Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > ‘NOVA ESCOLA’

Sexo, sexualidade e gênero na formação de professores

Por Ismar Inácio dos Santos Filho em 03/03/2015 na edição 840

A revista Nova Escola, edição de fevereiro de 2015, ano 30, nº 279, foi motivo de diversas discussões nas redes sociais desde que foi divulgada na internet. O rebu sobre essa edição do periódico aconteceu devido à reportagem de capa, intitulada “Vamos falar sobre ele?”, com subtítulo “Como lidar com um aluno que se veste assim? Uma reflexão sobre sexualidade e gênero”, fazendo referência ao garoto britânico, de cinco anos, Romeo Clarke, com foto estampada de fundo, na qual aparece usando vestido de cores rosa e azul, e com tiara de princesa na cabeça. Essa capa, portanto, foi suficiente para que alguns se perguntassem “Em que mundo estamos vivendo?”, no sentido de dizerem que não é aceitável tal destaque ao assunto, não é aceitável a fotografia na capa, bem como não é aceitável o próprio Romeo.

Entretanto, aplaudindo a discussão na revista, afirmamos que a reportagem é bem-vinda e necessária na formação docente brasileira, tendo em vista o contexto de superdiversidade identitária em que vivemos, contexto também de preconceito exacerbado em relação aqueles que não estão e não querem estar no centro, nos padrões de vida arbitrariamente impostos pela tradição.

Assim, é importante entendermos qual abordagem foi realizada pela revista acerca de sexualidade e gênero que provocou o desagrado de alguns e recebeu aplausos de muitos outros. Se situarmos a revista Nova Escola, compreendemos que em seus 30 anos de publicação essa se constituiu como uma agência de formação de professores em nosso país. Nesse lugar discursivo, ao menos em três outras últimas edições abordou a “educação sexual”, em 2006, 2008 e 2013, em reportagens de capa. Nessas, diferentemente da edição atual, o objeto de discurso foi a “educação sexual”, sendo praticamente entendida na condição de “falar de sexo”, esse em sua característica quase apenas biológica (e mesmo instintiva).

Para essa “professora”, a revista, tal educação perpassaria por assuntos como “masturbação”, “namoros calorosos” e “homossexualidade”, dentre outros temas denominados de “assuntos íntimos”, frente ao comportamento padrão imposto em nossa cultura ocidental, abordagem considerada necessária devido às inquietações, curiosidades e dúvidas dos alunos e das alunas. Nesse raciocínio, a Nova Escola visava formar o professor e a professora no sentido de “saber lidar com esses temas”, levando-os a “ajudar os alunos e as alunas a enfrentarem uma fase da vida”, provavelmente a fase de afloramento de curiosidades, desejos e práticas sexuais. Parece-nos que essa “ajuda” seria levar o aluno a olhar para o próprio corpo, conhecendo-o, em possibilidades e limites, enfrentando mitos e atropelos, de modo a aprender a lidar com “situações mais delicadas à sexualidade de crianças e jovens”.

Identidades em espaço público

Ao contrário da edição que traz Romeo na capa, o objetivo da revista se restringia a recortes de narrativas de experiências docentes em situações consideradas delicadas e a dicas imperativas, pois focaliza o “como fazer”, a prática em si, o “como” o professor e a professora lidar com o sexo, muito menos com a sexualidade. A preocupação era com situações eróticas no espaço escolar, mesmo que tenha mencionado vez ou outra a flexibilização dos costumes, tais como papeis de homens e mulheres, tipos de família, sexting, muitas maneiras de ser homem e mulher e diferenças entre meninos e meninas, por exemplo. Por essa lógica, questões de gênero eram quase tratadas como se fossem diferenças morfológicas, diferenças físicas. A educação sexual era “ensinada” aos professores com sugestões de atividades para um projeto institucional.

Na edição deste mês, a Nova Escola deu um salto importante de qualidade na formação de professores no que concerne a questões de sexo, sexualidade e gênero, pois, não simplesmente se preocupou com um desenvolvimento saudável biológico ou fisiológico, mas, principalmente, com um desenvolvimento saudável psicossocial, considerado por nós como uma abordagem de grande relevância na formação docente, que ao longo dos anos tem colocado no “armário” uma discussão sobre os diversos modos de ser e viver sexualidade e gênero, tão necessitados de serem vistos por uma outra lógica epistemológica, fugindo, portanto, da perspectiva cartesiano-positivista, fundada na lama etnocêntrica, de ranço europeu colonizador de nossa formação histórica, no qual o homem branco cristão heterossexual está no centro, é o aceitável, é o normal.

Na reportagem assinada por Wellington Soares, a perspectiva conceitual, que faltou nas reportagens sobre a mesma temática publicadas em anos anteriores, ganha destaque, recebendo destaque também a abordagem explicativa, não simplesmente imperativa, que acontecia através de sugestões e dicas. No texto de Soares, os recortes de narrativas passaram a ser do ponto de visto de sujeitos que desafiam as normas de masculinidade e feminilidade, como Romeo, de cinco anos, que “adora” usar vestidos, Iana, de 18 anos, que assumiu sua homossexualidade na escola, Roberta, de 13 anos, que não aceitou ser culpabilizada por uma agressão masculina sofrida, e Emilson, de 18 anos, que se considera “agênero”. Nessa construção discursiva, a revista Nova Escola estampa esses sujeitos reais, inclusive mostrando-os em fotografias, recurso textual que marca o nosso contexto de superdiversidade, enfatizando, portanto, que são identidades que podem e devem ser vivenciadas nos espaços públicos, não simplesmente na esfera privada. Tais identidades não são negligenciadas.

Pontapé inicial

O conceito de gênero é o carro-chefe da reportagem. Logo, a ideia do que é ser homem ou mulher, menino ou menina, é abordada por uma dimensão construcionista, no sentido de que são regras construídas/atribuídas socialmente a cada sexo, e que, sendo assim, não há apenas uma forma de ser. Ou seja, a revista explica que colocar pernas fechadas ou abertas, ser forte ou sensível, usar cor azul ou rosa, por exemplo, são aspectos que ganharam força e se tornaram, arbitrariamente, normas, que são transmitidas pelas instituições, pela família, pela religião etc. Nessa “aula escrita”, é o processo que chega à formação de professores, ganho em compreensão sobre os modos de vida no contexto de superdiversidade no qual vivemos.

Na construção explicativa, é o espectro amplo de formas humanas de desejo e de modos de ser homem e mulher (apontados também pelas fotografias) que supera o binarismo heterossexualidade-homossexualidade. Passamos a falar em heterossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, transexuais, agêneros… ser é continuum de modos entre os polos binários tradicionalmente imaginados.

A questão “Como se construiu uma sociedade que se choca e entra em pânico ao ver um menino se vestindo de menina?” é um outro recurso discursivo de grande poder argumentativo frente às realidades dos sujeitos que falam nessa reportagem, que se pauta e propõe uma interpretação de viés histórico, para que se compreenda que a “penumbra” na qual foram relegados ao longo de nossa história todos aqueles que não são heterossexuais não faz mais sentido num mundo em que não vemos mais o homem branco heterossexual com mais prestígio. Por toda a exposição, nem a escola, nem a família podem se omitir dessa reflexão, desse entendimento; não podem se omitir ao acolhimento.

Do mesmo modo, Nova Escola assume que sexualidade é constituída por fatores biológicos e pelas experiências vivenciadas ao longo da vida, também num amplo espectro. E que, diferentemente de concepção tradicional, a emergência da sexualidade varia entre os indivíduos, permitindo-nos, assim, a inferência de que não há uma única fase dessa emergência, um único tempo. Entretanto, o conceito de sexualidade é pouco ou quase nada discutido, assim como o conceito de sexo, que, na reportagem, é ainda pensado morfologicamente, quando se afirma que “nascemos macho ou fêmeas, de acordo com a informação genética”. É necessário secundarizar tal ideia, de modo a assumir o entendimento de que as noções de “macho” e “fêmea” são também construções históricas, culturais, ideológicas e discursivas.

A revista Nova Escola, como uma agência de formação de professores, responde bem ao questionamento “Em que mundo estamos vivendo?” quando publica uma reportagem que não simplesmente visa “falar de sexo”, mas discutir os conceitos de sexualidade e gênero. Responde também ao questionamento (ou insulto?) acima apontado quando retira o foco do “como fazer” uma educação sexual, pautada em dicas e sugestões apenas, e preocupa-se com a produção de um outro conhecimento sobre os diversos sujeitos que lutam por voz e vez em nossa sociedade, sujeitos esses que estão diariamente em nosso convívio e que ainda são vítimas das mais diversas atrocidades pelo fato de experienciarem outros jeitos de ser homem ou mulher. Na dimensão assumida, a reportagem de Soares pode possibilitar a atuação do professor e da professora frente à vida, não simplesmente a algumas situações, permitindo, dessa maneira, que a escola compreenda que as questões de gênero e sexualidade são transversais, podendo aparecer, portanto, quando se ensina/estuda “gênero do substantivo”, por exemplo, não simplesmente em um projeto de educação sexual. Essa edição do periódico aqui em discussão pode ser o pontapé inicial para uma educação queer, na qual se preze por um desenvolvimento saudável psicossocial.

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Ismar Inácio dos Santos Filho é professor da disciplina Linguística Queer

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