radio Glasnost – Fora de Controle”.

Mensal, a “Radio Glasnost” foi transmitida cerca de trinta vezes, de agosto de 1987 até a queda do Muro. O objetivo era simples: amplificar as vozes oposicionistas em Berlim Oriental e fazê-las ser ouvidas dentro da própria república socialista, no melhor estilo “Canal Negro”.

Valendo-se da ajuda de diplomatas, jornalistas e funcionários do Partido Socialista com livre trânsito pela fronteira, Roland Jahn recebia, além dos roteiros, fitas com gravações anônimas feitas diretamente em Berlim Oriental. Nunca nenhum material foi interceptado durante o contrabando.

“Jahn teve um papel muito importante para toda a oposição, servindo como amplificador, ponto de contato e nos equipando com informação e tudo o que precisávamos. Além disso, também acabamos criando nossos próprios programas ilegais com os gravadores que ele nos cedia”, recorda a então oposicionista oriental Marion Seelig, hoje deputada do die Linke, partido alemão de esquerda, em entrevista recente à radio estatal Deutschlandfunk.

Para Jahn o objetivo era mais ambicioso: garantir a pluralidade de opiniões para a DDR. “Isso era o mais importante, já que nos entendíamos como uma redação que não se alinhava com este ou aquele grupo”, conta, também em entrevista àDeutschlandfunk. ”Não havia posicionamento sobre aqueles cidadãos que queriam ir embora ou ficar na Alemanha Oriental. Tentávamos dar voz a todos os lados.”

Apresentado por Ilona Marenbach, a “Radio Glasnost” noticiava prisões –inclusive a de Stephan Krawczyk–, informava sobre os fluxos de emigrantes que deixavam a DDR pelas embaixadas ocidentais de países no Leste Europeu e levava ao ar gravações de bandas do underground berlinense.

O programa gozava da legalidade dentro da Alemanha Ocidental. Do outro lado do muro, os orientais tentavam a qualquer custo gerar interferências destrutivas na frequência, o que nunca se completava. Assim, a frase que encerrava a “Radio Glasnost” acabou virando uma espécie de bordão: “Que ótimo. Para variar, essa foi uma transmissão livre de interferências da Glasnost.”

Sem conseguir detê-lo, políticos da DDR resolveram criticar o programa publicamente por incentivar as forças contrarrevolucionárias dentro da Alemanha Oriental. Com tal publicidade gratuita, o número de ouvintes da “Radio Glasnost” aumentou consideravelmente. Como a Radio100 só tinha alcance dentro da região de Berlim e Brandenburgo, era divulgado em fitas K7 que circulavam por todo país.

“Eles tentaram de tudo: isolar os correspondentes, falsear as informações, instaurar problemas técnicos nos tocadores de fitas, destruir os transmissores. Mas, no fim, resistimos – e isso foi uma satisfação para nós. Fomos melhores que a Stasi”, avalia Jahn. “Fizemos o programa para superar o Muro. E, quando ele caiu, ficou também a glória de constatar que os grupos mais importantes da oposição tinham representantes dentro da própria Radio100. E que lá foi o lugar no qual puderam dar vazão às suas inquietações.”

Aos 61, Roland Jahn atualmente dirige o órgão federal que preserva os arquivos e investiga as ações realizadas no passado pela hoje extinta Stasi.

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Fábio Corrêa é jornalista e mestre em Antropologia

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