Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MEDIOCRIDADE

Céticos-pessimistas-conservadores

Por Zulcy Borges em 10/03/2015 na edição 841

Na velha Europa, de uns tempos para cá surgiu uma filosofia ou ideologia que já tem, inclusive, partidos políticos e se preocupa claramente em não ser confundida com a direita nazifascista e o nacionalismo. São os eurocéticos.

No Brasil, a corrente de pensamento já ganhou grande expressão na imprensa e na política por conta de seu distanciamento do socialismo e junção a partidos liberais sem ideologia, como PMDB e PP, em que a descrença e a indiferença política e moral são a linha.

A economista Joan Robinson escreveu, no seu brilhante ensaio Liberdade e Necessidade: “Qualquer um que escreve um livro, por mais sombria que sua mensagem possa ser, é necessariamente um otimista. Se os pessimistas realmente acreditassem no que dizem, não haveria sentido em dizê-lo.”

Em tom semelhante, escreveu a crítica literária Maria Nazaré Lins Soares, em seu livro Machado de Assis e a análise de expressão: “Aqueles que buscam nas coisas apenas os aspectos externos pelas quais estas se identificam com outras em seu gênero, podem se satisfazer, para pensá-las e exprimi-las, com os lugares comuns, quer de vocabulário, quer de sintaxe, que fazem parte da tradição linguística de uma comunidade. Presos a este aparelho verbal que os possui, em última análise, vamos encontrar na obra machadiana (que retrata o Brasil do final do século 19) políticos, jornalistas, homens de letras, oradores de salão etc. cuja mediocridade ridícula é por tal meio configurada: entre a realidade e si próprios põem de permeio este anteparo de expressões convencionais , que lhes permite tão-só percorrer os caminhos já explorados por outros, protegendo-se assim contra qualquer surpresa, tanto é certo que o medíocre é por natureza conservador, mesmo quando assume atitudes de vanguarda.”

Fósforo aceso

Proclamar-se cético é assumir um distanciamento em que, acomodado na poltrona, o crítico desanca o espetáculo ocupando o lugar das estrelas como mestre passivo do conhecimento. O público costuma ser seduzido facilmente e prefere acomodar-se na ignorância do que se passa no palco, e não financiá-lo.

Os céticos-pessimistas-conservadores são argumentadores contundentes, de frases furiosas, irônicas e sarcásticas. Têm todo o status quo ao seu lado e como maior conquista os que se beneficiam da ordem permanente das coisas.

O bom cantor e compositor Benito de Paula compôs, durante a ditadura militar, uma música que transmitia muito bem a visão cética através do refrão: “Tudo está no seu lugar. Graças a Deus. Graças a Deus.” No Brasil atual, os céticos verde-amarelos estão a cantar: “Nada está em seu lugar. Graças a Deus. Graças a Deus.”

Ser cético-pessimista-conservador é, em princípio, não crer em nada, desconfiar de tudo e procurar não saber de nada; ou acender o fósforo dentro do fogão para ver se acabou o gás, como escreveu outro dia o economista Delfim Netto sobre seus colegas de dentro e de fora do governo.

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Zulcy Borges é jornalista

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