Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > NOVO MANDATO

Dilma, realismo ou traição?

Por Rui Martins em 06/01/2015 na edição 832
Reproduzido do Direto da Redação, 31/12/2014; intertítulos do OI

O que mais temia Asterix, o herói nacionalista gaulês da resistência à invasão romana, aconteceu com os petistas: o céu lhes caiu em cima da cabeça!

Aceitaram desfechar uma campanha eleitoral das mais ofensivas e ofensoras para desconstruir a adversária Marina, embora dotada do mesmo gene, acreditando piamente com o fervor dos evangélicos, num segundo mandato bolivariano da presidenta Dilma e, antes mesmo do Natal, receberam uma desilusão de provocar enfarte com a nomeação dos novos detentores da política econômica do país.

Mal refeitos do tranco causado pela indicação do banqueiro Joaquim Levy – com passagem pelo Fundo Monetário Internacional e Banco Interamericano de Desenvolvimento, antes de assumir como diretor superintendente do Bradesco – para o Ministério da Fazenda, a esquerda em geral e não só os petistas teve de engolir uma lista de treze novos ministros inimagináveis durante a campanha eleitoral. Só anteontem [segunda, 29/12], foram indicados alguns ministros petistas, minoria no Planalto como são minoria no parlamento.

Dizem que Lula e Rui Falcão propuseram outros nomes, mas pelo jeito a presidenta defendia outras ideias e assumiu a opção, mesmo chocando seus eleitores, de mudar o rumo e adotar uma outra política no seu governo. Segundo mandato tem essa vantagem: livre da obrigação de agradar para se reeleger, a presidenta pode agir como lhe aconselham as lições de economia aprendidas desde jovem e, pelo jeito, modificadas com a queda dos soviéticos, seguida da globalização e do capitalismo de Estado chinês. Estudiosa ela é, tanto quanto autoritária, e, durante sua prisão no Dops, conta uma colega dessa época de resistência à ditadura, Dilma preferia sempre se isolar para estudar economia nos livros que conseguia receber.

Exploração política

De tudo quanto Dilma decidiu nestes últimos dias, detonando uma cisão entre seus eleitores e aliados, em fase de ampliação, a primeira interpretação seria a de ter adotado uma posição realista. Realista quanto ao método: governar o Brasil à esquerda com minoria, sem a ajuda do mensalão e sem contar com os argumentos derivados da Petrobras, seria uma tarefa praticamente impossível. Donde a única solução realista possível: lotear cargos em troca de apoios parciais e compromissos. No fundo, nada de novo, os acordos passados com figuras como Sarney, Collor e Maluf já deram resultados, pelo menos eleitorais.

Ou realista quanto à ideologia a aplicar. Seria possível iniciar um segundo mandato socialista mesmo light, quando a França viu seu presidente Hollande, eleito com uma plataforma de socialismo democrático, ter nomeado um primeiro-ministro socialista liberal de direita, depois de dois anos de estrangulamento econômico? Sem se esquecer da queda dos socialistas Zapatero, José Sócrates e Papandreou, na Espanha, Portugal e Grécia, numa Europa em crise em que as conquistas trabalhistas estão sendo derrubadas uma a uma, num retorno implacável do capitalismo.

Dilma, a presidenta, com a economia brasileira estagnando e sem fôlego, diante da ameaça da inflação, podendo assim ser comprometida a ascensão dos trinta milhões de brasileiros saídos da miséria, deve ter consultado a Dilma economista, atônita com o quadro atual e sem dispor de uma solução ideológica concreta de esquerda para relançar a economia. A solução do recurso ao assistencialismo para detonar a economia reativando o mercado pelo consumo, usada com êxito durante o governo Lula, não produz mais efeito. Diante desse risco evidente de uma crise econômica maior, Dilma decidiu, realisticamente, adotar a cartilha da direita, numa tentativa desesperada, de evitar um segundo mandato caótico.

Dilma é, sem dúvida, dos poucos esquerdistas e socialistas que leram e analisaram o Capital, de capa a capa (nem todos os evangélicos leram toda a Bíblia!) e deve ter lido, mesmo porque já citou, a corajosa e (pretensiosa?) nova versão da obra máxima marxista O Capital no Século XXI, no qual o francês Thomas Piketty disseca a economia moderna, focando principalmente a desigualdade de renda na Europa e EUA, diminuída depois das duas grandes guerras, porém de retorno nestes últimos 30 anos.

Ora, o economista esteve, faz apenas um mês, em São Paulo lançando a versão em português do livro que lhe deu notoriedade mundial, e em entrevistas, falando não como político, mas observador econômico, fez alguns reparos ao balanço do governo Dilma Rousseff mostrado na campanha eleitoral.

O mais importante referia-se à martelada diminuição da desigualdade social, pois segundo Piketty ela não foi tão marcante quanto apregoada. E um dos fatores determinantes, que impedem a ascensão social de muitos e mantêm o alto nível de rendas de alguns, é a inexistência no Brasil de uma taxação da transmissão de fortunas ou heranças. Embora se defina como próximo dos socialistas, já esteve próximo do presidente Hollande, Piketty vê a criação de impostos progressivos sobre fortuna, rendimentos e transmissão de fortuna como um tabu no Brasil, pois à exceção da extrema esquerda, ninguém falou nisso na campanha eleitoral, pois seria suicídio.

Entretanto, Piketty citou Merkel e Cameron, da direita europeia, como defensores de impostos sobre os ricos. No entender do economista, a riqueza deve ser sempre reafirmada e reconquistada como capitais em investimentos ativos e não dormir inativa, beneficiando-se de juros e transmissões seguras de pais para filhos, garantindo que se perdure a desigualdade de rendas, pois quem não tem de quem herdar tem muito mais dificuldade de ascensão social. No Brasil, segundo o economista, existe muito imposto indireto que protege os de renda mais alta e penaliza os baixos salários. Pode ter havido no Brasil, diz Piketty, uma melhora em favor dos pobres, mas as mesmas medidas podem ter favorecido a distância dos mais ricos sobre os mais pobres, aumentando a desigualdade de renda.

Outro desacordo de Piketty é o relacionado com o auxílio das bolsas famílias do governo aos mais desfavorecidos. Para ele, o mais importante é o aumento do salário mínimo até um nível mais justo, coisa ainda não atingida no Brasil, embora iniciada nos últimos quinze anos pela aplicação de uma escala gradativa, atualmente correndo o perigo de ser anulada pela inflação. Piketty não fez maiores comentários sobre o assistencialismo das bolsas, porém na Europa em geral, marcadamente nos países nórdicos, Suíça e na própria França, o auxílio aos mais desfavorecidos é garantido para os que recorrem à assistência social, em níveis bem mais elevados aos das bolsas famílias. A obrigatoriedade legal de se proporcionar auxílio às pessoas e famílias sem rendimentos por fatores diversos, anularia sua exploração política, como ocorre nos países citados.

Desencantos acumulados

Uma terceira interpretação quanto ao surpreendente ministério de Dilma poderia ser ligada ao escândalo da Petrobras, do qual provém o risco do pedido de impedimento da presidenta, obrigando-a a deixar o cargo. Um novo governo com poucos petistas e aparentemente de direita poderia demover a intenção de alguns parlamentares proporem ou votarem pela destituição da presidenta. Seria uma tática de sobrevivência.

A corrupção, pode-se dizer, faz parte do genoma brasileiro. A desigualdade social, da qual falamos acima, detona de um lado a violência como meio de sobrevida e favorece a ideologia da apropriação indébita como meio de se aumentar seu pecúlio. A elite, calculada em 10% da população, detentora de 55% das rendas brasileiras, não precisaria utilizar da corrupção para aumentar seus vencimentos, mas age como cleptômana desde a época da colonização até hoje. Lamentável é a corrupção se ter transformado em algo rotineiro entre os políticos, a ponto de mesmo o partido considerado o único defensor de uma nova ética ter a ela sucumbido.

Em 2005, ao concluir meu livro sobre a receptação pela Suíça do dinheiro ali levado pelos corruptos de todo o mundo, principalmente africanos e latino-americanos, estourou o caso do mensalão, e minha reação foi a de citar o exemplo de um tipo de mensalão suíço legal, com a oferta a deputados e senadores de cargos bem remunerados por bancos e empresas suíças. É assim que os bancos e empresas suíças participam do governo.

Como aparentemente no caso do mensalão brasileiro não havia enriquecimento pessoal dos envolvidos, mas se tratava de um método nada clean de obter aprovação de projetos para governar, poderia ser entendido e explicado. Só não entendi por que o PT insistiu, mesmo tendo sido condenado, a não admitir ter utilizado do mensalão para poder governar.

Novamente, surgiram denúncias de nova corrupção, desta vez dentro da Petrobras. E me surpreendo ao ler que muitos militantes negam o óbvio e, pior que isso, acusam a imprensa de utilizar a denúncia dessa nova série de corrupção de mentirosa e golpista. É a mesma coisa que acusar os Médicos sem Fronteira de responsáveis pela epidemia do ebola na África, por terem revelado a inação da Organização Mundial da Saúde ao surgirem os primeiros casos. A grande imprensa pode estar colocando os holofotes no chamado Petrolão, mas não é ela a responsável pelo escândalo. E, ao contrário, devemos agradecer aos colegas jornalistas por não deixarem passar no silêncio e nem ter sido abafado esse escândalo.

Durante a ditadura, propus e fui um dos organizadores com colegas jornalistas paulistas do Encontro com a Liberdade, que reuniu as diversas tendências de esquerda contra a primeira lei de censura baixada pelo ditador Castelo Branco. Protestei junto ao falecido ministro Márcio Thomas Bastos, na capital suíça onde se encontrava, quando o presidente Lula, num acesso de cólera e mal assessorado, decidiu expulsar o jornalista correspondente americano Larry Rohter. Mal ou bem, a imprensa vem cumprindo seu papel dentro das democracias e geralmente são jornalistas os primeiros a denunciar os atos discricionários, as censuras, os controles da informação nos Estados totalitários, ditaduras diversas de partido único e imprensa oficial.

Retornando ao tema principal, o novo ministério de Dilma, pode-se concluir que, em todas essas hipóteses – realismo político, realismo ideológico ou tática de sobrevivência – ser ela culpada por ter permitido ao seu marqueteiro e ao PT uma campanha eleitoral baseada no oposto ao que ela teria de adotar após sua reeleição.
Sua sinceridade de destruir as ilusões dos eleitores logo depois de reeleita não a exime da culpa de ter acenado com promessas inviáveis e de ter torpedeado a concorrente Marina, que prometia um realismo mais amplo “com os melhores” e mais coerente. Vê-se hoje ter sido indecente a campanha desfechada contra a Neca “a banqueira do Itaú” Setúbal, para logo depois se chamar um dos dirigentes do Bradesco, esse um verdadeiro banqueiro, para dirigir a economia brasileira.

Com os desencantos acumulados não se sabe qual será reação dos petistas minorizados no governo que tanto se esforçaram em reeleger. A esquerda não esconde sua decepção e é difícil se prever como será 2015 em Brasília.

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Rui Martins, jornalista, escritor, líder emigrante, autor do livro Dinheiro Sujo da Corrupção sobre as contas suíças de Maluf, é editor do Direto da Redação

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