Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > BALAIO DO REPÓRTER

Jornalistas em ação como hordas de hunos

Por Lúcio Flávio Pinto em 20/01/2015 na edição 834
Reproduzido do Jornal Pessoal nº 576, 1ª quinzena de janeiro/2015; intertítulos do OI

É fácil identificar brasileiros em aeroportos internacionais pelo mundo inteiro. São aquelas pessoas que não respeitam a faixa amarela que atravessa a área frontal aos pontos de atendimento das companhias aéreas. As demais se mantêm atrás dessa faixa, que protege e dá intimidade a quem está fazendo check-in e despachando bagagem. Quando em grupo, então, os brasileiros se tornam mais selvagens. E quando a turma é de jornalistas, a selvageria ultrapassa qualquer padrão de barbárie.

O que tem impedido o Brasil de dar certo é que nenhum projeto de governo é acompanhado por um projeto de civilização. A riqueza que se acumulou em vários períodos da sua história, como agora, acaba evaporando como perfume barato. A geração dos abonados não pensa nos sucessores. Gasta tudo, dilapida. Mais do que o dinheiro, a civilidade e a cultura.

Alexandre Garcia relata no seu livro Nos bastidores da notícia, de 1990 (Editora Globo, 358 páginas), episódios dessa falta de modos e de educação dos jornalistas brasileiros que fizeram a cobertura da visita do general-presidente Ernesto Geisel a Tóquio, em 1976. Os exemplos que cita, à margem da jornada, são ilustrativos. O final da permanência da horda no hotel deixou um saldo impressionante: “Os brasileiros haviam levado não apenas bíblias e garrafas térmicas dos quartos mas também yukatas – trajes para dormir nos quais o hotel punha uma etiqueta, informando que um yukata como aquele estava à disposição do hóspede numa das lojas do térreo, por um preço baratíssimo. Pois além disso levaram também cortinas do hotel e até uma torneira do banheiro”.

O testemunho de Garcia puxou da minha memória cena parecida. Mal entramos no apartamento no hotel São Francisco, em São Luís do Maranhão, onde iríamos ficar para uma cobertura jornalística, o fotógrafo que me acompanhava abriu sua enorme valise e começou a colocar dentro dela todas as garrafinhas de bebidas que estavam sobre o frigobar e o conteúdo do aparelho, deixando-o zerado.

Fiz minhas contas e o alertei que naquele momento ele estava em débito na gerência em determinado valor, que não era nada pequeno. Como?, reagiu ele, estupefato. Porque aquela despesa não estava incluída na nossa conta e eu não ia poder justificá-la para a contabilidade do jornal na prestação de contas. Era ônus pessoal dele e ponto final, inclusive porque o hotel tinha a relação de tudo que havia no apartamento.

Depois de algum protesto, o fotógrafo, pesaroso e ainda inconformado, devolveu cada item ao frigobar.

Olhar irado

Já escolado, em outra viagem, esta para Marabá, adverti meu companheiro de excursão, outro fotógrafo, que ele não podia retirar nada daquela pensão, a melhor da cidade, que levava o nome da família Mutran. Não só por ser vetado. Era também pela fama da proprietária, que a tudo fiscalizava da sua cadeira de vime de balanço, à porta da entrada, com olhos de águia e ânimo belicoso.

Mais afoito ainda, o fotógrafo ignorou meu alerta. Quando deixávamos a pensão, a meticulosa dona exigiu que abríssemos nossa bagagem. A minha foi aprovada. A do meu companheiro provocou um turbilhão acusatório: lá estava uma das toalhas do quarto. A gritaria foi tanta que decidi resolvê-la à moda da casa: comprei a toalha usada pelo preço de uma nova. E assim fomos liberados.

Por essas e muitas outras, não é imerecida a má fama de jornalistas em geral nas suas missões externas, sejam viagens como meras coberturas locais de acontecimentos. A dos fotógrafos, em particular, é ainda mais nefanda: como dom José Cavaca dizia dos goleiros, onde ele pisa não nasce mais grama.

Os fotógrafos são (ou eram) indóceis, irrequietos e, quase por derivação, inconsequentes, irresponsáveis, incômodos. Por que um deles decidiu subir em determinada cadeira para pegar um ângulo (diferente, conforme sempre se justificam, a posteriori) da bela e enorme sala na residência do engenheiro Paulo Maluf, que dava entrevista coletiva à imprensa, ungido que fora pelo general-presidente Costa e Silva (na verdade, por sua esposa, dona Yolanda), naquele ano nada glorioso de 1969?

Pois costumava ser sempre assim. Um dentre os muitos fotógrafos em ação sempre encontra uma maneira de se distinguir (e valorizar) dos demais a partir de uma perspectiva original ou inédita para o seu clique na máquina. O dito cujo levantava o pé para se firmar na cadeira quando dona Sílvia, a esposa do novo prefeito biônico de São Paulo, levantou-se da sua e saiu como flecha a tempo de dar um empurrão no fotógrafo, que desabou do outro lado.

Sem perder o aplomb, a nova primeira dama da maior cidade da América do Sul se explicou, sem pedir desculpa:

– Essa cadeira tem 150 anos.

O profissional da fotografia, umas quatro vezes menos idade.

Alexandre Garcia conta ainda no livro que estava se justificando para a companheira de voo a Tóquio em função da barulheira dos jornalistas brasileiros a bordo, “quando chegou um deles para conversar. E pôs o pé descalço sobre o meu joelho. Eu nunca havia viajado com um grupo de jornalistas. A partir daquela noite passei a evitar a repetição de um tal vexame”.

Também tive minha experiência similar. Estava na companhia do ministro da Saúde do mesmo general-presidente Geisel, Paulo de Almeida Machado, numa mesa ao ar livre no hotel do Incra em Rurópolis. Era, em 1975, um oásis de ostentação e conforto no rústico cruzamento da Transamazônica com a Santarém-Cuiabá, que depois – para não variar no serviço público brasileiro – se arruinou.

Conversávamos descontraidamente porque já nos conhecíamos do tempo em que ele dirigiu o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), em Manaus. Chega o fotógrafo, outro, ainda mais novo, vindo do jantar. Senta, levanta as pernas e a deixa ficar sobre a mesa, para espanto do ministro e horror do seu segurança, um discreto e excepcionalmente (para aqueles tempos) afável agente da Polícia Federal. Rapidamente dou uma bicuda por baixo da mesa no fotógrafo, que retira as pernas – menos em função de súbita recuperação de modos, inexistentes, do que pela dor do golpe. Ainda se vira para dizer alguma coisa para mim, mas, felizmente, compreende meu olhar irado. Algo como a noção da idade e da hierarquia numa viagem o calam. O ministro e o agente me agradecem com outro par de olhares.

Cadernos de viagem

Conto essas histórias sem que elas comprometam a minha gratidão por alguns fotógrafos que me acompanharam nos momentos em que atuei como enviado especial, dentro e fora do Pará, principalmente quando iniciava na profissão. Foram muitas as ocasiões em que Porfírio da Rocha, Ayrton Quaresma, Emanoel Ó de Almeida ou Tolentino Martins, na velha A Província do Pará, meu primeiro emprego na carreira, supriram minhas falhas e faltas, me orientaram na apuração em campo (ou redigindo o texto na redação) ou me protegeram.

O problema, nas viagens, é que a maioria dos fotógrafos faz o seu serviço mais rapidamente do que o repórter. A partir daí quer ir embora, fazer outro serviço ou ir flanar. Após vários desentendimentos, decidi que iria viajar sozinho, munido da minha Pentax velha de guerra (hoje dignamente aposentada num escaninho da biblioteca).

Não era uma atitude muito profissional e merecia o repúdio de colegas. A viagem, além de significar o momento de maior aprendizado, era também a oportunidade de faturar diárias, passear e ter acesso a coisas e gente inacessíveis até aos mais endinheirados turistas, ainda que também houvesse uma face nada desejável: conflitos, ameaças, sacrifícios, desgastes, riscos graves e, eventualmente, mortes.

Sem um fotógrafo, minha expedição perdia na qualidade das ilustrações para o texto, mas a apuração ficava melhor porque dispunha de mais tempo para se diversificar e aprofundar. Zanzei pela Amazônia durante vários anos como repórter solitário em lugares ermos, naqueles pontos em que a Amazônia mais interessava aos novos donos da terra, que faiscavam suas riquezas com ferramentas tecnológicas mais sofisticadas e começavam a explorá-las como um novo almoxarifado de mercadorias para o mundo.

Sem fotógrafo e também sem a companhia de qualquer outro repórter por companhia ou como competidor, fui pioneiro em quase todas as frentes que se abriam atrás do novo eldorado: minérios, madeira, terra, especulação, saque. Histórias às vezes únicas, que estão à disposição nos arquivos dos jornais e, ainda maiores e mais detalhadas, em dezenas de cadernos de viagem que me acompanham como história, desafio e assombração.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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