Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

FEITOS & DESFEITAS > QUESTÃO DE PESO

A valorização e aceitação da mulher gorda na internet

Por Amanda Kelly Santos de Santana em 03/03/2015 na edição 840

“As estantes das livrarias estão repletas de best sellers sobre como emagrecer em tempo recorde e ser, entre tantas outras coisas, uma pessoa com padrão físico aceitável. Mas aceitável para quem? Afinal, você deve emagrecer para se sentir melhor ou para fugir dos olhares maldosos alheios?”, diz Renata Poskus Vaz, 32, criadora do blog Mulherão. Discursos como esse, de valorização e auto aceitação da mulher gorda, têm tido eco em alguns espaços da sociedade atualmente.

Na internet, blogs para mulheres acima do peso chamam a atenção por entrarem em choque com a imposição de um corpo magro. Eles aparecem como um meio de comunicação alternativo frente à mídia tradicional; parece haver possibilidade de que sua prática discursiva gere mudança social para mulheres gordas e na sociedade como um todo.

A blogueira Renata Vaz critica o julgamento superficial baseado na aparência do corpo e assume o preconceito para com a pessoa gorda como uma dificuldade para se aceitar e conviver socialmente. “A maioria das pessoas olha para quem está acima do peso com desdém, como se fôssemos menos, como se capacidade fosse medida pela quantidade de quilos que possuímos. E isso arrasa qualquer pessoa”, desabafa. Renata explica que o problema não é a falta de peças. “Hoje em dia, grandes redes e lojas de rua oferecem roupas para mulheres plus size, mas é difícil encontrar tecidos e estampas que sigam a tendência, assim como modelagens favoráveis às gordinhas jovens”, afirma. Ela ressalta ainda que esse mercado tem recebido vários investimentos e novidades, a cada ano, cresce o faturamento nesse ramo que atende todas as numerações, do PP ao GG.

Em todo o país, o mercado da moda plus size já movimenta anualmente cerca de R$ 4,5 bilhões, o que significa cerca de 5% do faturamento total do setor de vestuário em geral, que hoje ultrapassa os R$ 90 bilhões, segundo a Associação Brasileira do Vestuário (Abravest). Esse movimento se faz perceber ainda na criação de coleções de roupas com modelagem maior, em lojas de departamento – coleção de Preta Gil para C&A é um caso; comercialização de produtos (como cadeiras e joias) – o que evidencia um aspecto comercial do movimento; na criação de um concurso de beleza disputado por mulheres acima do peso, o “Miss Brasil Plus Size”; na realização do desfile de moda “Fashion Weekend Plus Size”, com modelos mais cheinhas; e na presença de alguns, ainda poucos, editoriais de moda em revistas femininas.

O desafio de criar moda

Para Alice Cortez, de 37 anos, ainda há preconceito por partes dos lojistas: “Não entendo por que mesmo grandes redes de departamentos que têm roupas de tamanhos maiores jamais colocam uma manequim gordinha na vitrine. A cliente plus size não tem bola de cristal e acaba se sentindo tímida para entrar. Perde-se um mercado incrível”, conta a pedagoga, que não nega seus 98 quilos. Ela confessa que, por vergonha, deixa de ir às lojas e prefere comprar roupas pela internet. “O problema já começa assim que você entra. Nenhum vendedor vem te atender porque sabe que o trabalho vai ser grande – encontrar algo que a gente goste com o tamanho que a loja oferece é uma missão quase impossível. Depois vem o fato de você procurar algo que esteja na moda e que caiba em você. Para completar a frustação de ter andado umas 200 lojas e voltar para casa sem nada”, diz.

Ana Carla, de 23 anos, vendedora de uma magazine há dois, defende-se: “A maioria das clientes acima do peso que chegam à loja pega um short tamanho 40 e quer que entrem nelas de qualquer maneira. Infelizmente, não fazemos milagres”, diz. Carla, que se sente constrangida ao ouvir suas clientes falar que a roupa ficou apertada diz que “é frustrante vê-las saindo sem comprar nada, não pelo fato de não ganharmos nossa comissão com a venda, mas por elas saírem com a autoestima baixa. Muitas delas pensam que foi por má vontade, mas não somos nos que mandamos confeccionar as roupas”.

Além de marcas que vêm investindo na linha para gordinhas, há ainda um crescimento de confecções especializadas em moda plus size. O crescimento desse mercado também se reflete na internet, como é o caso da loja online Flaminga, especializada em moda para pessoas acima do peso. “A maioria das gordinhas não tem prazer na compra física”, afirma Sylvia Sendacz, sócia-proprietária da Flaminga. “Já online, elas não precisam passar pela humilhação de, no provador, ter de ficar pedindo um número maior para a vendedora”, acrescenta. A loja online também explora outro nicho, o de moda plus size voltado para um público mais refinado. “Nosso desafio é convencer marcas para a classe A a investirem em roupas de qualidade para gordinha, mostrar que é um desafio criar moda para elas”, conta a empresária.

Roupas chegam à numeração XXXXG

Porém, a grande dificuldade para a venda de roupas pela internet é a padronização dos tamanhos, mas esse drama deve chegar ao fim. O Comitê Brasileiro de Têxteis e do Vestuário (ABNT/CB-17), da Associação Brasileira de Normas Técnicas, está padronizando as medidas para o vestuário feminino no Brasil. Atualmente, cada confecção define a sua própria numeração e modelagem. A falta de padronização de tamanhos tornou-se um problema não só para consumidores, mas também para lojistas, que têm de lidar com a frequente troca de peças.

A norma deve entrar em vigor no primeiro semestre de 2015 e a adesão das confecções é voluntária. Em 2009, a ABNT definiu as medidas para as roupas infantis e, em 2012, para as masculinas. As lojas que adotaram a norma passaram a indicar, além do tamanho, a estatura ou tipo físico para qual a peça foi feita.

Outro exemplo, é a loja La Gordinha, das irmãs empresarias Wilza, Paola e Virginia Fernandes. Elas contam que a marca surgiu da ansiedade de achar roupas que se adequassem aos corpos delas, mas que ao mesmo tempo, fosse jovem e atual. “Quando, finalmente, encontramos uma loja, aqui em Natal, que tinha roupas com a nossa modelagem e que acompanhava as tendências da estação, o preço era extremamente caro e isso foi desestimulante”, conta Paola. A partir disso, elas começaram a conversar com amigas, também acima do peso, e viram que não estavam sozinhas. “Começamos a pesquisar o mundo da moda plus size e descobrimos que poderíamos achar peças atuais e com bons preços” diz. Hoje, a La Gordina só trabalha com roupas femininas para uso cotidiano. As modelagens vão do número 44 ao 56. “Nossa coleção prioriza o estilo casual, pois trabalhamos com roupas confortáveis, joviais, práticas e que tenham um preço justo. Estamos sempre antenadas para as novas tendências, por isso trabalhamos com as melhores marcas do segmento plus size, como, Talento, Julia, Lenner”, fala.

Vanessa Freire, de 24 anos, atualmente pesa 52 quilos, mas já chegou a pesar 97. “Hoje visto 38 ou 40. Mas na minha adolescência eu só encontrava aqueles conjuntos estampados horrorosos ou aquelas roupas muito escuras, com muito preto. Evitava sair para festinhas com amigas ou até ir às compras” conta. Vanessa acha que não deveriam existir lojas de magrinhas e gordinhas. “O certo seria encontrarmos roupas em qualquer magazine, como acontece no Chile, por exemplo, onde grandes lojas chegam à numeração XXXXG. A gordinha quer se vestir bem, igual à mocinha da novela das 21h”, acrescenta.

Uma pesquisa realizada em 2012 pelo Instituto Nielsen com 25 mil mulheres e homens no Brasil revelou que 62% se dizem insatisfeitos com o próprio corpo, 43% se consideram um pouco acima do peso, 16% acima do peso e 3% muito acima do peso.

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Amanda Kelly Santos de Santana é jornalista

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