Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > ‘CHARLIE HEBDO’

Pela liberdade de expressão e contra o fanatismo

Por Raul Ramalho em 13/01/2015 na edição 833

Uma reunião de pauta ordinária quando a morte irrompe pela porta de forma avassaladora. Depois disso, 12 mortos, entre jornalistas, cartunistas e policiais. Mais à frente, os acontecimentos, que parecem mais roteiro de cinema, registram mais sete mortos, entre eles os dois terroristas suspeitos de praticar o ataque inicial, outro terrorista que fez reféns em um mercado para apoiar os criminosos originais, além dos quatro reféns.

Impossível, enquanto ser humano, não ser tocado pela situação. E, como jornalista, também fui atingido pelos tiros disparados no prédio da revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, na França. Pode até já ser um clichê, mas cabe registrar que o massacre foi um atentado, sim, contra a liberdade de expressão e também contra o jornalismo.

Mesmo que muitos digam que a publicação provocou os fundamentalistas muçulmanos e que o ataque já era anunciado há tempos (a revista já havia sofrido um atentado), nada justifica a sanha assassina dos terroristas. Além do mais, o argumento da provocação é um tanto quanto vazio. No momento em que jornalistas começarem a ceder a supostas ameaças, o ideal de liberdade de expressão e de imprensa será logo perdido.

Porém, o contrário parece está acontecendo. No mundo todo, atos em homenagem aos mortos e à revista não deixaram o ataque passar em branco. A hashtag #JeSuisCharlie (#EuSouCharlie) tomou conta das redes sociais. Os meios de comunicação no geral fizeram uma cobertura intensa do fato. Cartunistas do mundo todo se manifestaram com sua arte para reforçar a intenção de não baixar a cabeça diante da barbárie.

Os ideais do bom jornalismo

Outros questionamentos apontam para o fato de mortes como essas serem muito mais comuns no oriente médio, onde a religião muçulmana predomina. Igualmente, sinto-me tocado e repudio totalmente o uso indevido da religião para justificar assassinatos ou qualquer desumanidade. A Charlie Hebdo criticava, com humor, justamente esse tipo de situação.

Vale ressaltar que as sátiras publicadas pela revista não se restringem ao islamismo. A igreja católica, por vezes, foi alvo das piadas e políticos também, só para citar alguns exemplos. A crítica não reside na religião e sim nas distorções promovidas por diversos líderes para legitimar diversas maneiras de dominação social e política.

Temos agora que torcer e trabalhar, enquanto profissionais da imprensa, para que esse evento triste não gere outros acontecimentos da mesma proporção e agir, no que nos couber, para que os muçulmanos não sejam estereotipados (mais do que já são) pelos atos criminosos de alguns. Nosso dever agora é continuar com a cabeça erguida e entender o exemplo deixado pelos cartunistas que preferiram enfrentar a morte a se ajoelhar diante das exigências dos terroristas.

Espero que não tenhamos que passar pela mesma situação de ameaça, mas, como utopia, é necessário seguir fazendo de tudo o que estiver ao nosso alcance para manter os ideais do bom jornalismo, da tolerância e da liberdade de expressão vivos: #JeSuisCharlie

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Raul Ramalho é jornalista

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