Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > ‘CHARLIE HEBDO’

Os cartunistas mortos

Por G1 em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do G1, 7/1/2015; título original “Wolinski, lenda do cartum francês, é uma das vítimas de ataque em Paris”

O cartunista francês Georges Wolinski, conhecido por seu trabalho de forte teor erótico e político, considerado um dos símbolos de maio de 68, está entre os mortos no ataque contra o escritório da revista satírica “Charlie Hebdo”, em Paris, nesta quarta-feira (7). Ele tinha 80 anos.

Além de Wolinski, outros três cartunistas estão entre as vítimas: o editor da publicação, Stephane Charbonnier, o “Charb”; Jean Cabut, o “Cabu”; e Tignous.

“Wolinski influenciou todo mundo que vocês conhecem: Ziraldo, Jaguar, Nani, Henfil, Fortuna… O cara era uma ESCOLA. Que dia tenebroso!”, escreveu o cartunista brasileiro André Dahmer em seu perfil no Twitter.

Ao G1, Dahmer comentou por e-mail: “É uma perda irreparável. Assassinaram o maior cartunista em atividade no mundo. Um homem que influenciou três gerações de desenhistas”. Já Arnaldo Branco completou: “Wolinski era meu favorito – até por aproximação, por conta do seu desenho tosco (opcional, no caso do francês, que na verdade desenhava muito bem). É difícil até comentar, dada a imbecilidade da morte desse grande mestre – que causa é essa que precisa retaliar um cartum?”.

Quem era Wolinski

Nascido na Tunísia em 1934, Georges Wolinski se mudou com a família para a França em 1946. Começou a publicar suas tiras nos anos 1960, em trabalhos satíricos que envolviam política e sexualidade.

Durante o maio de 1968 francês – série de manifestações e protestos estudantis por reformas na educação que logo teve adesão de trabalhadores e resultou em uma greve geral –, Wolinski foi confundador da revista “L’Enragé”.

Na década seguinte, passou a fazer parte de jornal comunista “L’Humanité”. Outros veículos com os quais colaborou foram “Liberácion”, “Paris-Match” e “L’Écho des Savanes”, além de “Charlie-Hebdo”.

Uma das personagens mais marcantes de Wolinski foi a polêmica Paulette, criada junto do artista Georges Pichard (1920-2003) também o início dos anos 1970. Ela foi uma espécie de musa dos quadrinhos da época e apareceu pela primeira vez nas páginas da revista de humor “Charlie Mensuel” .

Em seu perfil no Facebook, o cartunista brasileiro Rafael Campos Rocha lembrou o lado “libertário” do francês: “WOLINSKI foi acusado de falocrata, masculi e todas essas merdas, porque era um LIBERTÁRIO. quem matou foi mais um desses patrulheiros filhos da p**a, para o qual a causa (seja religiosa, política ou de gênero) não serve para LIBERTAR, mas sim para COIBIR, CASTRAR e DESTRUIR, além de, é claro, de manter a sociedade de exploração, que vocês, moralistas de merda, precisam para continuar transformando a vida dos outros em um inferno”.

Quem era Charb

Stephane Charbonnier, o Charb, era o editor da “Charlie Hebdo” e tinha 47 anos. Sempre defendeu a posição da revista de publicar os desenho do profeta Maomé (segundo o islamismo, essas representações gráficas são consideradas blasfêmia).

Em 2012, ele afirmou à agência de notícias Associated Press que “Maomé não era sagrado para ele”. Charb disse na mesma entrevista que vivia “sob a lei francesa. Não sob a lei do Corão”.

Quem era Cabu

Jean Cabut, conhecido como Cabu, tinha 76 anos e era o cartunista por trás da capa de 2006 da “Charlie Hebdo” que mostrava o profeta Maomé. Aquela edição veio na esteira das ameaças contra um jornal dinamarquês que publicou desenhos de Maomé.

Ele era um cartunista veterano de vários jornais franceses. De acordo com o britânico “The Independent”, ele poderia ser o profissional de charge mais bem pago do mundo.

Quem era Tignous

Bernard Verlhac, conhecido como Tignous, nasceu em 1957 e colaborava com as revistas “Charlie Hebdo”, “Marianne” e “Fluide glacial”.

Seu último trabalho é de 2011 e tinha o título de “Cinco anos de Sarkozy”, sobre o período de Nicolas Sarkozy na presidência da França.

O ataque

Pelo menos 12 pessoas morreram no tiroteio em Paris nesta quarta. Entre os mortos estão dois policiais e 10 funcionários da revista, segundo a France Presse. A agência Reuters, citando a polícia, diz que outras dez pessoas ficaram feridas, cinco em estado crítico.

Segundo o jornal britânico “The Guardian”, Rocco Contento, porta-voz do sindicato dos policiais local, disse aos jornalistas que três suspeitos fugiram em um carro dirigido por um quarto homem. O veículo seguiu no sentido de Port de Pantin, onde o veículo foi abandonado e os suspeitos roubaram um segundo carro, no qual continuaram fugindo.
O número de suspeitos envolvidos no crime ainda é incerto e não foi confirmado pela polícia. Eles ainda são procurados e são perigosos, segundo as autoridades.

A sede da “Charlie Hedbo” foi alvo de um ataque a bomba em novembro de 2011 após colocar uma imagem satírica do profeta Maomé em sua capa.

Coincidência ou não, a “Charlie Hebdo” fez a divulgação em sua edição desta quarta-feira do novo romance do controvertido escritor Michel Houellebecq, um dos mais famosos autores franceses no exterior.

A obra de ficção política fala de uma França islamizada em 2022, depois da eleição de um presidente da República muçulmano. “As previsões do mago Houellebecq: em 2015, perco meus dentes… Em 2022, faço o Ramadã!”, ironiza a publicação junto a uma charge de Houellebecq.

A revista de humor tem sido ameaçada desde que publicou charges do profeta Maomé em 2006.

Em novembro de 2011, a sede da publicação foi destruída por um ataque criminoso, já definido como atentado pelo governo na época.

Em 2013, um homem de 24 anos foi condenado à prisão com sursis por ter pedido na internet que o diretor da revista fosse decapitado por causa da publicação das caricaturas do profeta muçulmano.

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