Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > ‘CHARLIE HEBDO’

A charge como forma de expressão

Por Gabriel Bocorny Guidotti em 13/01/2015 na edição 833

No livro A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística, Nilson Lage explica a história de gêneros distintos que ajudaram os jornais a criar uma identidade. Em meio à disputa pela audiência, era preciso inovar, lançar novos mecanismos que variassem a lógica da informação. Eis que surgem as novelas ou folhetins, normalmente publicados em capítulos no rodapé das páginas. Além disso, o estranho e o exótico passaram a ter valor-notícia, com matérias que repercutiam a cultura de diferentes países. As novidades não podiam estancar.

Há outro recurso que perdura até hoje e que foi vitimado na última semana: os desenhos alegóricos ou satíricos, calcados em frondosas doses de humor. Na esteira da irreverência, se tornaram um sucesso no sentido de amainar a rigidez das sociedades altamente politizadas dos séculos 19 e 20. Fazer jornalismo, portanto, não mais se atinha à mera fabricação de textos em grandes veículos. Desenhar também constituiu um instrumento expressão. Invariavelmente, o conteúdo era construído de forma irônica, mas também informacional.

Dessa vertente, a charge virou um produto largamente comercializado e que ganhou autonomia para criar seu próprio segmento vertical – fora da imprensa de massa. É o caso da revista Charlie Hebdo, uma referência na área, cujo calvário registrado na última semana chocou o mundo. A violência empregada pelos terroristas consagrou um ritual de barbárie, vertendo o sangue criativo de alguns dos maiores artistas que já existiram. Cada pessoa consciente perdeu um pedacinho de si. Dentro da premissa que o semanário francês formava opiniões, é inequívoco afirmar que o jornalismo também está de luto.

Liberdade para criar

Os cartunistas da Charlie atuavam de forma sui generis, utilizando seu arcabouço técnico na linha do deboche sobre temas espinhosos, como a religião. Muitos críticos conceituam o conteúdo da revista como imoral, desrespeitoso e não merecedor de consideração. Ainda assim, é genuíno permitir forma de manifestação tão heterodoxa. Em um país livre, como a França, as pessoas, especialmente os muçulmanos, gozariam da mesma liberdade para desqualificar o periódico, demonstrando o baixo nível das publicações – se assim pensarem.

O massacre na sede da revista reacendeu a interminável discussão a respeito da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão. Qualquer debate nesse sentido repousa, necessariamente, em três aspectos: a moral, a sociedade e a lei. Olhando por esse ângulo, não existe liberdade plena. Há sempre elementos limitadores que ora arrefecem o ímpeto dos comunicadores, ora os punem por crimes cometidos. Na sátira, contudo, é difícil constatar quando a brincadeira ultrapassa um desses limites. É uma linha muito tênue.

“Je suis Charlie” – eu sou Charlie – era a frase que estampava cartazes na Praça da República, em Paris, em um encontro belíssimo de compatriotas afligidos. Quem aderiu à homenagem não compactua, necessariamente, com o conteúdo da publicação. Todos são Charlie, pois todos são humanidade. Certamente, há pessoas que condenam o extremismo tanto quanto condenam o tipo de charge promovida pela revista. O bom-senso, contudo, pede união nesse momento para honrar a vida de indivíduos chacinados covardemente.

Desconhecido da massa brasileira, o semanário francês passou a ser melhor amigo de todos os cidadãos deste país. As charges já publicadas se transformam em objeto de estudo. O humor ácido, polêmico, se sente acuado, mas permanece legítimo como meio de expressão. Imoral ou não, os cartunistas morreram defendendo aquilo que gostavam de fazer. Não suprimiram sua liberdade em nenhum momento, embora ameaças sofridas. Que descansem em paz.

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Gabriel Bocorny Guidotti é bacharel em Direito e estudante de Jornalismo

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