Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > QUAL A COR?

Azul-pretinho básico

Por Pascal Wallisch em 03/03/2015 na edição 840
Reproduzido do suplemento “Aliás” do Estado de S.Paulo, 1/3/2015, tradução de Terezinha Martino; intertítulos do OI

Se você viu, na semana passada, o vestido da fotografia acima e acompanhou todo o alvoroço criado em torno dele nas redes sociais deve querer entender o que se passa.

O cérebro habita uma carapaça óssea. A natureza completamente opaca do esqueleto deixa essa carapaça em completa escuridão. De modo que o cérebro depende dos olhos para ter uma imagem do mundo exterior, mas existem muitos estágios entre a transformação da energia da luz em impulsos elétricos que ocorrem no olho e a atividade neural que corresponde a uma percepção consciente do mundo externo. Em outras palavras, contrariamente à crença popular, nossa percepção é que nos oferece a melhor perspectiva do que ocorre no mundo exterior, não necessariamente como as coisas realmente são. Isso já é conhecido há pelo menos 150 anos, desde a época de Hermann von Helmholtz (médico e físico alemão que no século 19 estudou a visão, as cores, a percepção visual e a percepção espacial). Mas essa semana ficou conhecido também por um número incalculável de pessoas que estão debatendo furiosamente na internet uma questão muito simples: qual a cor do vestido?

Muitas partes do cérebro contribuem para uma determinada percepção e não é surpresa o fato de que diferentes pessoas recriam o mundo exterior de diferentes maneiras. E essa é uma verdade no caso de muitas qualidades perceptivas, incluindo forma e movimento. Embora esse jogo ocorra o tempo todo, é possível demonstra-lo claramente criando imagens de estímulos esmaecidas coerentes com interpretações diferentes e mutuamente excludentes. Isso significa que o cérebro não se compromete necessariamente com uma interpretação, mas muda de um lado para outro. O fenômeno é conhecido como estímulos ambíguos ou biestáveis, e eles ilustram o ponto que o cérebro está basicamente apenas supondo quando tenta perceber o mundo. Normalmente ele dispõe de informação para uma interpretação sem ambiguidade.

O fato de o cérebro estar constantemente criando um modelo do que o mundo realmente parece vale também para a visão da cor. O problema fundamental na percepção da cor é identificar um objeto apesar das condições de iluminação que mudam constantemente, com luz ambiente mais clara ou mais velada. O amálgama de comprimentos de onda que chegam a nossos olhos será interpretado pelo cérebro como cor, mas quanto é devido à refletância do objeto e quanto se deve à iluminação circunjacente?

Essa é uma situação inerentemente ambígua, de modo que o cérebro tem de decidir se aceita o aspecto de um objeto por seu valor de face ou deduz parte da informação como decorrente da iluminação. O cérebro não está primariamente interessado na representação correta das tonalidades, mas sim na identificação de objetos à luz de condições que variam intensamente. (Por exemplo, os comprimentos de ondas longas predominam no início da manhã e no final da tarde, e contrariamente, os comprimentos de ondas curtos são predominantes ao meio dia). O cérebro, pelo contrário, busca uma “constância de cor” – reconhecendo o mesmo objeto como tendo a mesma cor não importa a hora do dia – e realiza um bom trabalho nisto.

Percepção da cor

Mas neste toma lá dá cá para deduzir comprimentos de onda específicos, alguma coisa tem de ser oferecida e é neste ponto que somos ruins para avaliar as cores absolutas dos objetos. Por exemplo, uma superfície branca iluminada por uma luz vermelha objetivamente parece avermelhada. A mesma superfície branca iluminada por uma luz azul objetivamente parecerá azulada. Para reconhecer ambas como a mesma superfície branca, a percepção subjetiva necessita deduzir a cor da fonte de luz.

Portanto, não surpreende que a inferência da cor é fortemente influenciada pelo contexto. O mesmo tom de cinza pode parecer quase negro num fundo iluminado, mas quase branco num fundo escuro.

Note-se que não se trata de um defeito, mas de uma característica. É necessária uma troca nessa busca para obter uma aparência estável do mesmo objeto, independentemente do contexto.

Até agora, tudo bem. Mas onde é que entra o vestido? A mais recente sensação que vem arrebatando a mídia social divide drasticamente os observadores. Alguns veem o vestido em cor dourada sobre o branco, outros como preto sobre azul.

Como observei anteriormente, esse tipo de divergência de interpretação é comum no caso de estímulos complexos. A importância do estímulo do vestido é saber até que ponto a interpretação subjetiva difere entre as pessoas. Pelo meu conhecimento, de longe esse é o estímulo mais extraordinário no campo da cor. Naturalmente temos de levar em conta o fato de que o monitor de cada pessoa está calibrado da mesma maneira e os ângulos de vista podem ser diferentes, mas isso não é responsável pelas diferentes experiências subjetivas das pessoas que estão vendo a mesma imagem exata no mesmo monitor e a partir da mesma posição. E naturalmente a razão pela qual as “cores verdadeiras” do vestido são objeto de discussão diz respeito ao fenômeno da constância da cor a que me referi anteriormente. Esse foi provavelmente um vestido preto/azul fotografado com um balanço de branco esmaecido, o que dá a ele um aspecto ambíguo. Mas isso não muda o fato de algumas pessoas verem sinceramente o vestido nas cores branca/dourada.

Que a interpretação dos valores de cor em si depende do contexto isso pode ser observado imediatamente quando extraímos o contexto.

Mas por que a diferença de interpretação? É nesse ponto que as coisas ficam interessantes. Se a ambiguidade deriva da constância da cor (e parece ser verdade), a explicação mais plausível é que as pessoas interpretam de modo diferente a fonte de iluminação. Aquelas que interpretam o vestido como sendo iluminado por uma luz azul (correspondente a um fundo claro) vão deduzir isso e vê-lo nas cores branco/dourado. Os que interpretam a iluminação como avermelhada (num fundo mais escuro) tenderão a vê-lo em preto/azul. O interessante é que a própria imagem permite as duas interpretações: a iluminação parece azulada no topo da imagem, mas amarelada/avermelhada embaixo. Num plano mais fundamental, um vestido azul/preto iluminado por uma fonte de luz branca pode ser idêntico a um branco/dourado com uma sombra azulada sobre ele.

Mas se é esse o caso, deveríamos ser capazes de, conscientemente, ignorar essa interpretação quando fica destacada, mas para muitas pessoas esse não é o caso. Normalmente as pessoas conseguem controlar deliberadamente o que veem.

Essa persistência cria várias possibilidades interessantes. Por exemplo, foi reconhecido há algum tempo que o “mosaico retiniano” humano – a distribuição de cones de comprimentos longos, curtos e médios – é radicalmente diferente entre os observadores, mas parece que isso tem um impacto insignificante na real percepção da cor. Talvez por isso as diferenças no mosaico retiniano respondam pela percepção diferente desse tipo de estímulo “vestido” ambíguo.

Mente aberta

Além disso, há um outro contexto a considerar, o contexto temporal. Não só apreendemos os estímulo visuais ingenuamente, mas os apreendemos no contexto do que já vimos antes, em parte porque nem todos os estímulos são igualmente plausíveis. Essa expectativa apreendida é conhecida como “prior” (anterior). É bem possível que algumas pessoas (madrugadoras versus noctâmbulas) tenham uma “prior” diferente com base nas condições de iluminação com que elas se defrontam frequentemente. Ou pode haver uma interação complexa entre as duas.

Embora seja preciso confessar que no momento não sabemos porque algumas pessoas veem consistentemente o vestido de uma maneira e outras de um modo diferente e algumas mudam para um e outro caso, é notável que a mudança se verifica em escalas de tempo muito longas. Normalmente a mudança é rápida. A demora pode ser típica da visão da cor. Não existe outra alternativa senão pesquisar as razões subjacentes que explicam esta diferença surpreendente na percepção subjetiva.

Ao mesmo tempo, uma lição a ser extraída de tudo isso é que o sensato é adotar uma posição de humildade epistêmica. Simplesmente porque vemos alguma coisa de uma certa maneira não significa que todos a enxerguem do mesmo modo. Além do que isso não significa que nossa percepção corresponda necessariamente a alguma coisa no mundo real. Numa situação como essa devemos nos proteger e isso significa manter a mente aberta. Algo para lembrar da próxima vez que você discordar de alguém.

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Pascal Wallisch leciona Psicologia e Neurociência na New York University. Escreveu este artigo para a revista eletrônica Slate

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