Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > ‘CHARLIE HEBDO’

Bodes expiatórios contemporâneos

Por Francisco Fernandes Ladeira em 20/01/2015 na edição 834

No clássico livro O Mal Estar na Civilização, Freud aponta que a fomentação de um inimigo externo, à qual todos os membros de um determinado grupo devem direcionar os seus instintos mais hostis, é um auspicioso mecanismo de coesão social. De acordo com o jornalista e escritor científico Rush W. Dozier, o ódio em relação ao diferente remete a um antigo instinto primitivo (importante para nossos ancestrais mais remotos, habitantes de ambientes extremamente inóspitos; mas pernicioso para nós, seres civilizados) que combina intensa aversão, ira, estereotipagem e distinções do tipo “nós-contra-eles”. Já nos antigos rituais judaicos de purificação, um bode (o famoso “bode expiatório”) era abandonado na natureza como uma maneira de extirpar todos os pecados cometidos pela comunidade. No contexto geopolítico pós-Guerra Fria, com a ausência do “perigo comunista”, os muçulmanos foram escolhidos como os principais “bodes expiatórios” da civilização ocidental. Nesse sentido, a cobertura midiática sobre o atentado realizado contra a redação do jornal francês Charlie Hebdo demonstra emblematicamente como os meios de comunicação de massa são os mais poderosos instrumentos para direcionar a opinião pública a um determinado ponto de vista.

Preliminarmente, é importante salientar que não tenho o intuito de legitimar ou tampouco defender os ataques ocorridos em Paris. Assassinar covardemente doze seres humanos que estavam exercendo seus respectivos ofícios não é, em hipótese alguma, a maneira correta de se atingir um objetivo político ou de angariar indivíduos para uma causa. Não há como justificar, sob o ponto de vista ético, uma atrocidade de tamanha dimensão. Feitas as devidas ressalvas, vamos à análise dos fatos. Logo após o fatídico acontecimento, os veículos mais conservadores da imprensa evocaram a famosa dicotomia nós versus eles. De acordo com essa percepção maniqueísta, o ataque ao Charlie Hebdo seria mais um exemplo que vem corroborar o chamado “choque de civilizações” (eufemismo para justificar as intervenções das grandes potências mundiais em países do Oriente Médio e Norte da África). Sendo assim, enquanto nós, ocidentais, seríamos “civilizados”, “liberais” e “tolerantes”; os muçulmanos são tachados de “extremistas”, “bárbaros” e “radicais”, entre outros termos pejorativos, como se as práticas terroristas realizadas por grupos isolados determinassem os comportamentos de toda uma civilização.

A liberdade de ridicularizar minorias

Outra questão a ser salientada é o tendencioso ocultamento do caráter político-econômico dos ataques, analisando-os como simples antagonismos entre duas grandes religiões monoteístas. Consequentemente, o cidadão mediano – corretamente comovido pelos assassinatos, mas desprovido de senso crítico – assume, sem maiores questionamentos, o discurso ideológico imposto pelo status quo midiático e passa a repetir mantras como “Je suis Charlie” ou “o ataque ao Charlie Hebdo foi um ataque à liberdade de expressão”. A situação é bem mais complexa e controversa. O atentado à publicação não foi um fato isolado: está inserido em um contexto geopolítico bem mais amplo. Trata-se de uma resposta radical (e indefensável, evidentemente) às inúmeras humilhações impostas pelas potências ocidentais e seus fiéis aliados aos povos árabes e muçulmanos. Humilhações estas que podem ter tanto caráter simbólico (como charges), ou chegar às vias de fato (invasões ao Iraque e Afeganistão, intervenções na Síria e Egito ou o genocídio do povo palestino realizado por Israel).

O jornal Charlie Hebdo não faz apenas sátiras despretensiosas de uma determinada religião, sem fins políticos. O semanário francês representa (propositalmente ou não), sob um verniz de humor, a atual onda de perseguição às minorias árabes que vem ocorrendo em toda a Europa, e na França em especial. Portanto, como bem asseverou o escritor e ativista Tariq Ali, “sacralizar um jornal satírico que ataca com frequência aqueles que são vítimas de uma islamofobia galopante é tão insensato como justificar os atos de terror de que foi vítima”. Ironicamente, os ataques realizados por radicais islâmicos só vêm dar combustível para as campanhas da extrema-direita europeia pela expulsão dos imigrantes que vivem no Velho Continente.

Conforme a história nos mostra, em épocas de crise capitalista a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Foi assim com os judeus, após 1929, e não tem sido diferente com os árabes nos dias hodiernos. Os verdadeiros responsáveis pelas maiores intempéries econômicas, os grandes industriais e os especuladores financeiros, jamais são considerados culpados. Em última instância, a principal “liberdade de imprensa” que a grande mídia defende é a ampla liberdade de ridicularizar as minorias. Seja no aqui no Brasil (com o humor politicamente incorreto), na França (com as charges), ou em qualquer outra nação onde os meios de comunicação estiverem a serviço dos setores mais privilegiados da sociedade.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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