Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > ELEIÇÃO NA GRÉCIA

Por que o Brasil abraça a austeridade enquanto a Europa dela se afasta?

Por Rennan Martins em 27/01/2015 na edição 835

Da Grécia sopram os renovadores ventos do Syriza, que elegeu o maior número de cadeiras do parlamento e deve indicar Alexis Tsipras para o cargo de primeiro-ministro. Tendo como principal bandeira o repúdio as “reformas” e a austeridade, os gregos têm agora a oportunidade de trilhar um novo caminho e provar que economia não é somente fazer sacrifícios ao Mercado e esperar a mão invisível agir.

A própria Europa lentamente se afasta do receituário neoliberal, a despeito das objeções de Berlim e sua dura mandatária, Angela Merkel. O Banco Central Europeu anunciou que a partir deste mês de março até setembro de 2016 injetará no mercado 60 bilhões de euros mensais por meio da compra de dívidas públicas e privadas, principalmente dos bancos, pivôs da quebradeira de 2008.

Caminhando no sentido oposto estamos nós, Brasil. Capitaneados pelo garoto de Chicago Joaquim Levy, tiveram início os cortes de gasto público, aumento de juros e impostos e “flexibilização” de direitos trabalhistas. Enquanto a presidenta estava prestigiando a posse do colega Evo Morales na Bolívia, nosso superministro dizia a plutocracia que o modelo de seguro-desemprego brasileiro está “completamente ultrapassado”.

Os observadores mais atentos notaram este movimento aparentemente contraditório, onde o velho continente ensaia políticas expansionistas tentando incentivar a produção, emprego e renda, enquanto por aqui abraçamos a cartilha das reformas liberalizantes. Ora, se na imprensa nos ditam que a economia é a ciência do inexorável, que cabe ao cidadão somente aceitar os desígnios dos oráculos, como entender este giro?

Há pouco mais de cinco meses, redigi um artigo intitulado “A aparente contradição do setor financeiro” onde, pela análise de trechos do Financial Times e Valor Econômico daqueles dias, já se notava que o onisciente Mercado exigia ajuste e arrocho para o Sul Global e expansionismo aos desenvolvidos. À época, conferimos os dados da dívida pública em relação ao PIB destes países, pois nos ensinam que o critério do quanto pode dispor um Estado é diretamente ligado à sua situação fiscal, ou seja, quanto, proporcionalmente, de tudo que se produz em um ano num país, equivale a seu endividamento.

“O povo que se lixe”

O portal Trading Economics oferece uma didática tabela onde podemos comparar este quesito entre várias nações ao redor do planeta. Olhemos então a situação do Brasil em comparação a alguns europeus, exemplos de países sensatos quando o assunto é economia, segundo a imprensa hegemônica.

Em dezembro de 2013, a relação dívida/PIB brasileira era de 56,8%. Na França temos 92,2%. Alemanha? 76,9%, a Itália deve 132,6% de tudo que produz, enquanto a Grécia está na impressionante cifra de 174,9%. Ora, conforme as aulas de senhores como o global Sardenberg, a macroeconomia funciona como as finanças familiares ou pessoais. O que faz uma pessoa ou família quando se endivida? Um ajuste, corta aqui e ali para sobrar receita que cubra a dívida contraída. Diante disso, pergunto: quem é o mais indicado para um ajuste segundo os números expostos? Por que os europeus não conseguiram pagar suas dívidas e retomar o crescimento depois de tantos anos ajustando?

A macroeconomia não é equivalente as finanças pessoais nem familiares, essa comparação é somente um artifício que ajuda a enfiar goela abaixo do cidadão o arrocho. Quando o Estado, principal agente econômico de um país, faz cortes, a demanda interna cai, este declínio é notado pelo empresariado que também segura o investimento, afinal, porque produzir se há recessão? Ninguém se propõe a investir quando a demanda correspondente, que dará o retorno financeiro, é incerta.

A Europa tenta, com as medidas expansionistas, aquecer o mercado por meio do aumento da demanda, que incentivará a produção e também o pagamento de impostos, que poderão por sua vez sanear a considerável dívida que possuem. Porém, neste quadro há um ardil do capital financeiro, demais habituado a especular, a lucrar com atividades que em nada contribuem para a mesa e o bem-estar da sociedade.

O dinheiro público que a partir de março pagará as contas privadas dos bancos encontrará fértil terreno nos países que seguem a cartilha da “confiança” no mercado. Aqui no Brasil o capital estrangeiro vê um país de altíssimas taxas de juros liderado por um ministro da Fazenda dedicado a fazer todas as vontades da plutocracia.

Temos então que o dinheiro da expansão europeia aqui aplicado, numa generosa Selic de 12,25%, renderá gordos dividendos aos banqueiros. Notaram o movimento? O BCE cede ao capital financeiro os recursos do afrouxo quantitativo, este é deslocado para locais onde o rentismo é bem remunerado, como no Brasil ou na Rússia, os bancos então enchem a burra sem nada produzir. Neste ínterim, fiquemos com a nova regra econômica que o professor Belluzzo sabiamente denunciou: “O povo que se lixe.”

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Rennan Martins | Via Desenvolvimentistas

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