Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > ‘CHARLIE HEBDO’

Por que devemos defender a liberdade, mesmo com ‘excessos’

Por Sylvio Micelli em 13/01/2015 na edição 833

Ainda repercutindo o principal assunto da semana – o ataque terrorista que matou cartunistas do semanário francês Charlie Hebdo –, observei alguns comentários sobre a publicação e seus “excessos”, principalmente nas críticas feitas ao islamismo. Claro que todos se posicionam contra as mortes que, realmente não se justificam sob nenhuma hipótese, mas alguns aventam a possibilidade de que, se a linha editorial do Charlie Hebdo não fosse tão “radical”, talvez o infortúnio não tivesse acontecido.

Pois bem. Vamos aos fatos.

1. As caricaturas de Charlie Hebdo são realmente pesadas. Algumas demonstram claramente o preconceito racial, outras o antissemitismo e a linha preferencial era, realmente, hostilizar o islamismo, apesar de haver material contra tudo, inclusive a Igreja Católica.

2. Ainda que eu entenda que há “excessos”, defender Charlie Hebdo é, em linhas gerais, defender a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.

3. É importante ressaltar que a liberdade não é algo impune. Qualquer um, que se sinta lesado pela mídia ou por qualquer manifestação preconceituosa, tem a seu favor um cabedal de leis nacionais e internacionais que garantem não apenas o direito de resposta, como ações civis para reparar danos morais, dentro daquele conceito de calúnia, injúria e difamação.

A lição do poeta

4. Se o fundamentalismo islâmico fosse sério e quisesse ser levado a sério teria usado dos instrumentos legais que as instituições internacionais garantem a todos. Mas o fundamentalismo islâmico não é sério. Além da cegueira dogmática, que não cabe a mim julgar, eles mesmos são preconceituosos, além de cercearem direitos fundamentais do ser humano, principalmente no que tange às mulheres e às crianças. E usam a religião para escravizar, sendo que todos sabemos que o interesse do Islã é poder, territórios e as inúmeras jazidas de minérios diversos que existem naquela região do mundo.

5. Defender Charlie Hebdo é defender, sim, a liberdade. Isso porque hoje matam cartunistas que usam do sarcasmo para ironizar o fundamentalismo, qualquer que seja ele. Amanhã, outros podem matar jornalistas, escritores, cartunistas e até cidadãos em geral, que denunciam políticos inescrupulosos, envolvimento de setores do Estado com o crime e tantas outras mazelas. Aliás, já fizeram isso.

6. Não posso conceber que a morte dos cartunistas ocorreu porque eles pegaram “pesado demais”. Eles morreram porque imbecis agiram pior que eles que satirizavam um conceito que comprovou ser torpe. Ou seja: os que mataram os cartunistas apenas ratificaram tudo aquilo que havia sido “dito” pelas charges.

Por fim, vale sempre lembrar da lição que nos deixou o grande “poeta da revolução”, Vladimir Maiakovski.

No caminho com Maiakovski:

“Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem;

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.”

#JeSuisCharlie

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Sylvio Micelli é jornalista

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