Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > PORTUGAL

Preso, ex-primeiro-ministro diz não ter conta no exterior

Por Lucas Marinho Mourão em 03/03/2015 na edição 840

Há meses que um dos assuntos em destaque na imprensa portuguesa é a prisão do ex-primeiro-ministro português José Sócrates. Em suas últimas exibições, os telejornais dedicaram horas ao assunto.

No dia 21 de novembro de 2014, José Sócrates foi detido ao chegar ao aeroporto de Lisboa, suspeito de fraude fiscal, corrupção e lavagem de dinheiro. Ele está detido na cidade de Évora, interior de Portugal. Sócrates foi o primeiro ex-primeiro-ministro da história de Portugal a ser preso.

As investigações se iniciaram após o banco Caixa Geral de Depósitos informar a Justiça sobre movimentações financeiras suspeitas. Segundo os investigadores, por meio de complexas movimentações bancárias, o dinheiro de Sócrates era transferido para a conta de representantes da empresa farmacêutica suíça Octapharma. Falsas faturas eram inventadas para lavar o dinheiro. Afirma-se também que o motorista do ex-primeiro-ministro periodicamente lhe entregava altas quantias de dinheiro em espécie.

Em entrevista à Rádio Televisão Portuguesa (RTP), Sócrates afirmou que nunca teve contas no estrangeiro. Revelou ainda que quando deixou o governo, chegou a pedir um empréstimo bancário.

Sócrates foi primeiro-ministro de Portugal entre março de 2005 e junho de 2011 pelo Partido Socialista. No Brasil, desde de 2013, ele ocupa o cargo de presidente do conselho consultivo para a América Latina da farmacêutica Octapharma.

Vida de luxo em Paris

A insistência do assunto na mídia é notória. Tanto as capas dos jornais impressos, quanto as notícias dos telejornais, todas tratam detalhadamente do caso. E isso se deve principalmente pela posição que Sócrates ocupou. Comparando: como se o ex-presidente Lula fosse preso.

Especialistas se dividem: uns acreditam estar acontecendo um linchamento público, armação de um circo mediático, exagero jornalístico. Outros defendem que devido à magnitude da situação (prisão de um líder da democracia europeia) o caso está muito bem tratado, aliás, mais atenção poderia ser dada.

Curiosos são os detalhes dessa repercussão.

A televisão portuguesa, muito acostumada a ter diferentes comentaristas em sua programação, tem tratado as diversas facetas do ocorrido. Os comentaristas trabalham a visão política, financeira, policial, jurídica e até gastronômica.

Após deixar o cargo político, Sócrates mudou-se para Paris para cursar um mestrado na Sorbonne naquela cidade. Então muitos comentários foram dedicados à considerada vida de luxo que Sócrates tinha na capital francesa. Seu apartamento milionário, sua frequência em restaurantes de luxo, o valor do carro comprado e as viagens.

Destaque na pauta

O importante trabalho de Denis Renó e Taís de Souza (Escândalo ou notícia: Os discursos construídos pelas revistas Vejae CartaCapitalsobre as denúncias contra o PT e o governo Lula. Comunicação & Informação, UFG, vol. 4, p. 14, 2008) defende que “o escândalo nasce de uma revelação de algo, relevante ou não, que provoque repercussão pública. Em seguida, ao ser aproveitado pela mídia, o escândalo recebe um upgrade direcional, uma reforma em seu conteúdo e, obviamente, em seus efeitos. O enredo do escândalo passa a ser tratado como algo importante, incomum, recebe uma valorização e é traduzido de outra, ou de outras formas aos receptores. Surge, então, o escândalo midiático, construído para atender às necessidades da mídia”.

Segundo Thompson (O escândalo político: o poder e visibilidade na era da mídia. Petrópolis: Vozes, 2002), o escândalo, a certa altura dos acontecimentos, acaba por ser reformado pela mídia, que o valoriza e define os caminhos desejados. Nesse processo, a história passa a ser contada e recontada.

Os escândalos acontecem e a mídia ajuda a construí-los e mantê-los.

A cobertura da prisão de Sócrates se assemelha a casos notórios no Brasil (prisão dos envolvidos no mensalão, cartel dos trens em São Paulo, corrupção na Petrobras), evidentemente que numa escala menor.

Independentemente dos motivos que levam casos como esses a terem tanta visibilidade (personagens são figuras públicas e representantes do povo, prática de crime, crescimento da audiência buscando detalhes sobre os escândalos) o que se percebe é que, seja no Brasil ou em Portugal, América Latina ou Europa, políticos envolvidos em escândalos sempre terão preferência e destaque na pauta noticiosa.

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Lucas Marinho Mourão é jornalista, pesquisador em Telejornalismo e doutorando em Comunicação na Universidade de Coimbra

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