Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Jogadores evangélicos apontam vitória divina

Por Pedro Blank em 02/12/2014 na edição 827

Quando as câmeras estavam ligadas levando a imagem para todo o Brasil, os flashes disparavam milhares de vezes por segundo e o Brasil assistia ao Cruzeiro conquistar legitimamente o tetracampeonato brasileiro dentro de um estádio lotado em cima do Goiás, no domingo (23/11), algo diferente aconteceu no Mineirão. Uma bandeira de proporções gigantescas tomou o anel inferior com a inscrição “A Deus toda Glória”. É necessário compreender a relação entre o marketing religioso e o maior esporte do mundo.

À luz de Max Weber e seu A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, podemos encontrar algumas hipóteses para entender o episódio em questão. Na perspectiva do esporte, cabe perguntar o summum bonum, ou bem maior, que os milhões de cruzeirenses (pesquisas de torcida apontam que há cerca de oito milhões de celestes) buscam quando se prepararam para ver o time em ação. O que está em jogo em uma partida de futebol? Vários estudos sociológicos sugerem que o esporte desperta o lúdico, o espaço da brincadeira que acompanha o homem desde a era das cavernas.

No campo filosófico, o lúdico desponta como oposição à racionalidade. Na pós-modernidade, ressalte-se, é cada vez mais consenso que a razão prevalece sobre a emoção, tendo como pano de fundo a louvação pragmática ao hedonismo-consumismo. O estádio, então, configura o espaço em que homens podem voltar a ser meninos. Antes de a bola rolar, o torcedor entra em campo com a equipe com a incerteza da vitória, da goleada que pode ser obtida ou do amargo choro dos perdedores. O desfecho dessa brincadeira acontece em 90 minutos ou no fim do campeonato, tudo aberto, repleto de carga dramática. Nas palavras do uruguaio Eduardo Galeano, “a história do futebol é uma viagem ao prazer”.

Onde o jogo se desenvolve

O Cruzeiro, tetracampeão brasileiro, tem no elenco diversos jogadores evangélicos. Um dos que mais atribui vitórias a Deus é o goleiro Fábio. Em entrevista ao jornal mineiro Hoje em Dia (ver aqui), ele explicou a bandeira: “Nós oramos e Deus determinou, quando Deus fala nós obedecemos. A Máfia Azul está de parabéns por ter adotado a ideia”.

A Máfia Azul é uma torcida organizada do Cruzeiro que já chegou a ser proibida de frequentar estádios pelo Ministério Público de Minas Gerais. A própria diretoria do clube se manifesta contrária à organizada. Mas, mesmo assim, para confeccionar o “bandeirão”, Fábio e outros atletas evangélicos se quotizaram e arcaram com R$ 15 mil para colocar a peça no Mineirão no dia em que o time se sagrou campeão nacional.

No momento da festa, o goleiro Fábio, com uma camisa repetindo os dizeres da bandeira, voltou a dividir os créditos do triunfo com Deus. “Nação azul comemora, Deus é bom” (ver aqui). É no discurso entre Deus e futebol que vamos prosseguir. Obviamente, não se questiona a bondade de Deus, seja com os vencedores ou derrotados. As palavras de Fábio encerram o sentimento religioso em si mesmo e forjam um ser humano abstrato, sozinho. A autoalienação religiosa divide o mundo em dois: um místico (Deus determina as vitórias e derrotas) e outro real, onde ocorre o confronto esportivo e os atletas são os únicos responsáveis pela derrota. E não resta dúvida que é no real que o jogo se desenvolve, com as qualidades dos competidores prevalecendo.

Quando Deus nem foi citado

O marketing religioso de atletas de futebol e repetido pela mídia à exaustão impacta justamente o aspecto lúdico do esporte. Colocar Deus como responsável por uma vitória é se despedir de toda plenitude e beleza que uma partida pode nos proporcionar. É necessário que a mídia problematize a questão: triunfos esportivos em nada têm relação com a Divina Providência.

A mídia esportiva, notadamente espetacularizada, contribui para potencializar o espetáculo religioso como o visto no confronto decisivo do Brasileirão deste ano. O Brasil é, constitucionalmente, um Estado laico. No futebol, onde os patrocínios valem milhões, mensagens religiosas e discursos metafísicos proliferam na mesma medida que o torcedor se afasta dos estádios. O Cruzeiro, em que pese ser o líder de público no campeonato nacional, não conseguiu colocar metade do público nas partidas como mandante (ver aqui).

Parafraseando uma passagem do evangelho de Mateus: “Dai, pois, ao futebol o que é do futebol, e a Deus o que é de Deus”. Três dias depois de levantar o título brasileiro, o Cruzeiro decidiu o título da Copa do Brasil contra o Atlético-MG, novamente num Mineirão lotado. Perdeu o título e completou um ano sem vencer o seu maior rival. A bandeira e as camisas com a inscrição “A Deus toda Glória” não apareceram. Nas entrevistas, Ele também não foi citado. Nenhum repórter perguntou aos jogadores cruzeirenses por que Deus entrou em campo com o Atlético.

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Pedro Blank é jornalista e escritor

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