Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DO ‘ESTADÃO’

Quem te lê e quem te leu

Por Luiz Weis em 13/01/2015 na edição 833
Reproduzido do perfil do autor no Facebook, 9/1/2015

Intitulado “A valentia de ser livre”, o editorial desta sexta-feira (9/1) do jornal O Estado de S.Paulo sobre a matança perpetrada na antevéspera por terroristas muçulmanos na sede do semanário satírico francês Charlie Hebdo é uma ode à “coragem de um punhado de homens que apesar das ameaças que vinham recebendo desde 2006 (…) não se curvou ao poder da violência e se manteve leal àquilo que o Ocidente produziu de mais valioso: a defesa da liberdade.”

Perfeito, não fosse o fato de que em 7 de fevereiro daquele mesmo 2006 o mesmo Estadão publicou um editorial – intitulado “Jornalismo irresponsável” – sobre as consequências da publicação, em setembro do ano anterior, de um cartum mostrando Maomé como um terrorista, no Jyllands-Posten, descrito no texto como um “obscuro jornal dinamarquês”.

Lá vai:

“A fúria desencadeada no mundo árabe-muçulmano pela charge publicada originalmente em setembro em um obscuro jornal dinamarquês e republicada na Noruega em janeiro é a resposta que se poderia esperar à monumental irresponsabilidade de quem autorizou a sua publicação. O desenho mostra um iracundo profeta Maomé com um turbante em forma de bomba, a que não falta nem o pavio. Para as multidões que tomaram as ruas no Oriente Médio, queimando embaixadas dinamarquesas e norueguesas, a charge é uma das piores agressões que se poderia cometer contra a sua religião, que veda taxativamente a representação da efígie de Maomé. O tabu nasceu da sua condenação à idolatria.

Mas, ao acrescentar à caricatura do profeta o símbolo universal da violência indistinta, o desenhista e o seu jornal não se limitaram a escarnecer de um credo. A sua estereotipada mensagem é inequívoca: islamismo e terrorismo são uma coisa só, todo muçulmano é terrorista. A isso se chama islamofobia, uma expressão de hostilidade racial que, como todas as demais, deveria merecer o vivo repúdio do mundo civilizado. É verdade que, em razão do conflito israelense-palestino, a cultura popular nos países muçulmanos vem se encharcando de anti-semitismo, com a importação de velhas fabricações européias sobre os judeus. Isso, no entanto, não atenua a ofensa praticada por um órgão de imprensa de um país tido como um dos mais iluminados do mundo.

Pior foi a espantosa decisão de órgãos da imprensa do porte do Die Welt alemão e dos franceses Le Monde e France-Soir, de republicar a charge inflamatória para se solidarizar com o Morgenavisen Jyllands-Posten (que por sinal se desculpou pela desfeita) e para afirmar o princípio da liberdade de imprensa – uma raridade nos países governados por muçulmanos. O Ocidente não seria o que é, efetivamente, sem o direito à livre circulação de idéias, opiniões, informações e expressões artísticas. Mesmo esse pilar das sociedades democráticas, porém, não existe no vácuo. Nas palavras do jornal londrino The Guardian, “há limites e fronteiras – de gosto, leis, convenções, princípios ou juízos. Nada disso pode ser automaticamente desconsiderado invocando-se o valor maior. O direito de publicar não obriga a fazê-lo.”

Os islâmicos podem ser criticados, como fez um de seus mais importantes pensadores na Europa, Tariq Ramadan, em entrevista ao Global Viewpoint, por “reagir com exageros a provocações”. A onda de violência, estimulada ou aceita passivamente por mais de um governo, choca por seu primitivismo. Mas Ramadan também tem razão ao dizer: “Será que eu ando por aí insultando as pessoas porque tenho liberdade para isso? Não. Isso se chama responsabilidade cívica.” O problema contém ainda uma dimensão decerto mais profunda, relacionada com as características menos louváveis da cultura ocidental nos dias atuais, associada ao vale-tudo a que se entregaram a mass media e a indústria do entretenimento, degradando a liberdade em libertinagem.

Curiosamente, veio do Brasil talvez a melhor síntese da crise da charge, tendo como pano de fundo a disseminação da baixaria, sob todas as formas, na chamada “civilização do espetáculo”. Falando ao Estado, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, radicado em São Paulo, tocou no nervo da questão. “O Ocidente perdeu o valor do sagrado”, constatou. “Se os ocidentais não respeitam os seus valores, imagine os dos outros.” De fato, a permissividade midiática e a aversão do jornalismo de tablóide a educar o público se entrelaçam para embotar a capacidade do homem comum ocidental de entender as diferenças culturais que se manifestam especialmente em relação ao “valor do sagrado” em outros ambientes.

Na sexta-feira, o Posten afirma que “subestimou o sentimento de muitos muçulmanos sobre seu profeta” e que, se soubesse das consequências, não teria publicado a charge revoltante. O argumento é pobre. Ela não deveria ter sido publicada, fosse qual fosse a reação que provocaria. De um lado, por um senso de decência comum, cuja transgressão avilta a liberdade de imprensa. De outro, porque a publicação embutiu a intenção de ofender toda uma parcela da humanidade que se identifica, acima das etnias que a compõe, com um credo religioso. À deliberada profanação de um valor alheio somou-se a estigmatização da cultura que o abriga – quando a islamofobia cresce a olhos vistos na Europa, sem exceção da Dinamarca.”

Fundado em 1875, o jornal se gaba, dia sim, o outro também, da coerência de suas posições.

É isso aí.

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Luiz Weis é jornalista

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