Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > CINEMA

‘Birdman’ e a redenção

Por Renato Tardivo em 03/03/2015 na edição 840

O diretor mexicano Alejandro Iñarritu tem no currículo filmes fortes e transgressores, como Amores brutos (2000) e 21 gramas (2003). Mas é com Birdman (2014) que o cineasta tem alcançado maior notoriedade. Com nove indicações ao Oscar, o filme ganhou em quatro categorias – fotografia, roteiro, diretor e filme –, sagrando-se o grande vencedor da noite. Curiosamente, Birdman, que se propõe criticar a indústria do espetáculo, está sendo aclamado por essa própria indústria.

A história é sobre a crise profissional e pessoal vivida pelo protagonista Riggan Thomson (Michel Keaton), ator que se notabilizou ao interpretar o super-herói Birdman, o Homem-pássaro (lembremos que Keaton já foi o Batman, o Homem-morcego). Mas, agora, às voltas com problemas financeiros e existenciais, ele procura ser novamente reconhecido, dessa vez por meio de um trabalho mais “verdadeiro” e autoral.

Thomson batalha para montar na Broadway uma adaptação de um conto de Raymond Carver, algo próximo a uma arte autônoma, em contraposição a uma arte redundante e esvaziada, dentro da qual ele se sente um ator morto, um pai morto, um ex-marido morto.

Sua filha (Emma Stone), que acabara de deixar uma clínica de reabilitação, o ajuda na produção da peça. O triângulo se fecha com a chegada do talentoso ator, aclamado pelo público e pela crítica, interpretado por Edward Norton (uma vez mais, há um paralelo com a realidade: é impressionante a habilidade de Norton em subir de escala os filmes em que atua).

A absolvição da indústria cinematográfica

A câmera mergulha nos bastidores do teatro. O espectador (do filme) assiste à peça da perspectiva da coxia. O recurso ao plano-sequência é largamente utilizado a fim de sublinhar a ação e o conflito para além do palco. Nos bastidores – camarins, arredores do teatro, o terraço do prédio, a Times Square, o bar frequentado pela crítica ranzinza do New York Times –, descobrimos que as personagens estão amarguradas e infelizes. Todos brigam com todos para que a peça aconteça.

A temática da realidade e ficção de que se vale o roteiro estabelece um paralelo com a crise existencial de Thomson. Em ambas, colocam-se as questões: Quem é mais real? Qual lado triunfará? Esse conflito é levado ao limite, por meio do realismo mágico, com o embate esquizofrênico vivido por Thomson, que à revelia encontra o homem-pássaro em si. Para se constituir, ele precisa organizar os elementos do seu passado em uma espécie de peça interna, e essa é a sua dificuldade (e a de todos).

Ocorre que a linguagem catártica, a urgência em resolver os conflitos e, mesmo, a Broadway enquanto cenário de arte autônoma são elementos suficientes para concluir que a crítica que o filme faz à indústria do espetáculo não funciona como poderia. Ao contrário, superestimado, Birdman se vale de elementos dessa indústria e, nessa medida, reproduz o sintoma do protagonista, sem propor uma reflexão a esse respeito – faltam lacunas.

Mas, se o filme não prescinde do espetáculo e o projeto não cumpre com o que propõe, ele também não é de se jogar fora, uma vez que ao menos aborda questões pertinentes. Isso faz de Birdman algo muito diferente do que se realiza atualmente? Com certeza, não. Há filmes recentes que se valem dessa questão de modo mais interessante – Acima das nuvens, produção francesa dirigida por Olivier Assayas, e, em menor escala, O crítico, do argentino Hernán Guerschuny, são exemplos.

Talvez o retorno tão positivo da indústria do cinema a Birdman passe pela inevitável necessidade de absolvição dessa própria indústria e daqueles que a compõem. Apregoar que o filme de Iñarrituos representa implicaria uma redenção análoga à do protagonista: uma crítica (superficial) de si mesma. Mas isso não é problema só do filme.

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Renato Tardivo é escritor e psicanalista

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