Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > ANOS DE CHUMBO

De que são feitas as almas dos censores?

Por Ignácio de Loyola Brandão em 13/01/2015 na edição 833

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 9/1/2015; intertítulo do OI

Há, na edição de domingo passado [retrasado, 4/1] deste jornal [O Estado de S.Paulo], uma foto histórica, creio que única. Não me lembro de ter visto outra semelhante nestes 50 anos desde o golpe militar. Antes, porque seria proibida, depois porque talvez ninguém tenha se lembrado de registrar. Na matéria sobre os 140 anos de O Estado de S. Paulo, há a foto de Francisco Braga, o censor do jornal, “trabalhando” em 1968, um ano crucial. Sobre a censura de tais tempos muito se tem dito. Na primeira fase, assim que os militares se instalaram, o censor foi uma presença física dentro das redações. Praticamente batia ponto conosco. No jornal Última Hora, quando fui secretário gráfico, ele ficava em minúscula mesa, grande o suficiente para espalhar as matérias de cada página que estava desenhada e pronta para a gráfica.

Em alguns jornais dizia-se: descer à gráfica. No Última Hora não, redação e gráfica estavam no mesmo plano. O homenzinho lia com cuidado, às vezes relia e mandava chamar a mim ou o diretor de redação, pedindo explicação sobre determinado título ou palavra. Certa vez me perguntou: “O que quer dizer centunvirato?”. Fiquei chapado, quem tinha usado tal palavra? Tinha sido Ibiapaba Martins, ótimo escritor, da Academia Paulista de Letras e editor do caderno de variedades. Pedi um minuto, corri à revisão, voltei com o significado. Logo depois, surgiu outra: o que é exomorfismo? Nem tinha passado meia hora, o homem pediu: e linfosarcoma? E pranumguma? E ripanço?

Ele estava ficando cabreiro, eu também. A cada pergunta, pedia para ver de quem era o artigo, crônica, o que fosse. Ripanço tinha sido usado pelo Marco Antonio Rocha (hoje editorialista deste jornal). É um instrumento de madeira que serve para separar a baganha do linho, expliquei com o dicionário na mão. E o homem: “E o que é baganha?”. Exomorfismo estava em um artigo de Luis Carlos Bettiol, hoje no comando de uma das maiores bancas de advogados de Brasília. Pranungama era do João Apolinário, poeta e teatrólogo português, exilado antissalazarista, que fazia com sucesso um consultório sentimental assinado por Tia Helena (viver era necessário) e escrevia críticas de teatro. Formava com Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado, Delmiro Gonçalves, um quarteto respeitadíssimo. Linfosarcoma foi obra do Arapuã, humorista dos mais lidos que fez a proeza de usar tal termo num texto de humor.

No fim da noite, o censor tinha partido, nos reunimos e eu quis saber a história toda, contada entre risadas. Antonio Garini, repórter de polícia e cronista da vida – escreveu certa vez uma história do circo em São Paulo [O curador e pesquisador desta matéria foi um sujeito curioso, estava todas as noites no Gigetto, um dândi conhecido como Julinho Boas Maneiras, amigo de todo mundo que se imaginasse, do trapezista de circo da periferia a Tônia Carrero, Tarcísio Meira, Jô Soares, Walter Hugo Khouri.] que foi um primor, uma série que merecia ser resgatada em livro -, tinha um texto limpo e ordenado. Ele contou que quando o revisor embatucou na primeira palavra, foi como se um raio tivesse caído na redação. Garini juntou Marco Antonio, Arapuã, Bettiol, Ibiapaba e Apolinário. Correram à revisão e extraíram do dicionário as palavras mais estapafúrdias. O time que “inventava” palavras mudava dia a dia para não dar na cara. Palavras extravagantes surgiam até no título. Furioso, o censor implicou com idiossincrasia usada por Walter Negrão, hoje novelista. “Isto não existe”, clamava. Provou-se que existia. Só que ele teve razão, não fazia sentido no texto. Negrão explicou: “Foi somente para sacanear”. A situação durou até o momento que o censor, diante da palavra semasiologia, determinou: “Que se usem aqui palavras cujo sentido todos compreendam”. Entregou-me um papel com a lista que tinha vetado, guardei por anos. Semasiologia, vejam só.

Culto e educado

Um redator, o teatrólogo Roberto Freire bateu de frente, certa noite, queria saber o porquê de um veto. O censor usava um carimbo verde, retangular, quando eliminava textos. A resposta não deixou dúvida: “Porque quero, porque sei o que é bom e ruim para o País, para a revolução. Não me questione mais ou mando prendê-lo”. Só eles chamavam o golpe de revolução.

De tempos em tempos, mudavam o censor, talvez para que não se habituasse e fizesse “amizade” com os jornalistas, passasse a funcionar o jeitinho. Só que ninguém queria amizade, a figura era odiada. Com o tempo, a censura se sofisticou, passou direta para a Polícia Federal, surgiram normas e igualmente uma coisa terrível: “Vocês sabem o que não deve ser publicado. Na dúvida, não publiquem”. Criou-se a autocensura perniciosa, devastadora. Eu não publicava uma reportagem, mas o Estado sim. Este não dava, eu dava. Não se falava, e também se falava (cada um arriscava) de política não se usava a palavra ditadura, não se falava de sexo, drogas, terrorismo, assaltos a banco, tortura, religião, virgindade, sexo antes do casamento, pílula anticoncepcional. Um inferno, vinham admoestações, chateações explicações.

Tudo isso me veio ao ver a foto do Francisco Braga. Ele está vivo ainda? Sabia o que fazia? Fazia porque gostava ou era um emprego? Havia ideologia? Ela tinha ideia de como desvirtuava a realidade, o cotidiano. Como eram as almas dos censores? Tinham consciência do que faziam? Por que não fotografamos todos e demos seus nomes? Já dei muitas entrevistas e escrevi a respeito: tudo que os censores cortaram, eu guardei, usei para montar meu romance Zero, hoje emblemático sobre aquele tempo. Zero tem tudo que o leitor brasileiro não soube. Não precisei inventar nada. Anos mais tarde, na Editora Três havia um censor, um polonês elegante culto e educado que, vez ou outra, chegava e dizia: “Hoje é o último dia do filme Corações e Mentes. Amanhã será proibido. Corram para assisti-lo”. As redações esvaziavam, até a sóbria Eny, secretária do Domingo Alzugaray, dono da editora, largava tudo e ia. Do que são feitas as almas dos censores? E me pergunto se nomearam Berzoini para restaurar tudo isso.

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Ignácio de Loyola Brandão é jornalista e escritor

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