Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > MEMÓRIAS DA REDAÇÃO

Uma foto na parede

Por Ethevaldo Siqueira em 06/01/2015 na edição 832
Reproduzido do grupo Extadão, no Facebook, 28/12/2014; intertítulo do OI

Esta redação é apenas uma foto na parede. Mas como dói!

Não tenho vergonha de plagiar Carlos Drummond de Andrade, diante desta foto da redação do Estado de S.Paulo, onde trabalhamos até 1975. Nos piores tempos da ditadura, fizemos o que nossa consciência de brasileiros e de jornalistas nos mandava: lutamos de todas as formas possíveis pela redemocratização do País. Quanta história essas mesas e velhas máquinas de escrever podem nos contar. Guardei para mim uma velha Olivetti, que salvei de ser vendida como sucata.

Olhando para esta redação, ainda ouço o ruído infernal das 8 horas da noite, com 200 máquinas de escrever, impressoras de telex, a gritaria, a voz de colegas como Raul Bastos, Clóvis Rossi, Oli, Pedreira, nosso querido Celso Ribeiro Leite (que se foi no desastre da Varig em Orly, em 1973), de Saul Galvão, de Frederico Branco, do Eduardo Martins (sempre ensinando português), do velho Frederico Heller, do Appy, do Tâmer, Samir, Gegê, Góes, do Ricardinho (Kotscho), Alan Dupré, Assef Kfouri, Lourenço (Dantas Motta), Tonico Pereira, Cecília Thompson, Adélia Borges, Lia Ribeiro Dias, Chico Ornellas, Bebeto, Luiz Salgado, Markun, Claudio Amaral, Sanvito, Bonas, Sergio Motta Mello, Monforte, Sardenberg, Quartim, Zélio, Moacyr Castro, Francisco das Chagas, Paulo de Tarso Costa, Isa (diagramadora), Luiz Carlos Santos (Barriga?), Domício Pinheiro (toc-toc-toc), Toninho Boa Morte, Theodoro da Silva (do Interior), Tony da Silva Prado, Rabinovici, João Luiz, do maestro Diogo Pacheco, do pessoal da Arte, do Exterior, dos exilados de todas as ditaduras de Portugal (especialmente o Miguel Urbano editorialista, um texto brilhante), Bolívia, Uruguai e Argentina (refugiados na ditadura brasileira) e muitos que a memória não poderia lembrar de repente.

Aproveito aqui a colaboração e as lembranças de Bebeto, que me sugere os nomes de mais colegas dos tempos da redação da Major Quedinho, a começar por Gianino Carta, na Internacional, Dácio Arruda Campos, o time de primeira qualidade dos fotógrafos: Araki San, Ivo Barretti, Manente, Eduardo Figueiredo, Dinaura Landini, que também foi do meu tempo, o Pantoja, sempre com a garrafinha com uma dose única de pinga. Os dois João Alves, um deles o ‘dos Santos’ e outro, ‘das Neves’, que morreu há pouco. O Flávio Galvão, da Política; a Clicie Mendes Carneiro, Joaquim Douglas, Rubens Rodrigues dos Santos, a turma toda das cabines, que recebiam nossas matérias pelo telefone, Eduardo Jardim, a turma da Polícia, Leonel à frente, Ricardo Mendes, que cobria a Assembleia, o Rodrigo, que praticamente criou a área de transportes, para o deslocamento dos repórteres, que por sinal evitavam o Mané ‘Fittipaldi’, que não passava de 50 km por hora e assim sempre chegava atrasado nas coberturas, e o José Stachini que, por conta própria, foi atrás do Guevara que tinha certeza que estava na Bolívia e teve que voltar uma semana antes da descoberta do guerrilheiro, porque acabou a grana. Se lembrarmos mais, incluiremos neste post coletivo da saudade.

Amigos e colegas

Nesta redação vivi os melhores anos de minha vida. Aqui, ajudei a preparar edições históricas – como a da morte do Dr. Júlio Mesquita Filho, em 1969 (em que fechei 12 páginas de perfil e depoimentos sobre o grande homem); ou a chegada do homem à Lua (em julho de 1969), quando preparei um suplemento especial de 12 páginas e viajei para o Cabo Canaveral; ou a edição do incêndio do Joelma (1974) ou ainda do fechamento do Congresso Nacional, em 1977.

Nessa redação passamos noites de angústia com a invasão de militares que iam em busca de bilhetes de sequestradores entre 1969 e 1972. Aqui sofremos a violência da censura por mais de cinco anos. Sempre relembro que sabíamos por que lutávamos, e tínhamos orgulho de trabalhar num jornal como o Estadão.

Ao viajar pelo mundo, naqueles anos de ouro, senti o prestígio do jornal em dezenas de locais, nos EUA, na Europa, no Japão e até na URSS. Certa vez no Japão, meu passaporte venceu. Fui ao consulado brasileiro para renová-lo por mais 30 dias, em Yokohama, e o cônsul me disse: “Vou renovar seu passaporte por mais 10 anos. E o faço com orgulho, porque admiro o jornal em que você trabalha”.

Já nos anos 2000, falei pela primeira vez com Jorge Gerdau, num evento em Atlanta, Geórgia (EUA), e ele, espontaneamente, se abriu em elogios ao Estadão: “Diga aos Mesquita que eles ajudaram a formar a minha cabeça, bem como a de algumas gerações de líderes no Brasil. Eles nos ensinaram a ver o mundo com muito maior amplitude, a defender a liberdade com muito maior convicção e a conhecer a verdadeira importância de um jornalismo de alto nível”.

Lembro-me da última noite aqui, a festa de despedida desta redação da Major Quedinho, em 1975, registrada em Super-8 por Luiz Salgado. Cantamos e bebemos até as duas da madrugada, com o violão de Nilton Taninha (da diagramação), toquei violino e bandolim, acompanhei Casanova e Nilo Scalzo em grandes sambas, acompanhei até Ruy Mesquita, que relembrou Silvio Caldas. Só no final vimos Júlio Neto, sempre discreto. Cesar Costa não ficou muito tempo com seu charutão. Sei que vou esquecer muitos outros amigos e colegas que não poderia relembrar agora, mas que deixaram marcas em minha vida.

“Este orgulho…”

A contemplar esta foto, me lembro de um poema de Carlos Drummond de Andrade (Confidência de Itabirano), que me fez sentir algo parecido: a dor da saudade.

Esta redação é hoje, para todos nós, apenas uma foto na parede deste Facebook. Mas como dói.

Leia os versos de meu poeta predileto, Drummond:

Confidência do itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
[esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;]
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

******

Ethevaldo Siqueira é jornalista especializado em tecnologias digitais, editor do portal www.telequest.com.br. Escreveu durante 45 anos para o jornal O Estado de S. Paulo, onde foi repórter, editor, repórter especial e colunista. Fundou em 1979 a RNT – Revista Nacional de Telecomunicações, publicação que dirigiu até 2001

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