Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & ECONOMIA

A ‘lógica’ das montadoras

Por Cesar Vanucci em 03/03/2015 na edição 840

“Por que os carros vendidos no Brasil são mais caros? Quem está apto a responder a esta pergunta?” (Domingos Justino, educador)

A mobilização de operários no ABC paulista obrigou algumas montadoras de veículos a recuarem na disposição de demitir colaboradores. A alegação das empresas, segundo os principais jornais, foi de que as vendas de veículos no exercício passado acusaram resultados menores do que em 2013, quando mais um índice expressivo na produção e na comercialização foi novamente atingido. O argumento é leviano. De inconsistência assustadora.

A se levar a sério a “lógica” dos fabricantes, a compra de veículos pelos usuários teria que acusar todos os anos, invariavelmente, ilimitadamente, quantidades sempre ascendentes. Se essa frenética expectativa venha a se frustrar, mesmo que os números se revelem satisfatórios para a cadeia produtiva e comercial (como mais uma vez ocorreu em 2014), o “recurso aconselhável” é promover dispensas maciças de mão-de-obra. Fórmula padrão “altamente eficaz” para garantir em altitudes everestianas a lucratividade dos negócios, de maneira tal que os ditosos beneficiários do processo não se desacostumem.

Para quem se compraz com raciocínio tão utilitarista, tão exageradamente mercantilista e, ao mesmo tempo, tão despojado de sensibilidade social, não basta que o mercado brasileiro no setor seja dos mais atraentes do mundo; seja incomparavelmente o mais rendoso para a atividade, o mais favorecido com subsídios fiscais e outras benesses tão ao agrado das organizações que, ao longo dos tempos, resolveram por aqui “arrancharem-se”. Não basta que o governo, volta e meia, “invente” estímulos (em detrimento das receitas oficiais) para não interromper o ritmo delirante das operações comerciais. O que importa mesmo, no duro, é a conquista do pódio do lucro. Repetitivamente, com recordes que não deixem de atender ao insofreável apetite dos interessados.

Algum tempo atrás, em reportagem que encontrou boa ressonância nas redes sociais, mas não rendeu desdobramentos, sabe-se lá por quais respeitáveis motivos, na comunicação impressa, televisão e rádio, a Rede Record divulgou dados impressionantes sobre os abusivos custos de veículos e os exagerados lucros das fábricas de automóveis que operam no país. Ficou exuberantemente demonstrado que em nenhuma outra parte do planeta um carro custa tão caro. Exemplo dos mais contundentes foi o de um modelo cotado no Brasil a valor que, nos Estados Unidos, permitiria a aquisição de quatro unidades da marca. Outra informação impactante disse respeito à inacreditável constatação de que veículos de fabricação nacional exportados para outros países (casos da Argentina e México) são repassados aos consumidores locais por valores que chegam a representar a metade do que é cobrado por aqui.

Ameaça de dispensas

A reportagem esclareceu ainda, de modo bastante preciso, que a disparidade nos custos não decorre da carga fiscal. Deriva, única e exclusivamente, dos exorbitantes lucros auferidos pela engrenagem de comercialização estruturada entre nós. A expressão correta para classificar os desníveis detectados é uma só: ganância descomedida.

Um dado perturbador a mais de suma relevância. Com cerca (anotem, por favor, a expressiva cifra) de 3.4 milhões de automóveis vendidos em 2014, o Brasil continuou a ser o quarto maior mercado do mundo inteiro no setor automobilístico. Acima colocam-se apenas, nesta ordem, a China, os Estados Unidos e o Japão. A queda no emplacamento de carros novos foi, entre 2013 e 2014, de 6.9%.

Temos diante dos olhos, claramente configurada, uma situação onde a ameaça de dispensas soa clamorosamente como desrespeito. Exatamente, desrespeito à nação que, certeiramente, maior grau de participação tem assegurado, em termos de ganhos, no curso dos anos, aos balanços contábeis das montadoras.

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Cesar Vanucci é jornalista

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