Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > BALANÇO 2014

Informar é preciso

Por Sérgio Dávila em 06/01/2015 na edição 832
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 31/12/2014; intertítulo do OI

Numa das últimas cenas da temporada final de The Newsroom (A Redação), série subestimada de Aaron Sorkin na HBO sobre os bastidores de um telejornal de TV paga, o âncora Will McAvoy (o ator Jeff Daniels) dá sua definição de jornalismo para sua produtora-executiva: “Tem um buraco num dos lados do barco. O buraco nunca vai ser consertado, nunca vai deixar de existir e não é possível conseguir um barco novo. O que você tem de fazer é tirar a água mais rápido do que ela entra.”

O ano que termina foi pródigo em águas para dentro do barco do jornalismo brasileiro e mundial, informações em estado bruto que tiveram de ser contextualizadas com rapidez e precisão. Toda lista retrospectiva é arbitrária, mas impossível não encabeçar esta com a débâcle de dois campeões nacionais: seleção brasileira e Petrobras. A melhor tradução do assombro que tomou o país naqueles 18 minutos em que o Brasil levou os primeiros cinco gols do placar final de 7 x 1 é do humorístico brasilalemanhaeterno.com, que atualiza o placar indefinidamente, como se o jogo não tivesse acabado. No momento em que escrevo, estaríamos perdendo por 20.540 a 2.739.

Da mesma maneira, a impressão que se tem é que, se a Operação Lava Jato não tivesse sido deflagrada em março, o rombo da corrupção na Petrobras não ficaria nos US$ 10 bilhões atuais, segundo cálculos feitos sobre o desvio – seguiria crescendo a cada minuto.

Tantos outros eventos poderiam ser elencados. Eduardo Campos morreu e deixou Marina como a presidente Porcina, a que foi sem nunca ter sido; Aécio quase chegou lá e deixou a Dilma seu programa econômico, que ela parece ter adotado; highlander da política local, o clã Sarney saiu de cena.

De vento em popa

No campo externo, houve a improvável reaproximação de dois inimigos, Cuba-EUA, liderada por um ditador octogenário e um democrata desacreditado e mediada por um papa argentino; uma sonda pousou num cometa; o ebola invadiu o mundo dos brancos e ricos.

Num momento em que cada vez mais atores disputam a atenção do leitor, que tem cada vez menos tempo, nunca se remou tanto na imprensa para relatar, interpretar e analisar acontecimentos tão complexos tão rapidamente.

Nunca se consumiu tanta notícia, também. Segundo estudos recentes do Pew Research Center e do McKinsey Institute, a geração que tem entre 20 e 30 anos hoje lê mais que a de seus pais e avós. O acesso à informação também é mais fácil, embora a confiabilidade dela seja de mais difícil aferição.

Com isso, cresce a importância do jornalista profissional. É um trabalho sem fim, como o do barqueiro da metáfora.

Em 2015, pode até faltar água em São Paulo – outra notícia importante –, mas o barco noticioso continuará navegando.

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Sérgio Dávila é editor-executivo da Folha de S.Paulo

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