Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > A LISTA DE JANOT

Muita lenha para pouca fogueira

Por Ivan Berger em 10/03/2015 na edição 841

Que era uma espécie de bomba relógio, todo mundo sabia. Se as investigações e consequentes prisões de operadores, donos e executivos das empreiteiras envolvidos no petrolão já foram suficientes para abalar as estruturas do governo petista, a revelação dos nomes dos políticos que teriam se beneficiado do esquema, sob um clima de expectativa e tensão como há muito não se via em nosso cenário político, teve efeitos orgásticos na chamada grande imprensa. Múltiplos, para notórios antigovernistas como a revista Veja.

Estardalhaço previsível e compreensível, dada à gravidade do caso, mas, verdade seja dita: claramente precipitado e desproporcional a um anúncio que não chegou a ter a carga explosiva que se esperava. Sem falar que se trata apenas do estágio inicial de um processo que a julgar pelos antecedentes do mensalão, promete ser longo e conturbado. É claro que a confirmação do envolvimento de peixes graúdos como os presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, figuras proeminentes do PMDB, dão e darão muito pano para manga, mas além da inclusão de ambos não ter sido nenhuma surpresa, por conta de um vazamento atribuído ao governo para pressionar o PMDB – tiro que acabou saindo pela culatra, como se sabe –, a lista de 54 nomes não chegou a ser assim tão impactante.

A rigor, os próprios nomes dos peemedebistas Edison Lobão, senador, e Roseane Sarney, ex-governadora do Maranhão, do senador Romero Jucá (PMDB-RR), e do ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Melo (PTB-AL), bem como o do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, não são de fazer cair o queixo de ninguém. Como também a participação de quase toda bancada do nanico PP, que teria sido responsável pela indicação de Paulo Roberto Costa à diretoria de Abastecimento, bem como do ex-governador e atual senador do PSDB-MG, Antonio Anastasia, já cogitado pela imprensa por ter sido mencionado num dos depoimentos do doleiro Alberto Youssef.

Nomes capazes de bagunçar o coreto, como de Dilma Rousseff e do senador Aécio Neves, foram excluídos do pedido de investigação do procurador-geral Rodrigo Janot. A presidente, que o delator Youssef garantiu estar a par da origem dos recursos que abasteceram o caixa dois do PT, por não poder ser denunciada por possíveis delitos cometidos anteriormente a seu mandato; e Aécio, por falta de elementos que justificassem um indiciamento. Ou seja, além de pouco ou quase nada acrescentar ao que já havia sido divulgado, o aguardado anúncio dos políticos envolvidos não chega a comprometer o Congresso, pelo fato de as denúncias atingirem o chamado baixo clero. E quanto à situação de Dilma, o salvo conduto garantido pelo cargo não deixa de trazer um alívio momentâneo em meio às adversidades que cercam seu segundo mandato.

O que está longe de significar que os ventos estejam mudando, muito pelo contrário. Mesmo não trazendo novos reveses ao governo, os já existentes continuam sendo suficientes para dar munição à oposição e – aí, sim, um componente novo – a certa dissidência que começa a se esboçar na imprensa aliada. Por enquanto, só dá para especular se é apenas um esmorecimento momentâneo ou uma tendência, mas o fato é que pela primeira vez nesses doze anos de governo petista, a imprensa chapa branca dá mostras de ter perdido o fôlego, quiçá a paciência com a pasmaceira em que se encontra atolado o segundo mandato de Dilma.

Fio desencapado

Até mesmo os setores mais radicais de resistência petista já não sabem para onde apontar suas baterias, tamanho o justificado bombardeio sobre um estilo de governança que acumula fracassos em todas as frentes. A ponto de causar contrariedade no próprio partido, ampliando um isolamento que obstrui as tomadas de decisões e bota mais lenha na fogueira da campanha pelo impeachment, que ganha corpos nas redes sociais e promete parar o país numa grande manifestação no domingo (15/3).

O fato é que arrefeceu, definhou, degringolou o discurso sturm und drang sobre as maravilhas de um modelo de socialismo, dito moreno, que na verdade nunca saiu dos palanques. Quando muito, apropriou-se de programas sociais já existentes, de lavra do governo FHC, para forjar paradigmas que garantiram um eleitorado cativo, sob cujo beneplácito foram perpetrados desmandos e desatinos de toda espécie. Desde a implementação de políticas governamentais equivocadas e administrativamente funestas, à escandalosa e criminosa leniência para com os propinodutos que sangraram o país praticamente ao longo de toda gestão petista, do mensalão ao petrolão.

Esquemas que de tão esmiuçados e comprovados – lamentavelmente, com uma pequena minoria responsabilizada e punida –, a essa altura deixam pouco espaço para o tradicional repertório de desculpas e manobras diversionistas esgrimido pela imprensa governista. Malogradas as recorrentes evasivas, as costumeiras alegações de falta de provas, de intrigas da oposição, campanha difamatória da mídia e os escambaus, só restou agarrar o fio desencapado de atribuir a paternidade dos esquemões fraudulentos a governos anteriores. Antecedentes que remontariam a pré-história de nosso pouco edificante passado político-administrativo.

Nessa revoada persecutória, destaca-se o malabarismo de dois notórios adeptos do lulodilmismopetismo,o blogueiro Luís Nassif e o responsável pelo programa radiofônico deste Observatório, Luciano Costa Martins, que tem seu comentários reproduzidos no site. O primeiro, empenhado em demonstrar que opção por Dilma ainda é a menos ruim, desde que ela se disponha a fazer a lição de casa que aliás, não se furta em enumerar, bem extensa, por sinal. O outro, simplesmente abandonando o espinhoso tema nesse momento tão crucial para se dedicar a exegese de nossa pirâmide social, cujo fim decretou como se fora um Francis Fukuyama tupiniquim, o pensador nipo-americano que interpretou a queda do muro de Berlim como o fim da história. Enfim, ad impossibilia nemo tenetur (ninguém é obrigado a fazer o impossível).

E não é para menos, em se tratando de uma crise que a cada dia ganha contornos mais graves e que transcende o campo político, por envolver a velha questão da diferenciação de classes, tão explorada pelo petismo, e que pode muito bem se transformar num barril de pólvora. Com o governo pressionado pela opinião pública e emparedado pelos antigos aliados, difícil dizer qual o pior cenário: se o risco de radicalização em torno do movimento pelo impeachment de Dilma – de repente mais por parte de quem é contra do que a favor, a partir do ameaçador lembrete do ex-presidente Lula de que as milícias de arruaceiros do MST estariam de prontidão –, ou a perspectiva do poder cair nas mãos do PMDB.

Dilema moral

Seja como for, esgotados os argumentos minimamente convincentes que justifiquem a permanência de Dilma, fica cada vez mais complicado contestar a legitimidade do movimento. Se não sob amparo legal, embora muitos juristas entendam que há motivos suficientes para isso, pelos danos que sua desastrosa gestão vem causando ao país. Não só no que tange aos desacertos na economia, mas ao agravamento dos problemas sociais – segurança, saúde e educação vão de mal a pior; aos fiascos no campo da diplomacia, ao desvario de promover dois megaeventos esportivos ao custo de bilhões que deveriam ser destinados às várias áreas carentes do país; e assim por diante. Em suma, seja por improbidade ou incompetência administrativa, motivos para o impeachment não faltam.

O diabo, como já disse, é que nenhuma das duas alternativas desponta como possível salvação da lavoura. A opção mais inteligente seria repensar todo o modelo político, quem sabe uma guinada para o parlamentarismo, como já se cogitava em crises passadas, instigadas pelos mesmos componentes de hoje em dia : corrupção, incompetência administrativa, promiscuidade política, conflitos entre os três poderes, etc, etc. Nesse sentido, continua mais atual do que nunca a carta “Parlamentarismo no Brasil: como, por que”, datada de 1º de agosto de 1991, de autoria de dois especialistas do ramo: Fernando Henrique Cardoso e José Serra.

Como não é uma proposta que se viabilize da noite para o dia, até mesmo pelo pouco conhecimento da população sobre o assunto – um possível plebiscito provavelmente teria o mesmo desfecho da pantomima de 1993 –, e em sendo irreversível o movimento em prol de mudanças, o ideal seria que o clamor pelo impeachment não se restringisse apenas a Dilma. Afinal, não faria sentido trocar um partido deposto por corrupção por outro que não fica atrás.

O que nos remete ao dilema moral inserido no famoso apodo do Barão de Itararé, também atribuído a Stanislaw Ponte Preta e Millôr Fernandes – “ou moralize-se a coisa ou locupletemo-nos todos “. O qual, mais do que uma síntese da mentalidade reinante, resume com perfeição o que está em jogo, e o que esperar do futuro. Em suma, se é para botar lenha na fogueira, que seja pelos motivos certos, pela moralização da vida pública, que é a origem dos males crônicos que afligem o país desde sempre. E de preferência dentro das normas de respeito e civilidade que o momento exige, pois radicalizações só viriam aprofundar as diferenças e cisões que serviram para escamotear as mazelas que permearam esses doze anos de governo petista.

Fora deste script, os riscos latentes de convulsão social sugerem que mesmo havendo motivos de sobra, cabe à imprensa moderar a fritura e assumir a responsabilidade de conduzir a bom termo essa rara chance de mudar o país. Até mesmo porque, lenha demais na fogueira pode resultar num incêndio incontrolável.

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Ivan Berger é jornalista

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