Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > ‘CHARLIE HEBDO’

Eles morreram porque foram burros

Por Fernando Jorge em 10/03/2015 na edição 841
Reproduzido d’O TREM Itabirano nº 115, março/2015; intertítulo do OI

Rajadas da metralhadora Kalashnikov mataram Jean Cabut, Georges Wolinski, Bernard Verlhac e Stéphanie Carbonnier, cartunistas, na redação do Charlie Hebdo, um jornal pequeno e achincalhador de Maomé, de Jesus Cristo, do papa Francisco, da Santíssima Trindade. Sangueira na França, em Paris. Os árabes assassinos, com máscaras negras, saíram gritando após o ataque:

– Allah Akbar! (Alá é grande!)

– Vingamos o profeta Maomé!

Ao todo, em pouco mais de cinco minutos do ataque, perderam a vida 12 pessoas.

Antes desse morticínio do dia 7 de janeiro de 2015, o Charlie Hebdo, em 2011, foi alvo de um atentado a bomba.

Qual é a causa de tamanha fúria? Por que os cartunistas tiveram, de modo violento, os fios de suas vidas rompidos?

Examino a capa da edição de 10 de julho de 2013, número 1099, do Charlie Hebdo. Exibe um muçulmano a segurar o Alcorão, a Bíblia dos árabes, crivado de balas. O muçulmano afirma, também atingido por estas:

– O Alcorão é da merda. Isto [o livro sagrado] não detém as balas (Le Coran c’est de la merde. Ça n’arrête pas les balles).

Veja, leitor, a estupidez do cartunista. É a mesma coisa que dizer para um cristão:

– A bíblia é uma bosta.

Na edição de 19 de setembro de 2012, número 1052, aparece o profeta Maomé totalmente nu, exibindo uma bunda feminina enorme, que está sendo filmada. Palavras do profeta, no desenho:

– E minhas nádegas? Tu amas as minhas nádegas? (Et mes fesses? Tu les aimes, mes fesses?).

Que cretinice! Que ofensa à fé dos árabes! Nojenta imbecilidade!

“Mil cabeças”

Agora vejam a capa da edição de 1° de outubro de 2014 do Charlie Hebdo, número 1163. O cartunista Charb (Stéphanie Carbonnier) mostra o profeta Maomé de joelhos, prestes a ser degolado por um terrorista encapuzado, todo vestido de preto. O terrorista declara, com o seu facão no pescoço de Maomé:

– Tua goela, infiel! (Ta gueule, infidèle!).

Maomé responde:

– Eu sou o profeta, idiota! (Je suis le prophète abruti!).

Os achincalhes em cima do adorado Maomé prosseguiram. Num número especial do cretino Charlie Hebdo, ele aparece ocultando o rosto e dizendo:

– É duro ser amado pelos cons (C’est dur d’être aime par des cons!).

Segundo o Dictionnaire de L’argot Moderne, de Géo Sandry e Marcel Carrère (Editions du Daupphin, Paris, 1953), a palavra con, na gíria francesa , significa “homem pouco inteligente, imbecil” (homme peu inteligent, imbécile). Portanto, conforme o infecto Charlie Hebdo, todos os muçulmanos que veneram Maomé são completos mentecaptos!

Em outro número do jornaleco ignóbil, Maomé se apresenta nu, de quatro, com grande estrela em cima do ânus, do seu órgão sexual. Texto da porcaria: “Maomé: uma estrela é nascida!” (Mahomet: une étoile est née!)

De que forma o mundo islâmico deveria reagir, ao contemplar essas infâmias? Há cerca de 1,3 bilhão de muçulmanos no planeta Terra e milhões deles se acham dispostos a se imolarem em defesa de Maomé e do Alcorão. Daí concluímos: os cartunistas do Charlie Hebdo agiram como burros. Morreram por causa de suas burrices.

Também os cristãos, os que amam Jesus Cristo, foram ultrajados pelos débeis mentais do Charlie Hebdo. Exemplos não faltam. Na primeira página da edição de 7 de dezembro de 2011, número 1016, dessa pústula da imprensa francesa, Jesus convida, de braços abertos e rosto de maluco:

– À mesa! (À table!)

Eis como o Charlie Hebdo classificou a Santa Ceia: “O jantar dos imbecis” (Le diner de cons).

A Santíssima Trindade foi retratada em poses obscenas, pornográficas, pelo jornalzinho imundo. No desenho, Jesus faz sexo anal com Deus, e o Espírito Santo com Jesus (Le pere, le fils, le saint esprit).

Há uma charge do montículo de pus Charlie Hebdo na qual o papa Bento XVI, na consagração eucarística, carrega uma camisinha (preservativo) em vez de hóstia sagrada.

Na edição de 24 de julho de 2013, número 1101, sob o título “O papa no Rio” (Le pape à Rio), o papa Francisco é puta carioca quase pelada, de sandálias altas, erguendo uma de suas pernas nuas e confessando:

– Disposto a tudo para aliciar clientes! (Prêt à tout pour racoler des clients!).

No avião que o conduziu às Filipinas, o atual chefe da Igreja Católica opinou:

– A liberdade de expressão não dá direito de insultar a fé do próximo. Se o meu bom amigo Alberto Gasparri xingar a minha mãe, pode esperar que levará um soco. É normal. Você, nesse sentido, não pode ofender, desrespeitar, debochar.

Embora o papa tenha dito a verdade, o verborrágico Reinaldo Azevedo, num texto caótico publicado na Folha de S.Paulo, edição de 16 de janeiro de 2015, agrediu o Sumo Pontífice, assegurando que suas opiniões sobre o ataque aos cartunistas e à liberdade de julgar “são covardes, imprecisas e politiqueiras”. Crítica ilógica, desconexa. Reinaldo, coloque óculos no seu cérebro. O senhor está com miopia mental.

Rafinha Bastos apoiou os canalhas do Charlie Hebdo, porque “o humorista deve ser livre para arriscar, questionar e provocar”. Mas Rafinha não é humorista, é apenas um grosseirão. Quando a cantora Wanessa Camargo estava grávida, ele disse que “comeria” essa artista e o seu filho. Se bestialidade é humor, eu não sabia…

Gerald Thomas, famoso por ter abaixado as calças e mostrado a sua bunda horrorosa no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, apoia Rafinha, prega a “irrestrita liberdade de expressão”: cada um pode dizer o que quiser, mentir, caluniar, chamar Nossa Senhora de prostituta, etc. Ótimo, Gerald, ótimo, ponha em prática a sua opinião, insulte, só pelo prazer de insultar, um severo delegado de polícia ou um altivo general do exército. Depois levarei para você, lá na Penitenciária Bangu 2, um sanduíche de mortadela…

Milhares de pessoas, em Paris, hipotecaram solidariedade ao repugnante jornal Charlie Hebdo. Usavam estes slogans: “Nous sommes tous Charlie” (Somos todos Charlie) e Je suis Charlie (Eu sou Charlie). Vendo pela televisão o movimento, a passeata, lembrei-me de novo desta frase de Voltaire: “A multidão, frequentes vezes, é uma besta com mais de mil cabeças”.

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Fernando Jorge é jornalista e escritor

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