Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & DARWINISMO

O ouro de tolo

Por Enézio E. de Almeida Filho em 27/01/2015 na edição 835

O artigo Transformando ignorância em sabedoria, de Felipe A. P. L. Costa, neste Observatório da Imprensa (ver aqui), é um exemplo da mesmice e das já respondidas frágeis e pífias críticas dos darwinistas à teoria do design inteligente (TDI) – pseudociência, criacionismo disfarçado, e a tese da complexidade irredutível de sistemas biológicos de Behe já foi falsificada, e a louvação exagerada e infundada sobre a robustez epistêmica da teoria da evolução (TE) de Darwin através da seleção natural que nada mais é como o “ouro de tolo” das promessas falsas de alguns alquimistas da Idade Média.

Sem dúvida, a imprensa gosta de polêmicas e bate-bocas – pois aumentam a audiência e ajudam a vender, mas assuntos envolvendo o “criacionismo” (a população brasileira é quase toda criacionista e eles fazem algumas inferências científicas que podem ser falsificadas ou não – a origem do universo e da vida, o dilúvio global ou local, a origem do homem e dos animais, a origem da linguagem) e o “design inteligente” (existem sinais de inteligência na natureza que são empiricamente detectados, tanto que alguns cientistas brasileiros, um deles membro da Academia Brasileira de Ciências, defendem essa posição teórica) não é uma polêmica estéril por várias razões.

Destaco apenas três razões: a nomenklatura científica sabe – Darwin está nu epistemologicamente; há algo de podre na Akademia que censura, silencia, e demoniza seus críticos e oponentes; não querem o debate público e civil sobre a fragorosa falência da teoria de Darwin no contexto de justificação teórica – vem aí uma nova teoria geral da evolução: a Síntese Evolutiva Ampliada/Estendida – não será selecionista e deve incorporar aspectos neolamarckistas, mas será anunciada somente em 2020. Sendo que a ciência abomina o vácuo epistêmico, sob qual referencial teórico estão sendo feitas as pesquisas em biologia evolucionária? Costa deu as costas para tudo isso.

Costa está em descompasso com a verdade sobre o envolvimento da editoria de Ciência da Folha de S.Paulo – seria o melhor exemplo da grande mídia brasileira porque bate insistentemente na mesma tecla: noticiou o I Congresso Brasileiro de Design Inteligente, em Campinas (SP), 14-16 de novembro de 2014 –”Congresso reúne opositores da teoria da evolução; biólogos criticam ‘novo criacionismo’“, de Reinaldo Leite Lopes, 27/10/2014, e publicou o artigo “A caixa-preta do design inteligente“, do colunista Maurício Tuffani, de 21/12/2014. São dois bloggers colaboradores na área científica e, até onde sei, não fazem parte da editoria de Ciência da Folha. Teoria da conspiração, Costa?

Argumentos e contra-argumentos

Novamente Costa está em descompasso com a verdade da literatura científica especializada ao pontificar a inexistência da controvérsia científica entre o darwinismo e o Design Inteligente – leitura objetiva e desapaixonada mostra que essa controvérsia científica aparece em várias publicações e conferências científicas, e ocorre entre os cientistas a boca pequena, desde os anos 1990. São quase 25 anos, Costa! Esses artigos estão a um clique de distância… Google, boy, Google!

Contrariando o afirmado por Costa, nós estamos diante da maior controvérsia científica, e não é ladainha ideológica envolvendo fundamentalistas religiosos e gurus pós-modernos: do lado da TDI são pelo menos mais de 800 cientistas, muitos deles membros de Academia de Ciências, ateus, agnósticos, céticos e teístas – A Scientific Dissent from Darwinism.

As novidades nesse embate científico são, entre muitas – se a teoria da evolução de Darwin através da seleção natural e n mecanismos evolucionários (de A a Z, vai que um falhe…) é capaz de explicar a diversidade e complexidade das coisas vivas e a sua história evolucionária? Qual é a origem da informação genética? O design é uma ilusão ou pode ser empiricamente detectado na natureza? Mutações aleatórias podem gerar a informação genética requerida para estruturas irredutivelmente complexas? O surgimento abrupto de espécies no registro fóssil (explosão cambriana) apoia ou detona a evolução lenta e gradual preconizada por Darwin? A biologia moderna produziu uma “Árvore da Vida”? A evolução convergente apoia o darwinismo ou destrói a lógica por detrás da ancestralidade comum? As diferenças entre os embriões de vertebrados apoiam ou contradizem as predições de ancestralidade comum? O neodarwinismo explica satisfatoriamente a distribuição biogeográfica de muitas espécies? O neodarwinismo fez predições exatas sobre os órgãos vestigiais e o DNA “lixo”? Por que os humanos mostram muitos comportamentos e capacidades cognitivas que, aparentemente, não oferecem nenhuma vantagem de sobrevivência? Esses argumentos e contra-argumentos não foram até hoje respondidos satisfatoriamente pelos darwinistas. Não são cientificamente importantes para o estabelecimento de uma teoria que se propõe explicar a origem das espécies???

Costa ficou amuado porque a Folha não noticiou um evento científico. Uma pergunta – a Universidade Federal de Viçosa, MG, comunicou à editoria de ciência da Folha sobre o II Simpósio Internacional de Ecologia e Evolução (II EcoEvol. Não? Então a Folha não podia noticiar o simpósio. A menos que agora a telepatia sobre realização de eventos seja um fenômeno científico. Pereça tal pensamento. Nenhum aparente desprezo, muito menos surto de provincianismo: foi culpa dos organizadores.

Costa suspeita que essas situações refletem o verdadeiro apetite da imprensa atual. Jus sperniandi sem fundamentação evidencial. Todavia, concordo parcialmente com ele sobre as matérias “polêmicas” serem publicadas porque provocam furor nos leitores, e produzem retorno econômico garantido, mas não as chamaria de falsamente polêmicas. Geralmente o lado que leva chumbo grosso nas polêmicas é o que vem cheio de mimimi…

A demonização da teoria do Design Inteligente

Costa usa termos não acolhidos na nomenclatura de artigos científicos para falar mal da TDI. O termo acolhido é design inteligente, mas ele prefere os mais pejorativos e demonizantes como desenho inteligente ou projeto inteligente. Como cientista, ele deveria saber ser isso esperado de quem escreve sobre quaisquer temas. Mesmo daqueles dos quais somos ideologicamente adversários.

Além disso, ele revela profunda ignorância histórica ao afirmar que a TDI não é propriamente uma corrente científica, mesmo tendo proponentes cientistas. A questão do design na natureza vem sendo discutida desde os filósofos gregos antigos, tentando dar respostas a favor e contra. A TDI não é “uma vertente pseudocientífica do criacionismo”, pois o criacionismo está comprometido com as seguintes proposições derivadas de textos sagrados:

1. Houve uma súbita criação do universo, da energia e da vida ex-nihilo.

2. As mutações e a seleção natural são insuficientes para realizar o desenvolvimento de todos os tipos de vida a partir de um único organismo.

3. Mudanças dos tipos de animais e plantas originalmente criados ocorrem somente dentro de limites fixados.

4. Há uma linhagem ancestral separada para humanos e primatas.

5. A geologia pode ser explicada pelo catastrofismo, principalmente pela ocorrência de um dilúvio mundial.

6. A Terra e os tipos de vida são relativamente recentes (na ordem de milhares ou dezenas de milhares de anos).

Enquanto que a TDI está comprometida com as seguintes proposições derivadas da natureza:

1. A complexidade especificada e a complexidade irredutível são indicadores ou marcas seguras de design inteligente.

2. Os sistemas biológicos exibem complexidade especificada e empregam subsistemas de complexidade irredutível.

3. Os mecanismos naturalistas ou causas não-dirigidas são insuficientes para explicar a origem da complexidade especificada ou da complexidade irredutível.

Costa, apesar de ter mencionado renomados críticos como Sober e outros, mais uma vez é encontrado em descompasso com a verdade sobre o caráter científico da TDI – ela é uma doutrina atribuindo tudo-o-que-existe (sic) como sendo criado por meio da ação direta de algum agente externo, o Criador – comumente identificado com o Deus cristão. De onde ele tirou isso sobre a TDI? Desprovido de evidência na literatura da TDI, ele apelou para grandes autoridades – argumentum ad baculum. Nós fomos, não aos livros sagrados, mas à natureza, fizemos perguntas a ela e tentamos responder. Bem à la Hume…

Não vou discutir a característica comum das diversas vertentes do criacionismo como antagonismo entre uma interpretação literal da Bíblia e o conhecimento científico, especialmente no caso das teorias históricas da natureza, e que isso seja devido ao fato de os criacionistas tomarem as descrições bíblicas como narrativas históricas exatas, e não como alegóricas, e que nessas circunstâncias o conflito é inevitável em ataques aos modelos do Big Bang [um modelo científico inicial e fortemente rejeitado pela comunidade científica por causa de suas conotações criacionistas…], da deriva continental e da teoria da evolução por seleção natural. Desconheço na literatura criacionista quem ataque a deriva continental, e seus questionamentos sobre o Big Bang e a teoria da evolução por seleção natural e n mecanismos evolucionários são embasados na literatura científica questionando alguns aspectos dessas teorias. Costa virou as costas para esse questionamento científico apropriado pelos criacionistas…

Concordo com Costa – a ciência é um construto e empreendimento social, com trabalho e a participação de gente espalhada pelo mundo afora, e que a predominância ocasional de determinada teoria, hipótese ou ponto de vista científico não é decidido democraticamente. No entrechoque de opiniões, as que sobressaem e perduram por mais tempo tendem ser aquelas que melhor se ajustam às observações, às evidências. Não cabe mesmo reivindicar espaço e atenção para ideias e modelos apenas e tão somente porque eles são defendidos por grupos majoritários ou minoritários.

Não um guru sectário – Behe é um grande cientista!

Concordo com Costa sobre uma teoria, modelo, hipótese, ideia ganhar espaço depender de alguma sustentação empírica para ser levada em conta por outros estudiosos. Mas, por que existem hoje vários modelos e hipóteses científicas acolhidas pela comunidade científica sem corroboração empírica ou baseadas em evidências circunstanciais e frágeis – ancestralidade comum, buracos negros, energia escura, multiversos y otras cositas mais que passam como sendo científicas sem esse respaldo empírico?

Não é o caso da TDI – ela segue os parâmetros do método científico. O método científico é geralmente descrito como um processo de quatro etapas envolvendo observações, hipóteses, experimentos, e conclusão:

Observação: agentes inteligentes produzem informação complexa e especificada (ICE).

Hipótese: se um objeto natural for intencionalmente planejado, ele conterá altos níveis de ICE.

Testes experimentais: os objetos naturais são testados para determinar se eles contêm informação complexa e especificada – engenharia reversa de estruturas biológicas através de experimentos de silenciamento para determinar se elas exigem todas as suas partes para funcionar.

Conclusão: sendo descoberta complexidade irredutível em uma estrutura biológica, os cientistas concluem que ela foi intencionalmente planejada.

E ainda assim a TDI é pseudociência? Criacionismo disfarçado em um smoking barato???

Quando eu cheguei nessa parte quase parei de ler o artigo de Costa. Razão? Ele se igualou à galera dos Meninos e Meninas de Darwin, o que não combina muito bem com o esperado de um cientista, pois deu as costas ao que é ser cientista e colegial para com um dos seus pares, chamando-o de guru. Michael J. Behe é comumente citado por nós porque é um dos teóricos da TDI mais conhecido e respeitado, autor dos best-sellers A caixa preta de Darwin e The Edge of Evolution. A fama que ele granjeou foi devido à sua tese de complexidade irredutível de sistemas biológicos.

Apesar de ter sido “pronta e duramente criticada pelos seus colegas da comunidade científica” (e.g., CAVALIER-SMITH 1997), Costa mais uma vez é encontrado em descompasso com a verdade da História da Ciência: até hoje ninguém conseguiu derrubar a tese de Behe. E pior, ao tentarem falsificar a complexidade irredutível dos sistemas biológicos, a comunidade científica está atestando a cientificidade da TDI. Segundo Popper, uma teoria é científica quando é submetida a testes… Sinuca de bico dos darwinistas: se falsifica, tchau TDI, se não falsifica, Darwin kaput!

A tese da complexidade irredutível

Costa seguiu a ladainha darwinista fundamentalista xiita sobre a tese de “complexidade irredutível” de Behe de “máquinas moleculares” dos seres vivos exibirem um padrão de organização do tipo “tudo ou nada”, onde a falta de uma única peça tornaria toda a estrutura disfuncional: o flagelo bacteriano e o cílio, e certas rotas bioquímicas, como a cascata de reações na coagulação do sangue humano, e que isso representaria um desafio à teoria evolutiva, pois seu desenvolvimento não poderia ser explicado através do processo de evolução darwiniana, e que só restaria deduzir outro fator, que não a evolução por seleção natural, estaria operando: a ação direta de um Criador!

Muito conveniente acusação! Costa não abordou o problema que um sistema de complexidade irredutível traz para a evolução: ele exige muitas partes, e assim, muitas mutações teriam que estar presentes, de uma só vez, antes de fornecer qualquer vantagem de sobrevivência ao organismo. Ou tudo ou nada! Senão, kaput flagelo bacteriano.

Costa não ouviu o que outros biólogos fora da comunidade da TDI disseram sobre a elegância e intrínseca beleza desse motor: “Desde que o flagelo é tão bem planejado e maravilhosamente construído por um caminho ordenado de montagem, até eu, que não sou criacionista, tenho uma sensação imponente de sua beleza “divina” (AIZAWA, 2009).

Costa levantou a questão de que nas últimas décadas a tese da complexidade irredutível de Behe foi duramente criticada e falsificada (CAVALIER-SMITH 1997; JIANG & DOOLITTLE 2004, e FREEMAN & HERRON 2009), mas deixou de mencionar a revisão da definição de complexidade irredutível feita por Behe: “Primeiro, minha definição exige que alguém considere “um único sistema”… um único sistema que é necessariamente composto de diversas partes bem encaixadas e interatuantes que contribuem para a função básica, onde a remoção de qualquer uma das partes faz com que o sistema cesse de funcionar eficazmente” (BEHE, 2001, p. 692 e 694).

Assim, a afirmação de que tais cientistas refutaram a tese de complexidade irredutível de Behe no flagelo bacteriano é infundada, embora haja subcomponentes do flagelo que são dispensáveis para a montagem e mobilidade, existem diversos subsistemas dentro do flagelo que exigem múltiplas mutações coordenadas. O motor flagelar não é o tipo de estrutura que alguém possa absolutamente vislumbrar possa ser produzido de modo lento e gradual darwinista:

“Uma mutação, uma parte removida, ele não pode nadar. Ponha de volta aquele gene e nós restauramos a mobilidade. A mesma coisa aqui. Nós colocamos, removemos uma parte, colocamos de volta uma boa cópia do gene, e eles podem nadar. Por definição, o sistema é irredutivelmente complexo. Nós fizemos isso com todos os 35 componentes do flagelo, e nós obtivemos o mesmo efeito” (MINNICH, 2005). Experiências feitas no flagelo bacteriano em E. coli S. typhimurium.

Opiniões “revolucionárias”

Outras pesquisas experimentais identificaram mais de 30 proteínas necessárias para formar o flagelo. Vide Table 1. in Robert M. Macnab, “Flagella,” in Escheria Coli and Salmonella Typhimurium: Cellular and Molecular Biology Vol 1, pp. 73-74, Frederick C. Neidhart, John L. Ingraham, K. Brooks Low, Boris Magasanik, Moselio Schaechter, and H. Edwin Umbarger, eds., Washington D.C.: American Society for Microbiology, 1987.

Qual é o status do conhecimento científico sobre a origem e evolução do flagelo bacteriano? Costa deveria saber, mas “… a comunidade de pesquisa do flagelo mal começou a considerar como que esses sistemas evoluíram”. (PALLEN e MATZKE, 2006).

Ao contrário do afirmado por Costa, a publicação de resultados contradizendo as ideias de Behe têm tido e recebido a devida atenção replicando-as, de modo elegante até para quem o chamou de “bioquímico cego” (Thomas Cavalier-Smith), e não continua repetindo as mesmas coisas quando divulgou sua tese de complexidade irredutível. Costa sonegou dos leitores a honestidade de Cavalier-Smith sobre a lebre levantada por Behe:

“Para nenhum dos casos mencionados por Behe existe uma completa e detalhada explicação dos prováveis passos na evolução da complexidade observada. Os problemas, na verdade, têm sido extremamente negligenciados – embora Behe exagere repetidamente essa negligência com tais hipérboles como ‘um completo e assustador silêncio” (CAVALIER-SMITH 1997).

Assim, não é falsa impressão, mas as opiniões “revolucionárias” de Behe no seu livro A caixa preta de Darwin ainda estão de pé, desafiando e demonstrando a pobreza epistemológica do Darwinismo em explicar a história evolucionária de uma “simples” bactéria.

“Adaptações complexas”: um antigo desafio e muitas notas promissórias darwinistas impagáveis

A Jorge Zahar, editora responsável pela versão brasileira do livro, foi a grande responsável em divulgar no Brasil que as críticas à robustez da teoria da evolução não se dão apenas entre os religiosos fanáticos, mas entre cientistas competentes. A motivação não foi meramente econômica, mas de divulgação científica – o livro de Behe apareceu na Coleção Ciência e Cultura.

Em 2007, Behe fez um levantamento das publicações científicas, e constatou que não houve nenhum avanço sério numa explicação darwinista para o cílio ultra complexo. Isso apesar do avanço da biologia molecular e do sequenciamento completo de centenas de genomas e outros avanços do conhecimento científico. Behe, ao escrever seu livro, aceitou o desafio de Darwin:

“Se pudesse ser demonstrada a existência de qualquer órgão complexo que não poderia ter sido formado por numerosas, sucessivas e ligeiras modificações, minha teoria desmoronaria por completo” (DARWIN, 1872).

Mais de uma década se passou, e as explicações darwinistas sobre a evolução do cílio continuam de mãos vazias (BEHE, 2007).

Costa dá a receita para os outros, mas ele mesmo e muitos darwinistas não gostam de ver suas ideias transmutacionistas sendo contestadas publicamente, como ficou explícito no seu artigo dogmático e sectário. Realmente, isso não combina com um cientista. Relembrou muito bem que no âmbito científico, quando as nossas ideias não se ajustam adequadamente ao que as evidências dizem, devemos corrigi-las e/ou substituí-las. Tampar os ouvidos ou virar as costas para as evidências não nos levará ao conhecimento da verdade científica.

Quase duas décadas é bastante tempo para falsificar a montagem do flagelo bacteriano. Em vez disso, o que vemos em pesquisas de alta resolução confirmam a tese de complexidade irredutível de Behe. Não somente isso, essas pesquisas estão provocando outras pesquisas de montagem de outras máquinas moleculares. E o que isso representa para a TDI? É a medida de robustez de uma teoria científica quando dados crescentes fortalecem suas premissas ao longo do tempo, e motiva mais pesquisas. A TDI é uma teoria científica.

Costa tenta minimizar o estrago feito na casa de máquinas do HMS Darwinic, dizendo que apenas a terminologia e a natureza dos exemplos utilizados, a tese central do livro de Behe nada trouxe de novo. Costa demonstra profunda ignorância sobre o que a tese da complexidade irredutível representa para o estabelecimento do processo evolucionário gradualista darwinista no contexto de justificação teórica. Vamos lá, Complexidade Irredutível 101:

“Sistemas complexos irredutíveis como as ratoeiras e flagelos servem de argumentos negativos contra as explicações gradualistas de Darwin, e de argumentos positivos a favor do design. O argumento negativo é que tais sistemas interativos resistem à explicação através de pequenos passos que se espera ocorrer de um processo darwinista. Muitas mutações simultâneas são exigidas – um evento altamente improvável de ocorrer. O argumento positivo é que suas peças parecem dispostas para servir a um propósito, maneira pela qual detectamos o design na natureza” (BEHE, 1996, p. 263-264).

Costa não ouviu ou desconhece o lado dos darwinistas sobre esta questão. Um artigo por Michael Lynch, eminente biólogo evolucionista no PNAS – Proceedings of the National Academy of Science, reconhece que “o surgimento simultâneo de todos os componentes de um sistema é implausível”. (LYNCH, 2012). Até mesmo Jerry Coyne, biólogo evolucionista da Universidade Chicago, um eloquente defensor do Darwinismo, oponente e crítico ferrenho da TDI, admite que a “seleção natural não pode construir qualquer característica na qual passos intermediários não confiram um benefício completo no organismo”. (COYNE, 2007).

“Desafios insuperáveis”

O exemplo mais famoso de Behe é o flagelo bacteriano – uma máquina micromolecular de rotação, que funciona como um motor de popa na bactéria para conduzi-la através do meio líquido para que encontre alimento. Nesse sentido, o flagelo tem um design básico altamente similar a alguns motores feitos pelos humanos contendo muitas partes que são familiares aos engenheiros, como um rotor, um estator, uma junta universal, uma hélice, um freio, e uma embreagem. David J. DeRosier, biólogo molecular descreveu assim na publicação científica Cell, “mais do que outros motores, o flagelo se parece com uma máquina intencionalmente planejada por um humano”. Ele foi mais além ao destacar a eficiência energética dessas máquinas: elas superam quaisquer máquinas produzidas pelos humanos: “poderia ser de ~100%” (DeROSIER, 1998).

Existem vários tipos de flagelos, mas todos usam certos componentes básicos. Um artigo publicado no Nature Reviews Microbiology reconhece que “todos os flagelos (bacterianos) compartilham de um conjunto essencial conservado de proteínas”, pois “três aparatos moleculares modulares estão no âmago do flagelo bacteriano: o rotor-estator que energiza a rotação flagelar, o aparato de quimiotaxia que medeia mudanças na direção de movimento, e o T3SS que medeia a exportação de componentes axiais do flagelo”. (PALLEN e MATZKE, 2006) Costa, isso não sugere que o flagelo bacteriano seja irredutivelmente complexo? O flagelo bacteriano é apenas um exemplo de milhares de máquinas moleculares conhecidas em biologia. Só em fermento, uma pesquisa relatou a descoberta de mais de 250 novas máquinas moleculares (GAVIN et al 2006).

O ex-presidente da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, Bruce Alberts, escreveu um artigo na Cell louvando a “velocidade”, a “elegância”, a “sofisticação”, e a “atividade altamente organizada” dessas máquinas moleculares “impressionantes” e “maravilhosas”. Ele explicou o que inspirou essas palavras – “Por que nós chamamos os grandes grupos de proteínas que estão por detrás da função celular de máquinas de proteínas? Exatamente porque, como máquinas inventadas por humanos para lidar eficientemente com o mundo macroscópico, esses grupos de proteínas contêm partes de movimentação altamente coordenadas” (ALBERTS, 1998).

Costa, em nenhum lugar dos escritos de Behe e dos teóricos do DI, é afirmado que ele foi o primeiro estudioso a usar a questão da complexidade como um tipo de desafio à teoria da evolução por seleção natural: já ocorre desde o século 19. Sendo o exemplo clássico o de Charles Darwin (1809-1882), sobre a evolução do olho humano, na sua obra A origem das espécies (1859). Darwin considerou se as funções complexas do olho em ajustar o foco para distâncias diferentes, a admissão de diferentes quantidades de luz, a correção da aberração esférica e cromática poderiam ter sido formadas pela seleção natural. Ele confessou: “é absurdo no mais alto grau”… “Mas, a razão me diz que, se diversas gradações de um olho perfeito e complexa para um muito imperfeito e simples, cada gradação sendo útil ao seu possuidor, podem ser demonstrada como existente; se ainda mais, o olho variar mesmo que muito levemente, e as variações sejam herdadas, que certamente é o caso; e se qualquer variação ou modificação em um órgão for útil para um animal sob condições de vida cambiantes, então a dificuldade em crer que um olho perfeito e complexo pudesse ser formado pela seleção natural, embora insuperável à nossa imaginação, dificilmente pode ser considerada real” (ênfases adicionadas). A evolução da visão é um problema ainda não resolvido na comunidade científica.

Destaco que mesmo o entendimento dos vários exemplos levantados pelos críticos (morfológicos, fisiológicos, comportamentais), apesar de uma série de hipóteses explicativas, ainda são “desafios insuperáveis” para o darwinismo, especialmente o olho humano e outras adaptações HILDEBRAND & GOSLOW (2006) (morfologia), SCHMIDT-NIELSEN (2002) (fisiologia) e CRONIN (1995) (comportamento) estão muito bem respondidos pelo livro Darwin’s Doubt: The Explosive Origin of Animal Life and the Case for Intelligent Design, (MEYER, 2013).

Coda parcial [Cauda, conclusão]

Costa, que eu saiba, é biólogo, mas ousou navegar por mares nunca dantes navegados: o da sociologia e da política. Sua explicação para a sobrevivência de certos (quais seriam os demais???) movimentos pseudocientíficos está ligada, entre outras coisas, a questões sociais e políticas. Pisando em ovos, Costa afirmou que nos Estados Unidos, o sucesso do criacionismo parece estar intimamente associado a determinadas ideologias segregacionistas. Quanto mais racista, mais defensor de movimentos pseudocientíficos. E o Brasil não está isento disso, não pelo racismo, mas pela acelerada proliferação de ideias grosseiras a respeito do mundo natural teria muito a ver também com a nossa fragilidade cultural. Traduzindo em graúdos sociológicos: somos um povo burro e frágil.

Não sei de onde Costa concluiu sobre a cultura brasileira ter transformado problemas de aprendizagem em atributos genéticos, e nem qual ideologia dominante transforma o erro, em acerto; a feiura, em beleza; a ignorância, em sabedoria. Longe de Costa ter demonstrado que a TDI é pseudociência, criacionismo disfarçado em um smoking barato, e que a tese da complexidade irredutível de Behe foi falsificada, o que vimos aqui replicado é que se Darwin não é capaz de explicar a origem e evolução de uma “simples” bactéria, como teria robustez epistêmica para explicar a história evolucionária de toda a complexidade e diversidade de vida?

É nisso que consiste o “ouro de tolo” – parece, mas não é! A transmutação de uma espécie em outra através da seleção natural e n mecanismos evolucionários é o ouro de tolo da Igreja de Darwin dos Evolucionistas dos Últimos Dias! Evidências frágeis, circunstanciais e muitas vezes contraditórias.

Pano rápido! Que venha a nova teoria geral da evolução – a Síntese Evolutiva Ampliada/Estendida…

Referências citadas

AIZAWA, S. I. (2009). “What is Essential for Flagellar Assembly?” in K. Jarrell (Ed.), Pili and Flagella: Current Research and Future Trends (p. 91). Caister Academic Press.

ALBERTS, Bruce, “The Cell as a Collection of Protein Machines: Preparing the Next Generation of Molecular Biologists”, Cell, 92:291, 6 de fevereiro de 1998.

BEHE, M. J. A caixa preta de Darwin. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.

_____. Reply to My Critics: A Response to Reviews of Darwin’s Black Box: The Biochemical Challenge to Evolution. Biology and Philosophy 16: 685–709, 2001.

_____. The Edge of Evolution. Nova York, Free Press, 2007.

CAVALIER-SMITH, T. The blind biochemist. Trends in Ecology and Evolution 12: 182-3, 1997.

COYNE, Jerry. “The Great Mutator”, resenha do The Edge of Evolution, de Michael J. Behe, The New Republic, p. 38-44, 39, 18 de junho de 2007.

DARWIN, Charles. Origin of Species. 6a. ed. 1988. Nova York, New York University Press, p. 154.

DeROSIER, David J., “The turn of the screw: The bacterial flagellar motor”, Cell, 93: 17-20 (1998).

FREEMAN, S. & HERRON, J. C. 2009. Análise evolutiva, 4ª edição. Porto Alegre, Artmed.

GAVIN, Anne-Claude et al. Proteome survey reveals modularity of the yeast cell machinery, Nature 440, 631-636, 30 de março de 2006.

http://www.nature.com/nature/journal/v440/n7084/pdf/nature04532.pdf

HILDEBRAND, M. & GOSLOW, G. 2006. Análise da estrutura dos vertebrados, 2ª ed. São Paulo, Atheneu.

JIANG, Y. & DOOLITTLE, R. F. 2004. “The evolution of vertebrate blood coagulation as viewed from a comparison of puffer fish and sea squirt genomes”. Proceedings of the National Academy of Sciences 100: 7527-32.

LYNCH, Michael, “Evolutionary layering and the limits to cellular Mediocrity,” Proceedings of the National Academy of Sciences,

www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1216130109(2012).

MEYER, Stephen. Darwin’s Doubt: The Explosive Origin of Animal Life and the Case for Intelligent Design, Nova York, Harper One, 2013.

MINNICH, Scott. Transcript of Testimony of Scott Minnich, pp. 103-112, Kitzmiller et al. v. Dover Area School Board, No. 4:04-CV-2688 (M.D. Pa., Nov. 3, 2005).

PALLEN, Mark J. e MATZKE, Nicholas J., “From The Origin of Species to the Origin of Bacterial Flagella,” Nature Reviews Microbiology, Vol. 4:788 (2006).

SCHMIDT-NIELSEN, K. 2002. Fisiologia animal, 5ª edição. São Paulo, Santos.

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Enézio E. de Almeida Filho é professor e pesquisador em História da Ciência

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