Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > ‘CHARLIE HEBDO’

A tal liberdade da expressão

Por Geovanni Garcia Ferraz em 27/01/2015 na edição 835

No último dia 7 de janeiro, o ataque terrorista ao jornal francês Charlie Hebdo, assumido pelo Estado Islâmico, desencadeou uma série de discussões sobre a liberdade de expressão, um conceito que não costuma despertar uma compreensão total para as mais diferentes culturas que compõem o mundo. Mas, em primeiro lugar, precisamos compreender a gravidade do episódio que chocou Paris e as demais partes do globo. As doze mortes, mais do que números, representam um recado de que esse grupo, composto por islamitas, está disposto a fazer tudo para manter o que, segundo eles, reflete o respeito à palavra do profeta Maomé.

O Charlie não é o tipo de veículo jornalístico que costuma se acomodar na sombra de uma zona de conforto. Desde sua criação, ele se pauta em criticar os mais variados partidos políticos, personalidades e religiões não apenas por meio de textos, mas pela satírica linguagem que compreende a charge. As figuras são extremamente políticas, capazes de causar debates entre católicos fervorosos e os que defendem que isso nada mais é que a capacidade de expressar pensamentos. Nas redes sociais, entre as que foram expostas nesses espaços virtuais, uma chamou bastante atenção: Deus tendo relações sexuais com Jesus. Repara-se que não é tão fácil discutir o tema. Será que deveria se estabelecer a fronteira entre o respeito e a arte de se expressar como bem quer?

Entende- se que o respeito é um ingrediente moral da sociedade, mas pense como essa mesma sociedade pode ficar doente caso a imprensa seja sempre amordaçada dessa forma tão vil. Não é questão de dizer que a liberdade de expressão é como um brinquedo que cada um pode brincar quando entender. Nem mesmo nas redações dos grandes jornais, integrantes dos grandes conglomerados da comunicação, um jornalista pode escrever, livremente, criticas a um governador, deputado ou quem quer que seja. Uma série de questões editoriais define o que faz parte ou não do universo crítico de um determinado veículo.

Encontro com as diferenças

Você tem sua crença e está no total direito de não gostar de algo que possa ofendê-la, mas pense que o Charlie representa deixa uma mensagem interessante e até de importância pra que, cada vez mais, possamos aprender a conviver melhor entre sociedade: o jornalismo (incluindo as charges) não é apenas que algo que seja uma singela leitura de fatos e aspectos culturais. O Charlie representa uma corrente que ousa desafiar os limites da normalidade. O desenho pode ou é tão mais impactante que a palavra em si e quando envolve religião deparamos com o aparente desafio ao sacro. Contudo, é saudável refletir que críticas devem ser respondidas com críticas, tendo a inteligência como suporte intelectual, ao invés da vil violência que se alastra como um mal da humanidade.

Talvez alguns tenha suas razões para não ser Charlie, mas, por outro lado, não se pode condenar aqueles que abertamente disseram que são Charlie. Ser Charlie não é se declarar contra religiões ou Deus, mas é, na verdade, uma forma de dizer o quanto amamos a liberdade de expressão. Prezar por ela é abraçar a inteligência de defender que há formas bem mais benéficas do que chegar a uma redação e atirar em nome de uma fé. Vai a sempre tão válida prece por mais discussões saudáveis, que façam do encontro com as diferenças uma oportunidade de desenvolver nossos intelectos. Lembrem-se que nada nem qualquer coisa justifica o derramamento de sangue, traduzido no cruel fim de muitas vidas.

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Geovanni Garcia Ferraz é jornalista

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