Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > CRIACIONISMO & EVOLUCIONISMO

Defendendo o indefensável

Por Fabiano Menegidio e Victor Rossetti em 03/02/2015 na edição 836

O artigo “O ouro de tolo“, de Enézio E. de Almeida Filho, apresentado na edição 835 em resposta ao artigo “Transformando ignorância em sabedoria“, de Felipe A. P. L Costa, é um exemplo de uma defesa vazia e total subversão de alguns fatos para se validar uma cosmovisão não científica. Para Enézio, o texto de Costa demoniza o design inteligente por utilizar “termos pejorativos e demonizantes” – como desenho inteligente ou projeto inteligente – para tratar do design inteligente. Segundo Filho, o artigo citado estaria utilizando “termos não acolhidos na nomenclatura de artigos científicos para falar mal da TDI”.

Com essa afirmação, Enézio demonstra desconhecer a literatura básica vendida durante os eventos do movimento do design inteligente, como no antigo Simpósio Darwinismo Hoje promovido e realizado no Mackenzie. Um exemplo é o livro Como derrotar o evolucionismo com mentes abertas, de Phillip E. Johnson, o fundador do movimento do design inteligente, que apresenta o título de “Projeto Inteligente” para seu quinto capítulo, aonde exibe uma divulgação do histórico do movimento e sua caracterização para o público em geral. O livro citado é editado em sua versão nacional pela Editora Cultura Cristã (nome fantasia), ou Casa Editora Presbiteriana, que é a editora oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil. No seu conselho editorial consta Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie durante o período de realização de todos os Simpósios Darwinismo Hoje. O livro foi amplamente divulgado na última edição do evento e ofertado aos seus participantes.

Da mesma forma que Phillip Johnson, Michael Behe nomeia os capítulos 9 e 10 de seu livro A caixa preta de Darwin como “Planejamento Inteligente” e “Objeções a um Planejamento Inteligente”, respectivamente. Logo, apresentar a utilização de nomenclaturas diferentes de design inteligente para se referenciar ao mesmo como demonização do movimento é de uma ignorância extrema, pois demonstra uma falta de conhecimento de termos já utilizados nas traduções nacionais dos principais livros sobre o tema.

Prosseguindo com sua defesa da existência de controvérsia cientifica, Enézio resolve apresentar como evidência o famoso documento “A Scientific Dissent from Darwinism“, que, segundo ele, é composto por 800 cientistas que estariam do lado do DI.

Só que Filho omite o fato do documento não fazer nenhuma referência ao DI. Seus signatários apenas concordam com a frase: “We are skeptical of claims for the ability of random mutation and natural selection to account for the complexity of life. Careful examination of the evidence for Darwinian theory should be encouraged.” Essa estratégia de utilizar todos os signatários como se fossem defensores do design inteligente vai contra o próprio site que Enézio cita, pois sua FAQ deixa explicito na questão 5 que: “[…] os cientistas estão simplesmente concordando com a afirmação como está escrito. A assinatura da declaração não indica concordância ou discordância com qualquer outra teoria científica”.

A Estratégia da Cunha

Concordar com a frase proposta não torna os signatários negacionistas da Teoria Sintética da Evolução. Cientistas como Motoo Kimura, Lynn Margulis, Stephen Jay Gould e Eva Jablonka são grandes exemplos de cientistas que buscaram novos mecanismos para explicar eventos específicos da Evolução Biológica, e não se tornaram negacionistas como Enézio tenta demonstrar ao usar o documento A Scientific Dissent from Darwinism de forma falaciosa.

Jablonka em sua obra “Evolução em quatro dimensões” trabalha com certos aspectos biológicos e moleculares relacionados a dirigibilidade e que devem ser reconsiderados na Síntese Expandida, que Enézio apresenta como algo negativo a Teoria Sintética da Evolução. Para ele “A proposta de Jablonka e Lamb de incorporar aspectos teóricos lamarckistas me parece mais uma tentativa de teoria ad hoc para livrar a cara de Darwin” deixando isso claro em seu texto “Evolução em quatro dimensões: por que se faz necessária uma reforma teórica em Biologia evolutiva?”. O que Enézio não nota é que a Síntese Expandida é uma atualização da Teoria Sintética da Evolução, com maior peso experimental, empírico e acadêmico. Ela se firma respeitando os limites epistemológicos do método científico, as suas demarcações, coisa que os proponentes do Design Inteligente tomam como algo limitante. Para ele, a atualização, a descoberta e a inserção de diversos novos mecanismos evolutivos não significa uma melhoria do paradigma científico vigente; contraditoriamente, significa uma fraqueza. Isso ocorre incluindo a epigenética, que para Enézio não é um mecanismo evolutivo.

Ainda sobre a pseudo-controvérsia, Enézio cita que a mesma ocorre há quase 25 anos e que Costa está em descompasso com a verdade da literatura científica especializada ao pontificar a inexistência da controvérsia científica entre o darwinismo e o design inteligente. O interessante é que o autor não apresenta sequer uma literatura como referência, mesmo citando que existem várias publicações e conferências científicas.

Enézio diz que Felipe Costa apresenta uma profunda ignorância histórica ao afirmar que o design inteligente não é propriamente uma corrente cientifica, mesmo tendo proponentes cientistas. Da mesma forma, Filho ignora toda a história do movimento do design inteligente quando tenta o separar de seu ancestral, o criacionismo científico. No livro Como derrotar o evolucionismo com mentes abertas, Johnson deixa extremamente clara a correlação de ambos os movimentos e se apresenta como negacionista da ancestralidade comum e um crítico dos métodos de datação que evidenciam uma Terra antiga. Esses mesmos dados são apresentados em seus outros livros: Darwin on Trial, Reason in the Balance: The Case Against Naturalism in Science, Law and Education e The Wedge of Truth: Splitting the Foundations of Naturalism. Nesse mesmo livro, Johnson descreve em detalhes a Estratégia da Cunha e demonstra sua ligação histórica com o movimento do design inteligente, além de apresentar como objetivo dessa proposta a afirmação da “realidade de Deus, desafiando a dominação do materialismo e do naturalismo no mundo da mente”.

Complexidade irredutível e complexidade especificada

Enézio enumera alguns pontos que separam o Criacionismo do Design Inteligente, que incluem: 1. Houve uma súbita criação do universo, da energia e da vida ex-nihilo; 2. As mutações e a seleção natural são insuficientes para realizar o desenvolvimento de todos os tipos de vida a partir de um único organismo; 3. Mudanças dos tipos de animais e plantas originalmente criados ocorrem somente dentro de limites fixados; 4. Há uma linhagem ancestral separada para humanos e primatas; 5. A geologia pode ser explicada pelo catastrofismo, principalmente pela ocorrência de um dilúvio mundial; 6. A Terra e os tipos de vida são relativamente recentes (na ordem de milhares ou dezenas de milhares de anos).

Todos esses pontos apresentados são defendidos por conhecidos proponentes do design inteligente brasileiro, como Marcos Eberlin [1, 2] e Adauto Lourenço [1, 2] que apresentam o dilúvio bíblico global como um fato científico, além de serem negacionistas da ancestralidade comum e do tempo geológico. Nos vídeos dos proponentes citados podemos observar uma tentativa de amálgama de conceitos científicos com conceitos teológicos, abusando de explicações ad hoc e reinterpretações de fatos científicos, como a deriva continental. Baseado na classificação de Enézio Almeida, poderíamos incluir esses proponentes como criacionistas da Terra jovem e simples negacionistas da teoria evolutiva. De fato, é comum ver ambos os segmentos propagandeando uns aos outros.

Durante o término de seu artigo, Enézio apresenta uma defesa apaixonada aos principais conceitos que validariam a existência de um design inteligente.

Um dos conceitos é a complexidade especificada apresentada por Dembski, que afirma que se um objeto natural for intencionalmente planejado, ele conterá altos níveis de ICE. Segundo Dembski, é possível se conhecer esse valor de ICE através da contagem dos bits utilizados na criação do determinado objeto. No ano de 2003, os teóricos da informação Wesley Elsberry e Jeffrey Shallit apresentaram 8 desafios no site do National Center for Science Education (NCSE) com relação a Complexidade Especificada de Dembski. Entre esses desafios está o pedido para Dembski demonstrar de forma simples e transparente o cálculo de ICE de um objeto conhecidamente criado, como uma bola de baseball. Outro desafio proposto por Shallit está relacionado a 5 questões sobre teoria da informação, que vão de encontro as premissas de Dembski sobre o tema. Vale lembrar que nenhum dos dois desafios foram respondidos por Dembski ou qualquer outro teórico da complexidade especificada.

Um ponto histórico que merece ser citado é que o termo “complexidade especificada” foi cunhado originalmente pelo pesquisador da origem da vida Leslie Orgel para denotar o que distingue as coisas vivas das não vivas:

“Em resumo, os organismos vivos se distinguem por sua complexidade especificada. Os cristais usualmente são tomados como protótipos de estruturas simples bem especificadas, porque elas consistem de uma quantidade muito grande de moléculas idênticas agrupadas de maneira uniforme. Pedaços de granito ou misturas aleatórias de polímeros são exemplos de estruturas que são complexas mas não especificadas. Os cristais não se qualificam como vivos porque lhes falta complexidade; as misturas de polímeros não se qualificam porque lhes falta especificidade” – Leslie Orgel (1973). The Origins of Life, p. 160-161 (edição nacional).

Um “design inteligente para ateus”

Orgel usou o termo para se referir as características biológicas que na ciência se considera que tenham surgido através de um processo evolutivo. Ele estabelece alguns “requisitos necessários e suficientes para qualificar uma estrutura como viva”:

1. O objeto é complexo e, ainda, bem especificado.

2. O objeto é capaz de se reproduzir.

Estabelece também que essas condições exigem que:

a) o objeto seja um produto de seleção natural;

b) a informação necessária para especificar o objeto seja armazenada numa estrutura que é estável para o período de vida reprodutora do objeto (Leslie Orgel [1973]. The Origins of Life, p. 164).

Ou seja, Orgel trata a complexidade especificada durante todo o capítulo de seu livro demonstrando como ela é compatível e interligada com a Evolução Biológica.

O termo foi posteriormente empregado pelo físico Paul Davies de maneira similar: “Os organismos vivos são misteriosos não devido à sua complexidade por si só, mas devido à sua complexidade altamente especificada” (Paul Davies (1999). The Fifth Miracle p. 112). Seu uso por Dembski remonta à sua monografia de 1998 intitulada The Design Inference. Dembski realiza uma total subversão das ideias de Orgel e transforma sua análise qualitativa em uma análise quantitativa (William A. Dembski (2002). No Free Lunch, p. 19).

Mais uma vez notamos que Enézio não apresenta detalhes importantes sobre termos e conceitos que tenta utilizar como defesa ao design inteligente. Como podemos ver, Dembski adota o termo desenvolvido por Leslie Orgel e apenas muda sua conclusão para se adequar a sua cosmovisão.

É extremamente comum no meio do movimento do design inteligente a ausência, ou o relaxamento de delimitações no que se refere à conceituação de termos como: complexidade, complexidade biológica, informação, informação genética, fluxo de informação, algoritmos; todos apresentados sem referências cientificas, ou cujas referências foram omitidas, por serem retiradas de modelos evolutivos anteriores. Nem mesmo a delimitação de quem ou o que seria o designer inteligente existe, exatamente porque a amplitude conceitual e a falta de delimitação torna possível qualquer cosmovisão que haja dentro do movimento criacionista, quanto do design inteligente, embora ambos sejam historicamente relacionados, e essa relação permanece como de praxe. Seja essa cosmovisão relacionada a algum movimento religioso ou a alguma pseudociência respaldada por sofismas e abordagens ontológicas, como o movimento raeliano que é apresentado como um “design inteligente para ateus”. Por isso, não há como defender o indefensável, ou justificar o injustificável.

A Teoria Sintética da Evolução

Filho também apresenta o conceito de complexidade irredutível como evidência para o design inteligente. Da mesma forma que a complexidade especificada, a concepção do termo “complexidade irredutível”não pertence ao proponente do DI que o defende atualmente.

A ideia de complexidade irredutível é uma cópia de um conceito apresentado pelo geneticista estadunidense agraciado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1946, por demonstrar que os raios X aceleram ou mesmo desencadeiam mutações genéticas, Hermann Joseph Muller.

Muller, no início do século 20, discutiu um conceito similar à complexidade irredutível. Entretanto, longe de a ver como um problema para a evolução, Muller descreveu a “interdependência” de funções biológicas como uma consequência esperada da evolução, que levaria à irreversibilidade de algumas mudanças evolucionárias. Ele escreveu “Estando finalmente entrelaçado, como está, no tecido mais íntimo do organismo, o novo caráter não pode ser descartado com impunidade, e se torna vitalmente necessário” – Genetic Variablity, Twin Hybrids and Constant Hybrids, in a Case of Balanced Lethal Factors, by Hermann J Muller, in Genetics, Vol 3, Nº 5, Sept 1918.

Orr comenta em seu ensaio critico que a resposta para a complexidade irredutível de Behe já havia sido apresentada por Muller muitos anos antes e que o conceito de complexidade irredutível em nenhum momento entraria em conflito com o processo evolutivo proposto pela Teoria Sintética da Evolução:

“Gostaria de poder reivindicar o crédito para este modelo darwiniano de complexidade irredutível, mas eu estou receoso que eu tenha perdido a primazia por pelo menos oitenta anos. Este cenário foi sugerido pelo geneticista H.J. Muller em 1918 e apresentado em maiores detalhes em 1939. De fato, Muller dá razões para pensar que os genes que primeiramente melhoram a função, rotineiramente, tornam-se partes essenciais de uma via. Assim, a evolução gradual dos sistemas irredutivelmente complexos não é só possível, como é esperada. Para aqueles que não são biólogos, deixe-me garantir a vocês que eu não desenterrei as elucubrações meia-boca de algum amador obscuro. Muller, Prêmio Nobel em 1946, foi um gigante na evolução e na genética” (Orr AH [1997] Darwin vs. Intelligent Design (again): The latest attack on evolution Is cleverly argued, biologically informed – and wrong. BRev 22).

Torna-se válida também uma citação de Muller referente ao termo que ele cunhou:

“Most present day animals are the result of a long process of evolution, in which at least thousands of mutations must have taken place. Each new mutant in turn must have derived its survival value from the effect which it produced upon the “reaction system” that had been brought into being by the many previously formed factors in cooperation; thus a complicated machine was gradually built up whose effective working was dependent upon the interlocking action of very numerous elementary parts or factors, and many of the characters are factors which, when new, where originally merely an asset finally become necessary because other necessary characters and factors had subsequently become changed so as to be dependent on the former. It must result, in consequence, that a dropping out of, or even a slight change in any one of these parts is very likely to disturb fatally the whole machinery”(“Genetic Variablity, Twin Hybrids and Constant Hybrids, in a Case of Balanced Lethal Factors”, by Hermann J Muller, in Genetics, vol. 3, Nº 5, Sept 1918, pp 463-464).

A Teoria Geral de Sistemas

Em 1974, o Criacionista da Terra Jovem Henry M. Morris introduziu um conceito similar (cópia, mudando apenas a conclusão) em seu livro Criacionismo Científico, no qual ele escreve: “Este espectro pode ser atacado quantitativamente, usando princípios simples da probabilidade matemática. O problema é simplesmente se pode um sistema complexo, no qual muitos componentes funcionam unidos, e no qual cada componente é individualmente necessário para o funcionamento eficiente do todo, ter surgido por processos aleatórios” (Morris, Henry. Scientific creationism. 2nd. ed. San Diego, Calif: Creation-Life Publishers, 1974. 59 pp. ISBN 0-89051-003-2).

Em 1981, Ariel Roth, na defesa da posição da “ciência” da criação no caso de McLean vs. Arkansas, falou que “estruturas complexas integradas” não poderiam “ser funcionais a menos que todas as partes estejam ali… Como estas partes sobreviveram durante a evolução…?” (Keough, Mark J.; Geisler, Norman L.. The Creator in the courtroom “Scopes II”: the 1981 Arkansas creation-evolution trial. Milford, Mich: Mott Media, 1982. p. 146. ISBN 0-88062-020-X).

Em 1985, Cairns-Smith escreveu sobre a interconexão. Segundo ele: “Como pode uma colaboração complexa entre componentes evoluir em pequenos passos?” e usou a analogia da estrutura chamada centralização, usada para construir um arco, sendo removida depois: “Com certeza houve ‘centralização’. Antes que os múltiplos componentes da bioquímica atual possam curvar-se sozinhos ela deve primeiro curvar-se sobre outra coisa” (Cairns-Smith, A. G.. Seven clues to the origin of life: a scientific detective story. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1986. 39, 58–64 pp).

Uma dissertação apoiando o criacionismo publicada em 1994 referiu-se aos flagelos bacterianos como apresentando “componentes múltiplos e integrados”, onde “nada neles funciona a menos que todos seus complexos componentes estejam juntos” e solicitou ao leitor que “imagine os efeitos da seleção natural nestes organismos que tenham fortuitamente evoluído o flagelo… sem os mecanismos de controle concomitantes [sic]” (Lumsden RD. (June 1994). “Not So Blind A Watchmaker”. Creation Research Society Quarterly 31 (1): 13–22, quotations from 13, 20).

Um conceito anterior de sistemas irredutivelmente complexos vem de Ludwig von Bertalanffy, um biólogo austríaco do século 20. Ele acreditava que sistemas complexos deveriam ser examinados como sistemas completos e irredutíveis para se compreender como funcionam. Ele estendeu seu trabalho sobre complexidade biológica em uma teoria geral de sistemas em um livro chamado General System Theory (Teoria Geral de Sistemas). Após James Watson e Francis Crick terem publicado a estrutura do DNA no início da década de 1950, a Teoria Geral de Sistemas perdeu muitos de seus seguidores nas ciências físicas e biológicas. No entanto, a teoria dos Sistemas permaneceu popular nas ciências sociais muito tempo depois de ter sido abandonada nas ciências físicas e biológicas (Ludwig von Bertalanffy (1952). Problems of Life: An Evaluation of Modern Biological and Scientific Thought, pg. 148).

Um sistema “irredutivelmente complexo”

O argumento da complexidade irredutível foi apresentado por Behe pela primeira vez em junho de 1993, quando o “grupo de professores Johnson-Behe” se reuniu em Pajaro Dunes na Califórnia, nos primeiros dias do “movimento da cunha”. Seu argumento foi publicado no livro criacionista Of Pandas and People, na seção “Excursion Chapter 6: Biochemical Similarities”.

Podemos ver que Muller e Cairns-Smith nunca alegaram que suas ideias eram evidências de algo sobrenatural ou a atuação de um designer. Também podemos notar que essas ideias sempre foram copiadas por defensores do Criacionismo, sendo publicadas por Behe no famoso livro criacionista Of Pandas and People. Com o posterior surgimento do DI, essa ideia foi apresentada com uma nova roupagem e tornou-se um dos alicerces desse movimento. Nem o flagelo bacteriano, como vimos acima, é uma novidade do design inteligente, mas apenas uma repaginação de um argumento criacionista já conhecido. Assim como o maquinário molecular responsável pelo sistema de coagulação sanguíneo que pode ser entendido como resultado da evolução do sistema imunológico rastreado desde os invertebrados, como acúmulo de genes homólogos com vertebrados, e por não ser irredutivelmente complexo já que seu mau funcionamento não implica necessariamente na morte do indivíduo. A melhor evidência que temos disto são os tipos relativamente comuns de Hemofilia, tipo A e B, que correspondem a deficiências em fatores bioquímicos chaves da coagulação e que podem ser explicados por genética básica mendeliana. Behe, ao ser questionado pelo advogado Eric Rostchild no julgamento de Dover, sobre a leitura de livros técnicos sobre a origem e evolução do sistema imunológico, assume que não havia consultado tal literatura.

Enézio tenta atribuir a nova definição apresentada por Behe para o design inteligente de 2001 para se livrar das criticas apontadas por Cavalier-Smith, mas esquece que novas criticas surgiram e podem ser encontradas em diversos artigos peer-reviewed. Um crítica bastante conhecida pertence a Douglas Theobald e pode ser lida abaixo:

“Com o erro de Behe agora em mãos, temos imediatamente a seguinte solução embaraçosamente fácil para o enigma ‘irredutível’ de Behe. Apenas dois passos básicos são necessários para evoluir gradualmente um sistema irredutivelmente complexo a partir de um precursor em funcionamento:

1. Adicione uma parte.

2. Torne-a necessária.

É muito simples. Após estas duas etapas, a remoção da parte vai destruir a função, mas o sistema foi produzido diretamente e, gradualmente, a partir de um simples precursor funcional. E isso é exatamente o que Behe alega ser impossível”(Theobald, Douglas [Last Update: July 18, 2007] The Mullerian Two-Step: Add a part, make it necessary or, Why Behe’s ‘Irreducible Complexity’ is silly Version 1.1).

Quando analisamos os dois principais argumentos a favor do design inteligentes podemos notar que ambos foram cooptados de conceitos já existentes na literatura científica com uma singela mudança em suas conclusões ao adicionar a necessidade de um designer inteligente. Da mesma forma notamos que os conceitos demonstravam ao longo de sua história uma total ligação com a evolução biológica que foi perdida com a apropriação por criacionistas e posteriormente por proponentes do design inteligente.

Enézio apela, como todo defensor do designer inteligente, ao mascote do movimento, o flagelo bacteriano. Em sua sede de apresentar pelo menos uma evidencia favorável a seu movimento, acaba cometendo gafes e demonstrando desconhecer as publicações mais recentes na área que tenta apresentar.

Enézio diz que pesquisas experimentais identificaram mais de 30 proteínas necessárias para formar o flagelo e apresenta o artigo a seguir como evidencia: Robert M. Macnab, “Flagella,” in Escheria Coli and Salmonella Typhimurium: Cellular and Molecular Biology vol. 1, pp. 73-74, Frederick C. Neidhart, John L. Ingraham, K. Brooks Low, Boris Magasanik, Moselio Schaechter, and H. Edwin Umbarger, eds., Washington D.C.: American Society for Microbiology, 1987.

Logo a seguir, apresenta a citação “… a comunidade de pesquisa do flagelo mal começou a considerar como que esses sistemas evoluíram” do artigo de PALLEN e MATZKE, 2006. Só que nesse momento, Enézio demonstra que não leu ou não entendeu o artigo que acaba de citar.

Em uma extensa tabela apresentada no artigo de Pallen e Matzke, os pesquisadores demonstram que temos 23 proteínas classificadas como indispensável para o funcionamento de um flagelo “moderno”, o que representa (55%) de um total de 42 proteínas. Dessas proteínas, apenas 15 são únicas, ou seja, não possuem até o momento homólogos conhecidos. E para finalizar teríamos apenas 2 proteínas que juntam a característica de serem indispensáveis e únicas no funcionamento do flagelo, representando apenas 5% das 42 proteínas. Com base nos detalhes apresentados nesse artigo e nos baseando nele acabamos visualizando um quadro muito diferente do exibido pelos proponentes do D.I a mais de 10 anos.

Outro ponto interessante que foi ignorado pelo sr. Enézio é o abstract desse artigo que responde sua citação escolhida dentro de um texto: Pallen MJ, Matzke NJ. (2006). “From The Origin of Species to the origin of bacterial flagella” Nature Reviews Microbiology, 4(10), 784-790. October 2006. Advanced Online Publication on September 5, 2006. [Link] – “In the recent Dover trial, and elsewhere, the ‘Intelligent Design’ movement has championed the bacterial flagellum as an irreducibly complex system that, it is claimed, could not have evolved through natural selection. Here we explore the arguments in favour of viewing bacterial flagella as evolved, rather than designed, entities. We dismiss the need for any great conceptual leaps in creating a model of flagellar evolution and speculate as to how an experimental programme focused on this topic might look.”

A controvérsia inexistente

Como podemos notar no decorrer desse texto, a controvérsia apresentada por Enézio é baseada em reinterpretações de resultados de artigos científicos, textos interpretados ao bel-prazer e apropriações de termos científicos muito bem definidos que foram subvertidos para se adequar a uma resposta a priori.

A única tentativa de apresentar evidências da dita controvérsia se resumiram em uma apropriação do documento A Scientific Dissent from Darwinism e a extrapolação de seu foco, refutada pelo próprio site que divulga o manifesto. As evidencias para o design inteligente são simples apropriações e subversão de conceitos, que já haviam sido usados por criacionistas e foram repaginadas, como o Relógio de Paley.

Acredito que esteja extremamente claro que a argumentação de Enézio tenta nublar diversas evidências sobre a evolução biológica e continua não apresentando nenhuma evidência concreta a favor de um design inteligente. Além disso, podemos notar no livro Como derrotar o evolucionismo com mentes abertas, de Phillip E. Johnson, a ligação histórica do design inteligente e o criacionismo pelas palavras do próprio criador do movimento.

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Fabiano B. Menegidio é biólogo, bioinformata e mestrando em Biotecnologia pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC); Victor Rossetti é biólogo, professor de Biologia e especialista em fundamentos históricos e filosóficos da Educação Ambiental

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