Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > RELAÇÕES PÚBLICAS

Eduardo Pinheiro Lobo, um ilustre desconhecido

Por Tiago Eloy Zaidan em 27/01/2015 na edição 835

Apesar de homenageado com uma rua acanhada no bairro do Tabuleiro dos Martins, em Maceió, Eduardo Pinheiro Lobo (1876-1933) é um ilustre desconhecido dos seus conterrâneos alagoanos. Talvez falte, em nome de sua memória, um trabalho de Relações Públicas, ou de Assessoria de Imprensa. O curioso é que estamos falando exatamente do patrono das Relações Públicas no Brasil e o primeiro profissional a exercer este ofício no país. Para se ter ideia, o dia do seu nascimento, 2 de dezembro, é considerado, por Lei Federal, o dia nacional das Relações Públicas.

Eduardo Pinheiro Lobo nasceu em Penedo, mas logo saiu do Estado. Estudou no Rio de Janeiro e fez-se engenheiro na Inglaterra. De volta ao Brasil, foi em São Paulo que se estabeleceu e formou família. Casou-se com Ema Schwob Lobo e teve seis filhos. Ingressou na multinacional canadense Light em 1906, empresa onde faria história.

A Light havia desembarcado no Brasil em 1899, a fim de explorar o segmento de energia e bondes elétricos, conforme lhe fora outorgado pelo então presidente da República Campos Salles (1841-1913). Encontrou uma São Paulo com algo em torno de 238.500 habitantes, pouco mais que a atual população de Arapiraca.

A capital paulista, todavia, passava por transformações sociais importantes. A industrialização e a leva de imigrantes europeus trouxeram ideias “subversivas”, como a de sindicalização e imprensa operária. A conturbar ainda mais a situação da Light, uma crise de abastecimento, a qual afetaria diretamente os negócios da multinacional, se avizinhava. Os níveis dos reservatórios conduziriam a uma crise que chegaria a seu ápice na década de 1920.

Não por acaso, a empresa “importou” dos Estados Unidos uma técnica que vinha sendo aplicada por um certo jornalista, Ivy Lee (1877-1934), e que viria a ser batizada de Relações Públicas e seria a precursora das atuais assessorias de imprensa. Em 1914, há 100 anos, portanto, era instalado o primeiro departamento de Relações Públicas do Brasil, cuja direção foi entregue ao engenheiro alagoano. Hoje, o campo da assessoria representa quiçá a maior área de mercado trabalho para os formandos em Jornalismo e Relações Públicas no país.

Patrono da atividade

Se a estiagem prolongada acarretou uma escassez de energia elétrica, o mesmo não ocorreu com o prestígio da Light. Pelo menos foi o que identificou a pesquisadora Mirtes Torres, em seu mestrado na Universidade Metodista de São Paulo. Alagoana como Eduardo Pinheiro Lobo, Mirtes se dedicou a investigar a atuação do patrono das Relações Públicas no Brasil e tornou-se uma referência acadêmica no assunto. Com este objetivo, a comunicóloga, graduada pela Universidade Federal de Alagoas, garimpou jornais paulistas contemporâneos à crise energética das décadas de 1910 e 1920.

No artigo “Eduardo Pinheiro Lobo: pioneiro das relações públicas no Brasil”, apresentado durante o XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em 2002 na cidade de Salvador, Mirtes faz saber que: “Diversas notícias foram encontradas, informando à população à respeito da crise elétrica e, principalmente, conscientizando-a da redução de energia. De fato, a empresa não foi condenada e o esclarecimento à população resultou em sucesso para a empresa”.

Na ocasião, a imprensa publicou ainda notas educativas sobre o imperativo de se economizar energia e abriu espaço para as justificativas da Light a respeito da crise energética. O trabalho pioneiro de assessoria fez da imprensa uma parceira; e, da natureza – devido a ausência de chuvas – a maior responsável pelo infortúnio com relação ao abastecimento.

O caso tornou-se emblemático e foi especialmente resgatado a partir de 1973, pelo pesquisador do campo da comunicação organizacional e então professor da Universidade de São Paulo Cândido Teobaldo de Souza Andrade (1919-2003).

Eduardo Pinheiro Lobo passaria a mito. Homenageado pela Lei Federal 7.197, de 14 de junho de 1984, tornou-se oficialmente o patrono das Relações Públicas no Brasil. E o dia de seu nascimento, 2 de dezembro, passou a dia nacional da atividade no Brasil. Antes, em 1976, Penedo e Maceió receberam estudiosos de todo o Brasil, por ocasião do IV Congresso Brasileiro das Relações Públicas, marcado por homenagens ao centenário do engenheiro alagoano.

Como todo mito que se preze, Lobo não está imune a controvérsias. Na academia, atualmente, há autores que colocam em xeque o título do alagoano, de “pai das Relações Públicas no Brasil”. É o caso do jornalista capixaba Waldemar Luiz Kunsch, autor de diversos livros e artigos sobre comunicação organizacional.

No artigo “Gênese e desenvolvimento do campo profissional e acadêmico das Relações Públicas no Brasil”, publicado na antologia Relações Públicas: história, teorias e estratégias nas organizações contemporâneas, de Margarida Kunsch, Waldemar questiona se não seria mais apropriado conceder o posto de patrono ao catedrático paulista Teobaldo de Souza Andrade. A ironia é que fora justamente Souza Andrade que sugerira, em 1973, nominar Eduardo Pinheiro Lobo como patrono da atividade no país.

Alheios a esta discussão, os moradores da rua Eduardo Pinheiro Lobo, no subúrbio de Maceió, certamente estão mais preocupados com a falta de segurança na região do logradouro. A comunidade sabe que é mais fácil pressionar o poder público se a demanda repercute nos jornais. O auxílio de um profissional de um Relações Públicas, ou de um assessor de imprensa, poderia ajudar muito.

Leitura recomendada

KUNSCH, Waldemar Luiz. Gênese e desenvolvimento do campo profissional e acadêmico das Relações Públicas no Brasil. In. KUNSCH, Margarida. Relações Públicas: história, teorias e estratégias nas organizações contemporâneas. São Paulo: Saraiva, 2009.

TORRES, Mirtes. Eduardo Pinheiro Lobo: pioneiro das Relações Públicas do Brasil. Anais do XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. São Paulo: Intercom, 2002. [CD-ROM].

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Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas, coautor do livro Mídia, Movimentos Sociais e Direitos Humanos (organizado por Marco Mondaini, Ed. Universitária da UFPE, 2013), professor do curso de Comunicação Social da Faculdade Joaquim Nabuco (Recife, PE) e da Escola Superior de Marketing (Recife, PE)

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